Já ouviu falar no Brusque? É um clube do estado de Santa Catarina, que foi comprado pelo mesmo dono do AVS e conta com muita influência portuguesa. Francisco Gomes da Silva, Head Scout, conta-nos como é feita a ligação com o AVS, que tem no emblema brasileiro uma espécie de laboratório para testar talentos
Os «multiclubes» vieram para ficar e são já uma realidade no futebol português. A Premier League entrou com força na Liga – vejam-se os casos de Bournemouth e Brentford no Moreirense e Gil Vicente –, mas há também os casos do Sporting de Braga, que é detido em parte pelo fundo qatari dono do PSG, ou do Rio Ave, do mesmo proprietário do Olympiakos. Há um denominador comum: o clube português está sempre na base da pirâmide. No entanto, há exceções, como o caso do AVS.
A SAD da Vila das Aves adquiriu um clube brasileiro do estado de Santa Catarina e tem aproveitado para estabelecer uma espécie de laboratório de talentos na Série C. O chefe da equipa de scouting é português e, até há bem pouco tempo, o treinador (Filipe Gouveia) também.
Francisco Gomes da Silva, Head Scout e um dos responsáveis pelo projeto, chegou em fevereiro ao clube, mas já tinha trabalhado com a SAD no Vilafranquense e no AVS durante três anos e meio.
«Depois da subida do AVS à Liga, saí para trabalhar na área de consultoria. Consultoria, scouting com outras equipas, com empresas de agenciamento, com a própria comunicação social. Apesar de ter saído, tive sempre uma boa relação com eles. Especialmente com o investidor. E ele já andava à procura de comprar um clube no Brasil. Avançou para a compra do Brusque, que estava na Série B e caiu para a Série C. Depois, fez-me o convite, uma vez que já tinha trabalhado com ele e havia uma relação de amizade e confiança. E também porque eu estava dentro daquilo que é a ideia do projeto, dos processos a nível da observação dos jogadores e do próprio AVS»,começa por contar, em conversa com o Maisfutebol.
«Tem sido uma experiência muito interessante. Cheguei na primeira semana de fevereiro, já tinha começado o estadual, com a janela a decorrer. Entretanto, fomos eliminados na fase final pela Chapecoense nos penáltis e tivemos quase um mês de pré-época, até começar a Série C. Tivemos mais tempo para preparar, para ver os jogos. Ia ver outros estaduais para identificar jogadores, mas sempre numa perspetiva ligada ao AVS. É sempre numa perspetiva de encontrar jogadores jovens que possam ter um rendimento na Série C, mas com potencial de crescimento para virem a ser enquadrados no projeto do AVS», explica.
O scout português considera que as grandes redes de clubes são «uma realidade cada vez mais próxima». O objetivo não passa por dominar o mercado, mas «ter maior proximidade dos mercados», de forma a antecipar a contratação de talento.
«Quando não havia a relação com o Brusque, o AVS ia recrutar ao Brasil diretamente, mas ia ser mais difícil recrutar ou podia não ter acesso a tanta informação e a tantos jogadores disponíveis como agora. O AVS pode fazer essa ligação através do Brusque, de contratar o jogador, de chegar primeiro, que é muito importante na área de scouting.»
Apesar de o AVS ser o clube no topo do projeto, Francisco Gomes da Silva garante que «não é necessário castrar o clube pequeno».
«No nosso caso, se o jogador estiver bem no Brusque, depois vai para o AVS. Isso está bem definido entre todos. Obviamente, tendo o Brusque, é muito mais fácil para nós encontrarmos um jogador que esteja a jogar na Série D, colocá-lo à prova no contexto competitivo e, depois, ele ir para o AVS.»
Caso exista interesse de outro clube português num jogador do Brusque, claro está, dificilmente vai ganhar a corrida ao AVS. «Damos a preferência, não vamos reforçar um rival direto do AVS. Em termos daquilo que é o modelo de negócio, caminhamos para isso, para ter os “multiclubes”. Uma grande rede de clubes em mercados estratégicos, que consegue contratar os jogadores primeiro, com uma estratégia proativa de identificação dos jogadores. E o futebol é cada vez mais mundial. Há talentos espalhados por todos os cantos do mundo. Se conseguires ter um clube mais próximo que consiga agarrar esse talento e depois, anos mais tarde, ele vier a estar no teu clube principal, isso é, do ponto de vista empresarial, a visão destes grupos de clubes.»
O radar do scout abrange vários estados, com foco no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, mas também São Paulo e Goiás, enquanto o outro scout do clube atua no Nordeste. O Brusque está em «reestruturação», ainda não dispõe de um estádio próprio, nem sequer de um centro de treinos e outras instalações próprias para enfrentar o dia a dia.
«Tem de haver muita troca e partilha de informação entre os scouts e também muitos contactos. Isso é fundamental na área do scout, quer seja através de parceiros ou de empresários que enviam os jogadores e eu vou vendo. E vou falando com outras pessoas, com outros scouts. Depois, posso observar os jogadores ao vivo, havendo essa disponibilidade e possibilidade por parte do clube, para facultar essas viagens», revela.
Um perfil de jogador bem definido
«A ideia é encontrar jovens brasileiros, mas também podem ser outros sul-americanos, que consigam dar um rendimento no imediato num nível competitivo elevado. Estamos a falar de uma divisão que é muito competitiva. Até pelo próprio formato. São equipas históricas, com orçamentos muito elevados. Temos equipas na Série C que, em termos orçamentais e salariais, conseguem competir e até pagar mais do que algumas equipas na primeira divisão de Portugal. Os clubes têm muitas receitas, estádios quase sempre cheios, muitos patrocínios. Mas, às vezes, apanhamos alguns campos que não são tão bons e torna-se um jogo mais físico, de duelos e contactos. Isso acaba por ser bom para o "transfer" competitivo para Portugal, porque vamos encontrar jovens com potencial, que têm qualidade técnica. Chegam ali e, em termos físicos, vão crescer muito.»
O scout do Brusque destaca que um jogador da Liga «não pode ser apenas tecnicamente evoluído», mas precisa de aliar a essa componente a «intensidade» e uma «boa capacidade física».
«Até mesmo pelo próprio contexto do AVS, temos de ter jogadores agressivos. É esse tipo de jogador que procuramos no Brasil: dotado tecnicamente e com um perfil físico interessante, para que, depois, se consiga adaptar, não só à Série C, mas perspetivando o que pode ser o seu salto para a primeira divisão de Portugal.»
De resto, há uma estreia ligação, inclusive, entre as estruturas de observação dos dois clubes. «Temos estruturas autónomas de scouting, mas há partilha de informação. As pessoas do AVS perguntam-me sobre os jogadores do Brasil e eu também pergunto sobre os jogadores sul-americanos que estão em Portugal e que podem vir para o Brusque. O objetivo comum é colocar os jogadores jovens no Brusque, com um rendimento e potencial para irem para o AVS. Mas não contratamos só jogadores jovens, temos jogadores de rendimento, jogadores mais experientes, que nos dão uma base sólida. Mas, no que toca aos jovens, há partilha de informação. Os jogadores são analisados por nós, mas, depois, também são passados para os scouts do AVS validarem, para perceberem se têm potencial para ir para lá.»
Na hora de contratar um reforço para o Brusque, a estrutura do AVS também tem peso na decisão, isto se se tratar de um jogador jovem. «Temos a nomenclatura de um "jogador de aposta" ou um "jogador da divisão", que é um jogador de rendimento. Se é um jogador de rendimento, é mais experiente, e é uma decisão nossa. Se for um jogador jovem, de aposta, com uma perspetiva futura ir para o AVS, tem de ser analisado por nós e é passado para o AVS. Depois, o AVS tem de validar e perceber se o jogador tem potencial, ou não, para ir mais tarde para Portugal.»
No Brasil, aponta, o trabalho da formação é «virado muito mais para a parte técnica, para iniciativas individuais».
«Formam o jogador dessa forma, mais livre de conceitos táticos, com maior liberdade de expressão e não tanto aqueles jogadores formatados, como vemos na Europa. Os jogadores atualmente são todos muito parecidos. Toda a gente sabe o que tem de fazer e falta alguma liberdade aos jogadores europeus. Perdeu-se um pouco isso.»
Francisco Gomes da Silva entende, por outro lado, que os clubes brasileiros «já começam a olhar para a parte tática» e procuram treinadores estrangeiros para introduzirem «aspetos táticos do jogo», de forma a aproveitar melhor «o futebol de rua» e o «perfume brasileiro», o que fará com que os jogadores «possam estar mais bem preparados para o futebol europeu».
«E também fazer com que os jogadores sejam mais valorizados e com potencial de venda para os mercados europeus», sublinha.
A relação entre clubes e o poder à mesa das negociações
Quanto à ligação com o AVS, já se reflete com a presença de dois jogadores no plantel do Brusque. Ainda não há portugueses no plantel, mas essa não é uma porta fechada, embora reforçar a equipa da Vila das Aves seja a prioridade e não o contrário.
«Pelo posicionamento do grupo, pela tal rede networking, claro que já identificámos e analisámos vários jogadores portugueses. Não chegámos a avançar por nenhum. Mas, a haver essa possibilidade, se encaixar nas necessidades do plantel, pode ser uma realidade. Em termos de intercâmbio, já existiu. Já temos dois jogadores vindos do AVS na equipa principal do Brusque. Um guarda-redes [Lucas Moura] e outro central [Thiago Freitas]. Havendo essa possibilidade no futuro é algo a que vamos estar atentos. Falamos de um clube da primeira divisão portuguesa, com jovens de qualidade e alguns deles não têm tanto espaço. Podem encaixar no Brusque com a perspetiva de disputarem a Série C, rentabilizarem, valorizarem e, depois, voltarem mais bem preparados.»
Embora o perfil esteja delineado, as duas equipas não precisam de ter os mesmos conceitos de jogo. Contudo, existem ideias inegociáveis.
«Há a identificação do perfil de treinador com uma grande capacidade de organização e de desenvolver jovens. Que não tem medo de apostar neles. É um treinador com essas características que está identificado num projeto como o Brusque. Depois, tem liberdade para treinar, para jogar em 3-5-2 ou 4-3-3…. Claro que o perfil do treinador é aquele que nós também tentamos transferir para o contexto do AVS.»
O diálogo entre departamento de scouting e equipa técnica é também fundamental. De resto, o trabalho de um scout não se limita apenas à observação e até já entra nos meandros das negociações.
«Identifico os jogadores, faço relatório e apresento ao presidente. Depois, o presidente fala com o treinador - e eu também - em reuniões. Ouvimos o que é que o treinador pensa. Ou seja, apresentam-se três ou quatro soluções e o mister analisa. Tentamos os jogadores prioritários, que são definidos pelo treinador. No processo de negociação, se conseguimos chegar às condições financeiras… Essa parte toda depois vai depender da negociação, que é algo que eu também faço, numa primeira fase», revela.
«O scout tem essa liberdade. Vai além, se calhar, daquilo que é um scout normal. Nós temos a liberdade para abordar - e eu também dou essa liberdade ao nosso outro scout - logo o jogador para perceber quem é o empresário e quais são as condições. Quando enviamos um relatório, já temos todas as informações necessárias. Além da análise do jogador, já sabemos quando acaba o contrato, se o salário é X ou Y, se pode vir livre ou se tem cláusula de rescisão. Depois, o responsável pelas tomadas de decisões, o CEO, analisa as informações. E filtra os nomes, apresenta ao treinador, dentro também das condições do clube. Escolhemos entre nós as melhores opções, o mister também elege a sua lista de prioridades e vamos por aí. Numa primeira fase eu faço essa abordagem ao próprio empresário, tento saber as condições, discuto um pouco, apresento o projeto, falo da questão de ser um clube, que é detido por um clube português da primeira divisão. Se as coisas avançarem, quem entra na negociação e faz a conclusão do negócio é o CEO.»
Nessas negociações, o Brusque tem uma cartada para jogar a seu favor. A ligação ao AVS «é muito relevante» e tem alguma «influência» na hora de convencer jogadores.
«Os próprios empresários já nos procuram nesse sentido. Mas aí querem trazer o jogador para Portugal e veem no Brusque uma porta de entrada para Portugal e para a Europa. E é natural. Tivemos casos de jogadores que estão disponíveis até para fazerem algum esforço financeiro e baixarem pretensões salariais para poderem estar inseridos num projeto como o Brusque, de Série C, que lhes possa permitir depois vir para Portugal e abrir as portas da Europa. Isso é obviamente um fator, não digo decisivo, mas muito importante na conversa com alguns jogadores e empresários. Sentem que estão mais perto de vir para a Europa do que se forem para outro clube. É um fator que joga a nosso favor e é um argumento que nós temos, claro, na parte da negociação e da apresentação do projeto.»
Francisco Gomes da Silva reconhece que no Brasil «falta um pouco de paciência» com treinadores e dirigentes», algo que relaciona com «o calendário denso e competitivo».
No entanto, o scout português aponta que o futebol luso também precisa de uma «reflexão profunda», na medida em que, na formação, se procura «ganhar a curto prazo», o que conduz à «castração do talento e do potencial individual dos jogadores», cada vez mais «formatados».
«No Brasil tens os jogadores em pedra bruta, prontos para serem lapidados e desenvolvidos. Os jogadores brasileiros têm uma fome brutal de aprender. E depois têm a vontade de vingar, porque são jogadores que muitas vezes vêm de um contexto social muito desfavorável.»
O AVS precisou de ir a play-off para assegurar a permanência na Liga, mas o dirigente luso garante que, caso a equipa descesse, o rumo do projeto não iria ser alterado.
«Nunca foi sequer um cenário colocado em cima da mesa. Claro que é diferente quanto à política de contratações de um clube. Mas, em termos práticos, nunca chegámos a esse ponto, porque não se colocou esse cenário. O AVS estava focado na questão da manutenção, nós também estávamos a fazer os nossos jogos. Claro que temos os jogadores identificados, não só no Brusque, mas também a própria equipa de scout do AVS tinha os jogadores identificados para qualquer um dos cenários», garante.
Com o mercado aberto, já se estudam as melhores opções para reforçar os plantéis e não será de estranhar caso o AVS vá pescar talento ao Brusque.
«Temos jogadores jovens com qualidade, que têm sido destaques na Série C. Depois, também cabe à estrutura do AVS perceber se o jogador pode já dar resposta àquilo que é necessário, às necessidades imediatas do AVS enquanto equipa na primeira divisão. Mas temos jogadores identificados e referenciados dentro do nosso próprio projeto que estão muito bem na Série C e já tiveram sondagens de clubes de divisões superiores no Brasil.»