Lateral-esquerdo recorda, em entrevista ao Maisfutebol, a saída do V. Guimarães no melhor momento da carreira, assume que esperava ter mais minutos no Spartak e conta como é o dia a dia em Moscovo
Quando era criança, perguntaram-lhe se queria jogar de azul ou vermelho. Optou pelo azul, mas não demorou muito até vestir a camisola encarnada. Custou-lhe deixar o colo dos pais aos 11 anos, no entanto, foi no Seixal onde viveu a adolescência e algumas das experiências mais marcantes da carreira, ao lado de João Félix e outros nomes que vingaram no futebol internacional.
Apercebeu-se que a porta da equipa A dificilmente se abriria e teve um percurso conturbado até se fixar na Liga. Foi ao norte do país, coincidiu com Rui Borges na primeira experiência no banco do atual treinador do Sporting, festejou a conquista da Liga Revelação e, a partir daí, viveu anos com a calculadora nas mãos a fazer contas à luta pela manutenção, em clubes com a corda na garganta. Pelo meio, partilhou o relvado com craques como Kylian Mbappé e Neymar numa breve aventura em França.
Estava a fazer o melhor arranque de temporada da carreira no reencontro com Rui Borges, desta vez em Guimarães, mas decidiu voltar ao estrangeiro, para tentar a sorte noutro patamar. Atualmente luta pelo título na Rússia, com o Spartak, mas a experiência não está a correr totalmente como o esperado.
Nesta primeira parte da entrevista ao Maisfutebol, Ricardo Mangas lembra (propostas para) a saída do V. Guimarães, assume que gostava de ter mais minutos, conta como é o dia a dia em Moscovo e os principais desafios.
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Estes meses na Rússia têm correspondido àquilo que esperava?
Não tem sido aquilo que esperava, porque, no momento da carreira em que eu estava, quando pensas em mudar, pensas em mudar para melhor e para continuares a ter o teu rendimento ou até melhorá-lo. Está aos olhos de toda a gente.
Está a disputar o lugar com o Oleg Reabciuk?
Sim, dou-me muito bem com o Oleg, até.
Continua a jogar como lateral?
Quando entrava mais vezes, cheguei a entrar para médio esquerdo. No primeiro jogo, entrei para extremo-direito. Tem sido esta a minha vida. Quando entro, entro normalmente para lateral, mas não tenho muitos minutos. Já não sou utilizado há três jogos.
O Spartak podia não partir como favorito ao título, mas, neste momento, é candidato a ser campeão?
Temos essa ambição e temos qualidade para isso. Vamos fazer de tudo para sermos campeões.
O que o fez sair do V. Guimarães foi essa possibilidade de jogar numa equipa que luta por títulos?
O Spartak é o maior clube russo. Foi um passo ambicioso e estou a lutar por títulos neste momento. Isso é algo que sempre quis, porque no passado já sofri muito com lutas pela manutenção. Era um passo que queria dar. Se foi o melhor ou não… até hoje, não. Mas a vida é feita de aprendizagens e isto está a ser uma aprendizagem para mim.
Ainda espera dar a volta à situação até ao final da época?
Trabalho para isso. Vivo 24 horas por dia para futebol e quem me conhece sabe que sou assim. Quando chegar a minha oportunidade, sei que vou estar preparado.
Estava a ser uma das maiores figuras do V. Guimarães no início da época e o valor da transferência - dois milhões de euros mais 500 mil em objetivos - até surpreendeu. Tinha outras propostas? A vertente financeira pesou e ter o Tomás Amaral no clube também ajudou?
O facto de o Tomás [antigo diretor desportivo do Spartak] ser português ajudou. Não vim para aqui desamparado, se algo me acontecesse tinha sempre alguém com quem falar. O Tomás era bastante influente do clube e conhecia-me das camadas jovens do Benfica. Ele falou comigo e convenceu-me. Em relação ao V. Guimarães, estava a ter o melhor início de época da minha carreira e não sei quais seriam os meus números. Poderia parar por ali ou não. Só Deus sabe. Mas estava bastante confiante. No início, estava um bocadinho desconfiado por não jogar na minha posição, mas, depois, vi que as coisas começaram a fluir, também graças ao Rui [Borges]. Estava em ponto de rebuçado, mas também graças àquilo que os meus colegas faziam, porque essa cultura de família, amizade e lutar uns pelos outros está muito bem incutida no V. Guimarães. E isso é uma grande força do clube. Quanto às propostas, tive algumas.
Para fora?
Sim. Tive algumas em papel, outras por [reunião] Zoom. Acabou por não acontecer, simplesmente porque o V. Guimarães tinha a necessidade dos pagamentos a pronto. O único clube que pagava a pronto era o Spartak. Depois, foi uma decisão minha.
Teve algum receio ou desconfiança em mudar-se para a Rússia?
Falei com o meu agente quando ele me trouxe a proposta e ele disse para confiar nele, que estava tudo bem. Disse-me que ia ter uma vida tranquila, numa grande cidade. Vim e estou a comprovar com os meus próprios olhos. É uma cidade normal, muito grande, muito trânsito, milhões de pessoas. Levo uma vida pacata: casa, treino, ginásio, casa. De vez em quando, saio com a minha mulher para irmos jantar.
E a língua tem sido um problema?
Sim. Os russos não falam inglês. Por exemplo, quando vou ao supermercado e preciso de alguma coisa, tenho de usar o tradutor. É estranho (risos).
O Kiki Afonso contou recentemente num podcast [DeLetra] que jogou na Rússia com -15ºC. Já passou por uma situação parecida?
O Kiki teve azar então (risos). Se tiverem -15ºC, há jogo. Se tiverem -16ºC, não há. As pessoas não têm noção do quão difícil é. É mesmo muito, muito frio. Tenho imenso cuidado a aquecer no ginásio antes dos treinos para não ter problemas. Já apanhei muito frio, não foram -15ºC, mas -7ºC. É um pouco doloroso.
Também experimentou uma nova realidade que foi a paragem de inverno.
Foi estranho, mas também não me custou. Parei de dezembro a janeiro, tive um mês de férias e a pré-época foi de cerca de dois meses. Nesses dois meses, não viemos à Rússia. Tivemos duas semanas na Turquia, parámos uma semana e voltámos uns 20 dias para o Dubai. Depois, tivemos mais uma semana de paragem e voltámos à Turquia. Aí, regressámos à Rússia, a faltar dois dias para começar o campeonato. Não apanhámos o verdadeiro frio de Moscovo. Os clubes russos têm posses para tirar os jogadores do país durante um ou dois meses.
As infraestruturas dos clubes russos são muito melhores do que as que existem em Portugal?
Não falta nada. Nota-se que há muito mais dinheiro do que em Portugal, quando comparamos clubes de meio da tabela. São realidades diferentes, é um país muito maior, que gera muito mais dinheiro.
E o futebol no campo também é muito diferente?
É mesmo muito diferente. Aquelas faltinhas que em Portugal se marcam e me fazem confusão, aqui não se marcam. É para andar. Tens de ser mais forte do que o adversário, empurrar se tiveres de empurrar. É mesmo muito físico o futebol aqui. Mas houve uma coisa que me fez confusão no início. No que toca à estratégia de jogo, passa muito por homem a homem, no campo inteiro.
Algo que já não se usa muito, pelo menos em Portugal.
No pontapé de baliza, por exemplo, já se joga homem a homem no campo inteiro.
O Esequiel Barco foi o colega de equipa que mais o surpreendeu?
O Barco e o [Manfred] Ugalde. São diferenciados, é a única coisa que posso dizer (risos).
Tem um treinador que jogou a alto nível [Dejan Stankovic]. Têm uma boa relação?
É um treinador exigente. Temos uma relação de treinador-jogador.
Falou há pouco que costuma ir jantar fora. Como é que é a comida na Rússia?
Fomos uma vez a um restaurante por recomendação do meu preparador físico, que é espanhol. Depois, já fui lá com os meus pais e com um dos meus melhores amigos, que é meu barbeiro. Já fui umas 12 vezes. Sempre que janto fora, como lá. A comida é mesmo muito boa.
E já adotou algum hábito russo?
Não sei se é um hábito deles, mas todos os dias bebo, ao pequeno-almoço e a seguir ao almoço, um chá verde de jasmim, com menta, gengibre e um bocado de gelo. Vi o pessoal a tomar muito chá e fiz esta mistura.
Como os sul-americanos bebem muito mate.
O Barco está para me trazer uma coisa dessas há mais de um mês. Ele diz que não mereço um mate e cá ando com um chá verde (risos). Já não é mau.
