Médio natural de Guimarães fez a maioria da formação no Vitória, colecionando cromos e amealhando amigos. Ao Maisfutebol, Tomás Händel recorda figuras como Rui Borges, Quaresma e Manu Silva. E revela a chave na época do FC Porto - PARTE II
Quase três mil quilómetros separam a vila de Serzedelo de Belgrado. Todavia, a distância e o contexto social não arrefecem a paixão do vimaranense Tomás Händel pelo Vitória. O médio de 25 anos deixou o clube do coração em setembro e apostou na estreia no estrangeiro, pelos sérvios do Estrela Vermelha. Titular indiscutível, acumula 39 jogos e já conquistou campeonato e Taça, além de disputar a Liga Europa. A campanha continental passou por Braga e Porto.
Em entrevista ao Maisfutebol a partir de Belgrado, o português recorda a formação no Vitória e inúmeras figuras com as quais conviveu. De Rui Borges a André Almeida, de Ricardo Quaresma a Alex Costa, Tomás Händel não esquece o trabalho de Luís Pinto e de Luís Freire.
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Parte I: Händel e o dérbi de Belgrado: «Nada em Portugal se compara, é de outro Mundo»
Parte III: «A minha trisavó era austríaca, mas quero chegar à Seleção portuguesa»
Maisfutebol (MF): Qual a primeira memória do Vitória?
Tomás Händel (TH): As captações na infância. Lembro-me de os meus pais me levarem lá e recordo com saudade. Foi na academia do Vitória. Cheguei ao Vitória depois de começar no Moreirense e guardo amigos desde então. Sempre joguei por diversão e nunca diria que chegaria a este patamar. Fui ganhando noção e sinto-me realizado, mas quero mais.
MF: Quem era o seu ídolo no Vitória?
TH: Honestamente? Nenhum. Nunca tive uma referência ou ídolo. Quem me levou para o futebol foi o meu pai. Ele sempre gostou de jogadores refinados e inteligentes, como o Deco e o Zidane. E encheram-me as medidas.
MF: Na formação do Vitória partilhou balneário, por exemplo, com o médio André Almeida (Valência) e com o defesa Afonso Freitas (Marítimo)…
TH: São dois grandes amigos. As carreiras seguiram caminhos diferentes, mas ainda bem, porque o Afonso é campeão da II Liga e o André é um jogador fabuloso, que vai continuar a ter uma carreira muito bonita. E sou a favor de o André estar no topo do futebol português. Os clubes nacionais devem olhar mais para o jogador português.
MF: É curioso como o Vitória forma e potencia vários médios nacionais: Händel, André Almeida, Manu Silva (Benfica), entre outros. Mas são perfis diferentes.
TH: O Manu e o André são jogadores fabulosos. O Manu tem caraterísticas mais defensivas, com porte superior e muito bom a recuperar a bola. É refinado e tem muita qualidade técnica, com capacidade para pensar a construção ofensiva. Já o André é muito forte na condução de bola e muito bom no “um para um”. E eu…A minha principal caraterística é a inteligência tática, saber o que vou fazer antes de receber a bola e ler o que me rodeia. Além disso, sou “box to box”. Seríamos um grande trio!
MF: E poderíamos juntar outros médios que passaram pelo Vitória, como o Luís Esteves.
TH: Craque! Ele seria o número 10 e jogaríamos com quatro no meio.
MF: Na formação do Vitória também partilhou balneário com os gémeos Romain e Anthony Correia, que jogam no Marítimo e Académico de Viseu, respetivamente. São diferentes?
TH: O Romain era mais recatado. Sempre chamaram à atenção, porque fisicamente já eram desenvolvidos, aliando esse aspeto à qualidade de passe enquanto centrais. Acabei por conviver mais com o Romain, uma vez que o Anthony saiu para o Leixões.
MF: Mais recentemente, na equipa principal do Vitória, trabalhou com Ricardo Quaresma. O que se sente ao ver o “Harry Potter” entrar no balneário?
TH: Foi algo monstruoso. Foi incrível e tive a sorte de nos darmos muito bem. Aproveitei ao máximo. Falei muito com ele sobre o percurso de carreira e aprendi com a tranquilidade que demonstrou em campo. Por vezes, o segredo está em não pensar demasiado, jogando com calma.
MF: Quando era muito novo, o Tomás foi treinado por Alex Costa, timoneiro que fez história e promoveu o Amarante à II Liga. Quem é este técnico?
TH: O mister Alex foi jogador do Vitória e é um apaixonado pelo Vitória. Também trabalhei com ele nos sub-19 e na equipa B. Sempre foi intenso e exigente, talvez diferente do que se espera na formação. A mensagem já era direcionada para o ganhar. Foi um bom professor e acrescentou-me ambição. É um excelente agregador.
MF: Na equipa principal do Vitória trabalhou com Rui Borges.
TH: Gostei muito. O sucesso que vai conseguindo não me surpreende. Marcou-me pela forma como preparou os jogos, pelo estudo ao pormenor. Ao mesmo tempo, dá-nos liberdade no campo. Sabemos exatamente o que fazer e estamos confortáveis, a qualidade surge com naturalidade. O trajeto do Rui Borges não me surpreende e vai continuar a ser feliz.
MF: (…)
TH: Depois da saída do Rui Borges para o Sporting veio o mister Luís Freire, alguém com quem me identifico pela ideia de jogo, de posse e de jogo apoiado. Vem de uma escola que aprecio. O resultado da sua qualidade é estar ao comando da Seleção sub-21. Espero que continue a ter sucesso.
MF: Esta época jogou duas vezes contra o FC Porto no Dragão. Pelo Estrela Vermelha aconteceu em outubro, para a fase liga da Liga Europa.
TH: No Estrela temos muitos jogadores experientes e poderíamos ter ganho. O FC Porto é muito pressionante e intenso, com uma energia diferente da época passada. São muito fortes. A chave está no treinador, a peça mais importante. O FC Porto investiu muito e tem jogadores com muita experiência em todos os setores.
MF: Começou a temporada no Vitória e ainda trabalhou com Luís Pinto, jovem treinador que protagonizou a conquista da Taça da Liga, mas que saiu no decorrer da época. Como se explica esta “intensidade” do Vitória?
TH: É difícil. Não me cabe explicar. O Luís Pinto tem muito futuro e muita qualidade, gostei das ideias que partilhou e da mentalidade. Com ele, todos os jogos são para ganhar, não há medo. Conseguiu a Taça da Liga e, ainda que seja enorme, o Vitória tem poucos títulos a este nível. Depois de tudo isso, poucos esperavam que o Luís Pinto saísse. Mas aconteceu. Acredito que todos agiram a pensar no melhor para o Vitória.
Prossiga para a terceira parte desta entrevista.
