O diretor desportivo Diogo Boa Alma faz uma antevisão do mercado de verão dos três grandes, em entrevista ao Maisfutebol. O dirigente deixa críticas à gestão do Benfica, elogios à do Sporting e sinaliza a necessidade do FC Porto em investir no plantel
O futebol nacional está encerrado para férias de verão. Benfica e FC Porto ainda têm o Mundial de Clubes neste mês de junho, mas os restantes clubes já se dedicam inteiramente à preparação da próxima temporada. O mercado de verão é sempre uma altura de grande trabalho para os dirigentes e o Maisfutebol quis perceber a opinião de um diretor desportivo em relação à próxima janela de transferências.
Diogo Boa Alma, ex-dirigente de Casa Pia, V. Guimarães e Santa Clara, prevê que as saídas de Viktor Gyökeres, Álvaro Carreras e Diogo Costa sejam «inevitáveis» durante o verão, tanto por necessidade financeira dos clubes, como também pelo encerramento dos ciclos destes jogadores. No que toca a compras, Boa Alma sublinha a necessidade do FC Porto contratar e até deixa dicas - dois médios, um defesa-central e um extremo. Sporting e Benfica estão melhor supridos, diz.
Conhecer dos projetos do Casa Pia e do Santa Clara, Boa Alma deixa elogios à forma como os clubes foram geridos esta temporada e pede mais ao Famalicão: «Lutar pelas competições europeias é quase uma obrigação».
Na sua visão de diretor desportivo, olhando para os plantéis e para 2024/25, do que necessitam Sporting, Benfica e FC Porto neste mercado que se avizinha?
Dependerá muito das saídas, obviamente. Isso até mais no caso do Sporting e Benfica. O FC Porto teve muitas lacunas, ficou aquém do desejado. Perdeu jogadores importantes no mercado de janeiro. Benfica e Sporting têm bons plantéis, mais equilibrados. No Sporting, veremos quantos jogadores vão perder e também a possível alteração de sistema poderá levar a maiores necessidades de mercado. O Benfica só precisa de pequenos ajustes. Tem um plantel extenso em qualidade e qualidade. As lacunas que têm vêm de há anos, como a questão do lateral-direito e o lateral-esquerdo, com a iminente saída do Carreras. Talvez mais um defesa-central e ponta-de-lança também, não continuando o Belotti.
Pondo-se no lugar de um diretor desportivo de um grande clube, já sabendo que tem de fazer uma boa venda no verão, que jogadores é que 'sacrificaria' nos três grandes para ter essa verba e poder reinvestir?
Ninguém. Como diretor de qualquer um deles, ninguém gosta de perder elementos preponderantes [risos]. Obviamente que vão ter de fazê-lo. O Sporting tem jogadores com maiores valores de mercado e está melhor. Já fez a venda do Geovany Quenda. A do Gyökeres é inevitável. Conseguindo essa venda e entrando na Champions, seria importante manter a restante base do plantel. Com isso já estariam bem salvaguardados para a próxima época. Benfica e FC Porto estão pior nesse aspeto porque têm menos jogadores valorizados. Isso pode levar a que tenham de perder mais do que um elemento.
«Arthur Cabral será o elemento que o Benfica mais quererá vender»
No caso do Benfica, os jogadores mais jovens atuam no setor defensivo, como António Silva e Tomás Araújo. Pensa que a venda só de um não seria o suficiente, por exemplo, para equilibrar as contas?
A do Carreras será inevitável. Mas, no caso do Benfica, não sei se isso é suficiente. Esses dois que falou seriam a meu ver prioritários de manter e poderiam formar dupla de centrais na próxima época, dependendo da renovação de Otamendi. Arthur Cabral penso que seja o elemento que o Benfica mais quererá vender, não sei é se irá recuperar o investimento que fez nele.
Já o FC Porto recebeu montantes muito elevados em janeiro pelas vendas de Galeno e Nico González. Acha que consegue manter-se neste verão sem vender, apenas a investir?
Eu acredito que, à semelhança do que disse em relação ao Gyökeres e Carreras, o Diogo Costa é uma venda inevitável. Não porque tenha feito uma grande época, porque não esteve ao nível a que nos habituou, mas porque já está a chegar ao final do ciclo dele em Portugal. Ainda por cima, não estando o FC Porto na Champions, pode dar um encaixe ao clube para reforçar restantes setores.
O Sporting conseguiu um bicampeonato e uma dobradinha, que escapavam há décadas. O clube vive um momento histórico e vale a pena analisar isso à luz da gestão desportiva. O que é que o modelo de gestão do Sporting mostra ao futebol português, na sua opinião?
Várias coisas. Vários méritos. Por um lado, a manutenção dos principais ativos durante mais tempo. Benfica tem perdido os jogadores que se têm destacado. João Félix fez seis meses na equipa A, João Neves um ano, Enzo Fernández seis meses... O Sporting fez a aposta de manter os jogadores. Conseguir que Hjulmand ou Trincão fiquem na segunda época é sensacional. Esse é o grande mérito. Depois, têm a média de idades mais baixa dos três grandes. Essa é uma aposta consciente para preparar uma equipa para várias épocas. Estabilidade, aposta em jogadores jovens e a resistência ao assédio do mercado são os principais méritos.
«O ciclo de Viktor Gyökeres no Sporting já acabou»
Falou do assédio a Gyökeres, que é lógico. Sob a ótica de um diretor desportivo, faria sentido oferecer um salário muito superior ao jogador, em vez de investir num novo? Mesmo sabendo que isso nem sempre fica bem no balneário.
Não, acho que o futebol são ciclos. Acho que o ciclo de Gyökeres no Sporting já acabou. Pela idade do jogador, terá ambição de disputar outros campeonatos e competições. Pela questão salarial, terá ofertas muito superiores à realidade do futebol português. O problema de criar uma disparidade salarial é que outros jogadores importantes como Trincão, Pote ou Hjulmand teriam legitimidade para pedir valores acima. Isso já não seria uma boa gestão desportiva e financeira. O Sporting teve um grande mérito, que foi encontrá-lo e desenvolvê-lo durante duas temporadas. Um jogador que teve o impacto que teve, só consigo encontrar paralelo com o Jardel. Mantê-lo dois anos já foi fantástico para o Sporting.
O Benfica, não só nesta época, mas também nas últimas, tem feito algo que destoa dos outros grandes. Ter jogadores emprestados. Falo de Renato Sanches, Amdouni, Dahl... Qual a sua opinião sobre isso, sendo que o Benfica é o clube que gasta mais dinheiro em salários.
Eu tenho sido um grande crítico da gestão do Benfica nos últimos anos. Nos últimos seis anos, Sporting tem três títulos, FC Porto dois, Benfica um. Enquanto o Benfica investiu 500 milhões e os rivais não chegaram aos 300 milhões em contratação dos jogadores, cada um deles. E a massa salarial é incomparavelmente superior. O Sporting vinha de um ataque à Academia, o momento mais negro da sua história, e reergueu-se muito rapidamente. O FC Porto, já numa trajetória descendente da liderança histórica do presidente Pinto da Costa, e com muitas contrariedades como a proibição de contratação de jogadores. O Benfica tinha todas as condições de estabilidade e maior capacidade de investimento. Só com uma política desportiva muito errática como tem tido é que se justificam estes insucessos. Não conquistam uma Taça de Portugal há seis anos e apenas um título. Há uma ausência de critério e linha condutora do Benfica. Isso leva aos sucessivos empréstimos, aposta no curto prazo. O Benfica aposta em pensos rápidos, no imediato. Não tem sucesso nem prepara o médio e longo prazo. Apostou tudo no mercado de inverno, um ‘all-in’ para ter êxito desportivo. Houve contratações com pouco sentido, como a de Belotti ou Bruma.
Há algo que tem passado um pouco despercebido. Bruno Lage, na sua primeira passagem, ficou conotado como um treinador que aposta na formação. Nesta época não houve nenhum jogador da formação que se afirmasse sob a sua mão. Como vê isso?
Sem dúvida, não faz o mínimo sentido. O Benfica tem tido domínio das convocatórias das seleções jovens, vemos isso no Euro Sub-17. FC Porto e Sporting tiveram no ano passado Quenda e Mora nesse Europeu e conseguiram valorizá-los no plantel e retirar dividendos. E o Benfica não sabe abrir espaço para os jovens. Leandro Santos é um exemplo porque há uma carência na posição, em vez de sucessivas adaptações. O João Rêgo tem projeção mas quando joga é num curto espaço e fora da sua posição, como médio-ala direito, em vez de jogar no centro. Faz confusão que não tenham mais espaço e provavelmente vão perder alguns desses ativos.
«Gabri Veiga foi desejado por meia Europa, será uma boa contratação»
Quanto ao FC Porto, parece estar encaminhada a contratação de Gabri Veiga, um espanhol. Samu, foi o tiro certeiro do último verão, não esquecendo que é Zubizarreta o diretor desportivo do clube. O mercado espanhol faz sentido para o FC Porto? E faz sentido para os jogadores espanhóis virem para o FC Porto?
Acho que sim, e nós não temos visto isso também noutros clubes da Liga, às vezes jogadores com formação em clubes e grandes e seleções jovens. Há essas oportunidades em Portugal. Não são os casos de Samu e Gabri Veiga, porque tinham um historial grande em Espanha. Veiga foi para a Arábia quando era desejado por meia Europa. Se o FC Porto o repescar, será uma boa contratação. O Samu aproveitou muito bem a oportunidade, após ter ficado tapado no Atlético Madrid pela contratação do Julián Álvarez. Há algumas dúvidas se encaixa na ideia de jogo de Anselmi, quebrou um pouco de rendimento, mas foi a melhor contratação do FC Porto. Não foi feliz em muitas delas.
Martín Anselmi disse recentemente que não gosta de gastar muito. Podemos recordar até o caso de Tomás Handel. Apesar dessa postura, é inevitável o FC Porto recorrer ao mercado?
Sim, acho que o Porto vai investir e vai investir valores significativos. Pelo menos quatro, cinco jogadores importantes irão entrar, e sobretudo nessa zona de meio-campo precisa de melhorar a qualidade. Tinham Fábio Vieira emprestado e precisam de ter dois médios diferentes para a este sistema de jogo com outra capacidade que o FC Porto não tem tido, para servirem os homens da frente. O Rodrigo Mora tem de ser a chave da equipa e têm de fazer a equipa à volta dele. É o grande talento que têm ao seu dispor. Mais um central e um extremo. Acho que precisam disso e irão investir valores significativos nessas posições.
«Lutar pelas competições europeias é quase a obrigação do Famalicão»
Gostava de reservar algumas perguntas sobre outros clubes que não os 'três grandes'. O Casa Pia, onde o Diogo trabalhou, teve em janeiro um mercado onde recebeu nove milhões de euros. Acha que isso irá afetar a política de contratações do clube?
Não acredito que altere muito. Continuarão a reforçar-se com jogadores livres ou de baixo custo. Têm um desafio nesta nova época, porque tinham muitos jogadores que se mantinham há um bom tempo e saíram este ano. Perderam muitas referências e o mercado será exigente, mas sem inverter a política desportiva.
O Santa Clara, onde o Diogo também trabalhou muitos anos, esta época esteve em destaque. O que é que prevê para o Santa Clara na próxima época? E quais são, para si, as justificações para este sucesso?
Acho que a base do sucesso é aquilo que falávamos há pouco relativamente ao Sporting. Foi a manutenção de praticamente todo o plantel e do treinador. Partiu com vantagem em relação a outras equipas devido a isso. Outros alteraram o plantel em 20 jogadores, como o Estoril. Era dos melhores plantéis em termos de qualidade, mas demoraram a ter resultados em virtude do investimento que foi feito. Manter essa base é importante. Há uns anos, quando lá estive, a equipa tinha vários jogadores com qualidade para jogar outros escalões e deram o salto. Morita para o Sporting, Zaidu, Fernando Andrade e Fábio Cardoso para FC Porto, outros para China e Japão. O Santa Clara vale mais por ser uma equipa homogénea, hoje em dia. Oxalá que tenham sucesso nas eliminatórias das competições europeias, por isso têm de ter mais soluções no plantel.
Nos restantes clubes, todos os outros que ainda não mencionámos, há algum caso particular que o Diogo acha que merece ser acompanhado no verão?
Tenho sempre curiosidade com o Famalicão porque é um clube que tem todas as condições. É um dos melhores exemplos de investidor do futebol português. Acho que as alterações que têm todos os anos e alguns erros na sua política desportiva o impediram de alcançar lugares cimeiros e competições europeias. Tem de ser o objetivo e quase a obrigação do Famalicão.
Até pelas receitas que têm tido, como Otávio, Luiz Júnior e veremos Gustavo Sá.
Claro. Tem capacidade de contratar por valores que outros não têm. Ugarte custou três milhões, nenhum outro clube desta dimensão tem capacidade de fazer isso. O investidor facilita. Mérito também na formação para quem organizou este projeto, nomeadamente o Miguel Ribeiro, porque já vem colhendo frutos. Foram campeões de sub-19 e têm uma boa equipa de sub-23. Gustavo Sá é um exemplo. Excelentes infraestruturas e obrigação de lutar por competições europeias. Os outros têm de lutar pela estabilidade. Famalicão e Estoril são os que têm mais capacidade de brigar com o V. Guimarães e ficar a seguir aos quatro crónicos da frente.
Para terminar, ouvi recentemente o presidente do Nacional, Rui Alves, afirmar que prevê apenas um aumento de receita na ordem dos 10% na próxima temporada, apesar da permanência na primeira divisão. Acha que devia haver maiores prémios para os clubes, de forma a melhorar a competitividade da Liga?
Sem dúvida. A centralização de direitos, avançando como está previsto, acautela essa situação. Tem de se privilegiar a meritocracia e muitas das vezes as classificações são ditadas pela grande diferença orçamental, em vez de ser ao contrário, que é as classificações ditarem quanto é que cada um recebe. É isso que existe em muitas ligas e não há razão para existir esta disparidade cá. Se fazes uma boa temporada tens de ser recompensado por isso.
