Toti Gomes: a nova joia lusa dos Wolves que Bruno Lage já não larga

26 jan, 09:24
Toti Gomes (twitter/Wolves)

Começou a jogar futebol apenas aos 15 anos, encantou na Liga Revelação pelo Estoril, passou pela Suíça e foi repescado neste inverno pela equipa mais portuguesa de Inglaterra

Com muitas baixas entre lesionados, covid-19 e a Taça das Nações Africanas, os Wolves viram-se obrigados a repescar alguns dos jogadores que estavam cedidos por empréstimo. Entre eles, Toti Gomes, a nova joia da alcateia portuguesa que, por estes dias, tem encantado as bancadas britânicas.

Viajou para Inglaterra no início de janeiro apenas para ser observado e manter o ritmo na paragem do campeonato suíço - onde alinhava no Grasshoppers - mas convenceu Bruno Lage, que já não o largou. No último sábado, em Brentford, somou o segundo jogo na Premier League.

Começo veloz e a queimar etapas

A carreira do jovem futebolista tem sido feita de saltos constantes, mas inesperados.

O futebol até nem foi o primeiro desporto que praticou. Começou no râguebi ainda muito novo e só aos 15 anos entrou para um clube de futebol, idade tardia para fazer uma carreira profissional, muitos terão pensado.

A aventura no desporto-rei teve início no Fontainhas, onde jogava bem mais adiantado no terreno, a médio ofensivo. Após duas temporadas, veio o primeiro salto. Pelas mãos de Vasco Costa, chegou ao Dramático de Cascais, em 2016.

«Treinei os sub-19 na altura, num clube local [Dramático Cascais], e fui a todos os outros clubes da zona para tentar recrutar os melhores jogadores. Um amigo meu disse: 'Tenho o Toti aqui em Fontainhas, ele joga a número 10'. Tinha 17 anos na altura. Disse-lhe: ‘Ok, ele que venha ao treino para vê-lo'. Vi que era muito rápido e tinha um pé esquerdo muito bom, mas disse-lhe que ia jogar na ala e não no meio. Foi uma grande diferença», contou o técnico ao Birmingham Live.

Toti ao serviço do Estoril na II Liga

Toti nem teve tempo de se habituar ao novo clube, onde uma temporada foi suficiente para mostrar que estava pronto para outros voos. «Conheci o Hugo Leal, era diretor da formação do Estoril. Disse-lhe: 'Hugo, tenho um jogador muito bom aqui. Ele não devia jogar na distrital, precisa de jogar no campeonato nacional, tens de levá-lo para o Estoril. É muito bom’. Eles gostavam muito dele. Fez uma temporada muito boa nos sub-19 e depois passou para os sub-23 como profissional», afirma Vasco Costa.

Recuar para avançar

Já no Estoril, dá-se nova mudança de posição, sempre a recuar metros no terreno, até que acabou no eixo defensivo, onde joga agora habitualmente.

«Começou a jogar na lateral-esquerda, tinha a capacidade de se envolver no ataque e criar golos com os últimos passes e cruzamentos. Melhorou muito defensivamente, principalmente porque estava sempre pronto para ouvir e treinar», recordou Cláudio Martins, um dos adjuntos dos juniores dos canarinhos naquela época.

«Experimentou jogar a central e, a partir daquele momento, vimos que poderia ser um jogador ainda melhor nessa posição, sobretudo porque poderia acrescentar aos seus atributos físicos a muito boa tomada de decisão na construção. Ele não tinha medo de ter a bola, com uma postura alta, e encontrava sempre a melhor solução, rompendo as linhas de pressão. Era rápido, forte e agressivo.»

Três anos depois de ter trabalhado com o jovem português, Vasco Costa assumiu os sub-23 dos estorilistas – depois de orientar os sub-17 e 19 – e surpreendeu-se com a transformação pela qual Toti havia passado.

«Quando o deixei no Estoril pela primeira vez, ele era um miúdo muito magro, mas quando o reencontrei tinha 10 quilos a mais de músculo e jogava como defesa-central.»

Em 2018/19, estreou-se na II Liga pelo Estoril. No final da época seguinte, foi contratado pelo Wolverhampton e imediatamente cedido ao Grasshoppers, da Suíça, um clube-satélite dos Wolves, que conta com vários portugueses no plantel. Aí, cresceu, ganhou ritmo competitivo e ajudou a equipa a conquistar a subida ao principal escalão do país.

Já esta temporada, Toti foi novamente emprestado ao emblema helvético. Após 18 jogos na primeira metade da época, foi chamado por Bruno Lage para treinar com os «lobos» durante o mês de janeiro, mas o plano inicial seria regressar à Suíça após a paragem de inverno.

«Exceto qualquer novo caso de covid-19 ou problemas de lesão, esperámos que ele regresse à Suíça no final de janeiro», disse o diretor técnico dos Wolves, Scott Sellars, a 4 de janeiro.

Ora, poucos dias depois, tudo mudou. Lage continuou com dores de cabeça na defesa, devido à ausência de Marçal por lesão e à baixa de Romain Saiss, na CAN com a seleção marroquina.

15 de janeiro de 2022. Um menino rodeado de «lobos» ingleses

O Wolverhampton recebeu o Southampton no Molineux, venceu por 3-1 e Toti cumpriu os noventa minutos como terceiro central de uma defesa a cinco. Uma prenda de aniversário antecipada, já que completou 23 anos no dia seguinte. Mas havia alguém a quem agradecer neste momento.

«Quando soube que ia jogar, mandou-me uma mensagem: 'Treinador, quero dizer-te e pedir-te para veres o jogo. Será a minha estreia. Quero agradecer mais uma vez por toda a sua ajuda'. A única coisa que disse foi: 'Toti, mereces tudo isso, aproveita e sê tu mesmo», conta Vasco Costa.

Toti foi muito felicitado pelos colegas, sobretudo Conor Coady, após a estreia

A estatística não mente: ganhou todos os duelos disputados pelo chão (cinco), bloqueou dois remates e ainda somou cinco desarmes. 

No final do jogo de estreia, Lage rendeu-se à nova pérola lusa. «Há duas semanas, ele estava de férias, veio aqui e fez alguns treinos connosco. Quando faz uma exibição como esta… ele não cometeu nenhum erro. Foi compacto, foi sólido, com Coady e Max [Kilman], e as primeiras palavras vão para ele porque o que ele fez, foi muito bom.»

Também o capitão de equipa, Conor Coady, que seguiu bem de perto a estreia, mostrou-se surpreendido: «Fantástico! Vimos como é forte nas disputas de um contra um, mas mesmo com a bola, ele é tão calmo e eu nem consigo explicar como este jogo foi duro para uma estreia.»

O próprio jogador confessou ter cumprido «um sonho» após o primeiro jogo na «melhor liga do mundo». «Foi muito bom, estava a tremer, mas todos os companheiros conversaram comigo, mantiveram-me calmo, então ficou tudo bem», confessou.

O conto de fadas, porém, não ficaria por aqui. No último sábado, Toti mereceu mais uma titularidade e não voltou a desiludir, pese embora ainda tenha visto um cartão vermelho, prontamente revertido pelo VAR.

Nesta partida, o Wolverhampton também já pôde contar com Chiquinho, que assistiu do banco à exibição do amigo de há alguns anos. É que os dois foram companheiros no Estoril e desde então mantêm laços próximos.

Toti Gomes tem aproveitado a falta de profundidade do plantel dos «lobos» e correspondido de forma positiva. O Wolves está repleto de jogadores portugueses e o central foi o mais recente a dar cartas. Internacional sub-20 por Portugal, não será de admirar caso seja cogitado para uma eventual chamada de Fernando Santos no futuro.

Romper etapas já virou rotina para Toti.

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