Amador lusodescendente é a grande sensação da Taça de França: conheça-o

28 fev 2025, 23:57
Julien Domingues (Foto: AS Cannes)

Aos 29 anos, Julien Domingues é o melhor marcador da competição. Chamou a atenção a nível nacional e até... a Pauleta

Ao olhar para a tabela de melhores marcadores da Taça de França, a segunda maior competição do país, há algo que chama imediatamente a atenção. O máximo goleador chama-se Julien Domingues, com nove golos, marcados a favor do modesto Cannes. O apelido não engana - o avançado é lusodescendente.

Nascido em França, na cidade de Arles, no sul do país, Julien é filho de um casal de emigrantes portugueses oriundos de Pombal, no distrito de Leiria. Aos 29 anos, vive o melhor momento da carreira. Deixou de ser apenas mais um jogador da National 2, a quarta divisão francesa, para ter destaque nacional.

Não passou despercebido nem ao Maisfutebol, que o entrevistou... nem a Pauleta, como iremos ver mais à frente. Soma nove golos na Taça de França, sendo que muitos deles destacam-se pela nota artística, ou não fosse Julien um entusiasta do design e da pintura. O pontapé de bicicleta marcado ao Dives-Cabourg, que Julien compara a um célebre golo de Cristiano Ronaldo, diz tudo.

Com uma carreira feita em clubes amadores, entre a quinta e a quarta divisões francesas, Julien Domingues vai defrontar em breve o primodivisionário Stade de Reims na meia-final da Taça de França. Será o maior jogo da sua vida. Se a equipa vencer, poderá defrontar na final uma das duas equipas do coração – o Paris Saint-Germain. A outra é o Benfica, uma paixão hereditária.

Pivô do ressurgimento do Cannes, que já foi de Zidane, Vieira ou Micoud

Aos 17 anos, desistiu do futebol. Aos 29 anos, chega o estrelato. Julien Domingues tem um trajeto em clubes modestos como o Pontet, Saint-Malo, Trelissac e, em 2021, chegou ao emblema onde alcançou maior sucesso - o Cannes. Um histórico agora afundado na quarta divisão nacional depois de ter sofrido graves problemas financeiros na viragem do milénio. A última vez que esteve na Ligue 1 foi em 1998.

Cannes não se reduz a um festival de cinema ou destino turístico. O leitor mais experiente certamente se recordará de alguns grandes nomes do futebol dos anos 90’ que tiveram ligação ao Cannes, muitos deles formados no clube. Zinedine Zidane é o mais óbvio, antes de atingir o expoente do futebol. Mas também Patrick Vieira, Johan Micoud ou Luis Fernandez foram figuras de proa nessa página dourada do Cannes. Melhor, só mesmo em 1932, numa fase muito diferente do futebol, em que o clube ganhou o seu único título - precisamente uma Taça de França.

Agora, o clube é considerado amador mas tem vindo a ressurgir paulatinamente, especialmente desde 2023. É que o empresário norte-americano Dan Friedkin, dono da Roma e do Everton, também se interessou por este clube da Riviera Francesa e adquiriu-o em 2023. Segundo Julien Domingues, há um «projeto muito ambicioso» no Cannes, com o objetivo de, dentro de cinco anos, «chegar à Ligue 2 ou à Ligue 1». Para já, as coisas vão bem encaminhadas na National 2, com a equipa em segundo lugar a dez jogos do fim.

Depois de um quinto lugar em 2023/24, Julien Domingues tem sido fulcral para a boa campanha no campeonato, obtendo 11 golos em 15 jogos. Está na lista de melhores marcadores na competição depois de, na época passada, ter marcado apenas três golos na época inteira. O ressurgimento do Cannes para o futebol confunde-se com a explosão tardia do avançado.

Julien Domingues celebra de forma acrobática um golo marcado ao Guigamp, nos quartos de final da Taça de França

Desistência do futebol, rutura de ligamentos e Covid-19 atrasaram afirmação

E porquê essa explosão tardia? Bom, Julien chegou a desistir do futebol aos 17 anos. Jogava na formação do modesto Athlétic Club Arlésien, da terra-natal, e a insatisfação levou-o a uma medida drástica. «Nessa altura da minha vida já não estava a gostar de jogar. Já não compreendia muito bem o futebol. Foi uma altura um pouco complicada para mim, porque sempre acreditei no meu sonho de ser futebolista e de fazer carreira. Na minha cabeça, nunca desisti. Sempre acreditei, apesar de ter parado durante um ano e meio. A minha família e os meus amigos sempre me apoiaram», admite, em entrevista ao Maisfutebol.

Lá regressou, fez o seu caminho, não sem outros dois grandes contratempos – uma rutura do ligamento cruzado anterior e complicações com a Covid-19. Somando todo o tempo parado, Julien diz que esteve «quatro ou cinco anos» sem jogar verdadeiramente. «É por isso que sinto que sou agora um jogador fresco. Apesar dos 29 anos, sei que ainda tenho muitas épocas pela frente. O sucesso que tenho hoje também se deve a isso», acredita.

Nesses momentos mais complicados, Julien diz que nunca imaginou ser o melhor marcador da Taça de França. Porém, acreditou sempre nas suas capacidades. «O segredo foi ter sido mentalmente forte e nunca ter desistido», acrescenta o avançado. A família, a sua «fonte de estabilidade», foi essencial nesse processo. É por isso que, quando marca, celebra emotivamente junto deles.

Praia da Nazaré é destino de eleição para Julien Domingues e local de boas memórias

Toques de bola na Nazaré, benfiquismo e mensagem de Pauleta

Enquanto realizamos a entrevista por videochamada, o pai de Julien ajuda com a tradução de português para francês. Nascido em França, o avançado conhece as suas raízes mas não domina a língua de Camões. A história da família Domingues podia ser a de muitos milhares. Segundo o Observatório da Emigração, residem em França quase 600 mil portugueses, estimando-se que haja quase três milhões de lusodescendentes no país. O capitão do Cannes é outro caso – Cédric Gonçalves, natural de Beaumont.

«O meu pai e os meus avós levavam-me muitas vezes a Portugal. Tenho muito boas recordações desse sítio. Adoro esse país. Sentimo-nos em casa, apesar de vivermos em França. E, recentemente, também temos ido à Nazaré, com a minha mãe e o meu pai. Temos lá família - os primos do meu pai, as tias do meu pai, os avós em Pombal... E sim, estou muito ligado a esse país, apesar de ter nascido em França. São as minhas origens e o meu sangue», garante.

A praia da Nazaré costuma, até, ser um destino escolhido para Julien «dar uns toques». As características técnicas de jogador de futebol de praia são visíveis no estilo de jogo do avançado, que gosta de remates acrobáticos. Questionado se aceitava jogar em Portugal, foi pronto na resposta: «Claro, no Benfica! A minha família é toda do Benfica. O meu avô é um fã incondicional, os meus tios e o meu pai também. Embora o FC Porto também seja um grande clube, com o qual sempre sonhei, assim como o Sporting. Quando o FC Porto ganhou a Liga dos Campeões com Mourinho foi um momento mágico. Se tiver de escolher, é o Benfica», sorri Julien.

Os jogadores portugueses são uma referência. Desafiado por nós se se compara a um «Ibrahimovic» pelo estilo de jogo e estatura, Julien nega prontamente: «Cristiano Ronaldo!» «Ronaldo, Luís Figo ou Pauleta são jogadores magníficos, que sempre me fizeram sonhar». E ainda continuam a fazê-lo. A fama de goleador chegou a Pauleta, antigo internacional luso que se destacou em França, e este enviou-lhe um vídeo de encorajamento, a pedir que continuasse a marcar golos. Um pequeno gesto que significa muito.

Adepto de «belos gestos técnicos» e «polivalente», Julien é mais um exemplo de como o futebol corre nas veias dos portugueses. «Os jogadores lusodescendentes são bem vistos em França. Somos vistos como futebolistas técnicos, criativos, sérios e trabalhadores. E, sobretudo, com um bom estado de espírito», acrescenta.

Em destaque numa Liga considerada amadora mas em que «90% dos jogadores vivem exclusivamente do futebol», garante, Julien Domingues prepara-se para o duelo mais importante da carreira, bem como os restantes colegas. O Estádio Pierre de Coubertin, com capacidade para quase dez mil pessoas, irá receber o Cannes-Stade de Reims para as meias-finais da Taça de França, no dia dois de abril.

Na outra meia-final há também sangue luso – Luís Castro levou o Dunquerque a um feito histórico (com Diogo Queirós no plantel) e terá de enfrentar o Paris Saint-Germain, repleto de estrelas portuguesas. Uma delas ameaça Julien. «Gonçalo Ramos vai ter de parar de marcar», brinca, depois de o ponta-de-lança já ter somado cinco golos na competição. Vitinha, Nuno Mendes e João Neves querem também a medalha de campeão. A Taça de França desperta sonhos em todos eles.

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