João Carlos Teixeira em Xangai: «Existem coisas muito estranhas que nem sei o que são»

29 mai, 00:28
João Carlos Teixeira com a camisola do Umm Salal, do Qatar (Photo by Simon Holmes/NurPhoto via Getty Images)

Na última parte da entrevista ao Maisfutebol, o médio do Shanghai Shenhua confessa que adora viver na China e revela que já tirou o primeiro nível de treinador

João Carlos Teixeira fez as malas na reta final da formação e deixou o Sporting para assinar pelo Liverpool. Estreou-se sob a mão de Brendan Rodgers, mas é de Jürgen Klopp que guarda as melhores memórias, embora tenha andado emprestado nas divisões inferiores inglesas para ter um «upgrade» físico.

Regressou a Portugal em 2016, pelas portas do FC Porto, um clube que o fez sentir a pressão de ganhar e onde encontrou um dos melhores balneários da carreira, apesar da relação atribulada com Nuno Espírito Santo.

Não chega a jogar com Sérgio Conceição, mas ainda sofreu na pele a dureza da pré-época, antes de ser emprestado ao Sp. Braga. Esteve durante três épocas a viver na terra natal, cumpriu o sonho de ser pai, mas voltou a aventurar-se no estrangeiro.

Nos Países Baixos, trabalhou com Arne Slot, um treinador mais reservado que irá ocupar a vaga deixada por Klopp. O neerlandês desde cedo se destacou pela variedade de exercícios nos treinos e pela postura com os jogadores, o que o pode ter ajudado a conseguir superar Ruben Amorim no lote de candidatos à pesada herança de Anfield.

Também no Feyenoord, apreciou a humildade de Fredrik Aursnes, um desconhecido que encantou Roterdão, bem como assistiu ao nascimento de uma estrela chamada Orkun Kökcü. 

Quase na barreira dos 30 anos, e já depois de nova passagem pelo futebol português, João Carlos Teixeira começou a pensar no futuro e foi mais radical nas mudanças. Sofreu com o calor e o menor profissionalismo no Qatar e é agora na China, com Manafá como colega, que vive uma das melhores fases da carreira. Pessoalmente, não podia estar melhor: Xangai não é Nova Iorque, mas também é uma cidade dos sonhos.

Nesta IV e última parte da entrevista ao Maisfutebol, João Carlos Teixeira confessa que vive um bom momento no Shanghai Shenhua e revela que já tirou o primeiro nível de treinador.

PARTE I: Português foi treinado por Klopp e Slot: o que distingue os dois homens do Liverpool?

PARTE II: «Quem não estivesse no peso certo, sofria bastante com Conceição»

PARTE III: «Ninguém conhecia o Aursnes. Ele começa a jogar e "ui, quem é este jogador?"»

Maisfutebol - Mudou-se para o Qatar com 29 anos. Nessa fase, já começa a pensar no pós-futebol e em amealhar algum dinheiro?

Sim. Também foi por aí. Financeiramente, era mais lucrativo do que na Europa. O contrato era bom, o nível de vida no Qatar também, eu e a minha família tínhamos tudo o que precisávamos. Já estava a chegar aos 30 e tinha de pensar numa coisa mais séria em termos monetários e preparar o meu futuro.

Que tipo de futebol encontrou?

Os estádios… estavam 50 graus e jogávamos dentro do estádio com 20. Mas o futebol jogado era muito, não digo amador, mas diferente da Europa. Não tinha a mesma competitividade, nem perto.

João Carlos Teixeira com a camisola do Umm Salal, do Qatar (Photo by Simon Holmes/NurPhoto via Getty Images)

Como se deu a mudança para a China?

Era abril, estava a terminar a época e recebi a proposta. Os timings dos campeonatos são diferentes, na China começa em março e acaba em novembro, então estava aberto o mercado de transferências.

Ficou relutante em aceitar?

Fiquei, porque não tinha noção da realidade da China. Chegando aqui, vivendo numa cidade como Xangai, a ideia que tinha antes não faz jus ao que é.

Nota-se que gosta de viver aí.

Gosto de viver aqui. É uma cidade com 28 milhões de habitantes, uma metrópole como Nova Iorque, em termos de infraestruturas, prédios ou avenidas, mas com o dobro de pessoas.

Foi difícil adaptar-se à confusão do dia a dia?

Não. Gosto de confusão e de ter pessoas à volta. Gosto deste ambiente, ver as pessoas na confusão a andar de metro ou de bicicleta pela cidade.

A nível cultural é bastante diferente?

É mais parecido com a nossa cultura do que com a do Qatar. Noto mais diferença na comida.

O que é que costuma comer?

Como em casa, normalmente. Claro que consegues comer «chow mein» ou «noodles», mas também existem coisas muito estranhas, como patas de galinha ou coisas que nem sei muito bem o que são. Os chineses comem muito comida de rua, é algo rápido e eles não gostam de perder muito tempo a comer. São muito trabalhadores, com muita energia.

E os jogadores chineses também são muito disciplinados?

Muito. Não contestam muito, não questionam o que diz o treinador. Não são tão chatos como nós (risos).

Estamos a assistir a um desinvestimento no futebol chinês?

Acho é que houve um investimento excessivo, uma loucura, uma febre do futebol e isso acalmou. Agora estão com valores mais normais e sustentáveis. Não sinto que tenha havido desinvestimento. Perceberam que não fazia sentido e retificaram.

Temos assistido a várias transferências para a Arábia Saudita, mas o jogador chinês é mais evoluído e o nível médio do campeonato é melhor. Concorda?

O campeonato saudita, neste momento, tem nomes muito fortes e mais vagas de estrangeiros que aumentam a qualidade do campeonato. Nunca joguei na Arábia, mas se comparar o Qatar com a China, o jogador chinês tem mais qualidade.

Agora joga com o Manafá e o André Luís, ex-Moreirense. Ainda precisa do tradutor?

Não (risos). Neste momento, não tenho tanta dificuldade, porque o treinador é russo e fala inglês. Quando ele está a falar, não preciso de tradutor. Mas, no ano passado, o treinador era chinês e precisava de tradutor para tudo. Agora é mais fácil e é bom ter jogadores que falam a tua língua.

Estão em primeiro e ainda não perderam este ano. Como está a correr a época?

Tem corrido bastante bem. Joguei dez jogos, marquei seis golos e fiz uma assistência. Lesionei-me ao 10.º jogo, uma lesão muscular, mas já estou a recuperar. Começámos a época a ganhar a Supertaça, por isso, tem sido positivo.

E já coleciona histórias caricatas?

Tenho uma memória muito má, mas vou contar uma do Qatar. Está sempre muito calor, os treinos eram por volta das 18h00 e o sol põe-se muito cedo. A reunião podia ser às 18h00 e eles, às vezes, estavam todos cá fora, sentados na relva. Nós e o treinador na reunião, que tinha de ser com a porta aberta, e eles sentados a uns 20 metros. E entravam tranquilos, cinco ou dez minutos depois, como se não se passasse nada. Mas, agora, depois do Mundial, começou a profissionalizar-se lá o futebol. Abriram mais vagas de estrangeiros e vieram treinadores com nome, como o Christophe Galtier.

Aos 31 anos, já pensa no pós-futebol?

Já fiz o UEFA C, ainda não pude fazer o B. Estou a preparar-me. Não sei se será por aí, mas não me custa nada fazê-lo.

Acompanhou esta época do Sporting e o campeonato português?

Vi poucos jogos, por causa da diferença horária. Os jogos são de madrugada e é muito difícil ver. Mas do que vi, o Sporting é um justo vencedor do campeonato. Venceu muito bem pelo futebol que praticou.

Já saíram os 26 convocados para o Europeu. É com estes que vamos ganhar?

A minha perspetiva para a seleção é sempre a mesma: ganhar, ganhar e ganhar (risos). Temos jogadores fantásticos e gostava que ganhássemos o Euro outra vez. Tenho muitos amigos a seleção e quero que ganhem.

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