Delfim, antigo internacional português, recordou a lesão que o atormentou no início do século e quase obrigou a acabar precocemente a carreira. Deu a volta por cima, encontrou paz noutra modalidade e diverte-se com os amigos... mas o processo em França só poderá ficar concluído em janeiro
«Como estamos, companheiro?». Foi desta forma que Delfim nos atendeu, ele que acreditou estar a falar com o antigo colega de equipa André Cruz, ex-internacional brasileiro.
O antigo médio do Sporting partilhou o balneário dos leões com o esquerdino e estava pronto para recordar a conquista do campeonato na viragem do século, quando ambos ajudaram a encerrar uma longa seca em Alvalade.
Rapidamente o interrompemos e lamentámos, até porque este pé esquerdo está longe de bater livres com aquela precisão.
A conversa com Delfim surgiu a propósito do Sporting-Amarante, dois dos amores que acumulou ao longo da carreira, mas tornou-se inevitável falar do episódio que marcou o percurso do antigo internacional português.
Ainda em disputa nos tribunais franceses com o Marselha, Delfim recordou os sacrifícios que teve de fazer para voltar a jogar quando, depois de aparecer como um médio-defensivo talentoso, dono de um pontapé canhão, rumou aos gauleses, em 2021, a troco de três milhões de euros.
No ano seguinte, adormeceu numa posição desconfortável durante uma viagem de autocarro até Lyon e as dores provocadas por uma contratura muscular levaram-no ao gabinete médico do clube. Aí, diz ter sido alvo de negligência, já que ficou com graves problemas na coluna. Seguiram-se meses de dúvida, sem saber o que de facto lhe tinha acontecido e quase dois anos e meio sem jogar. Depois de várias operações e uma luta constante contra as dores do próprio corpo, regressou a Portugal em 2005, emprestado ao Moreirense e manteve-se no ativo até aos 32 anos.
Sem sequer pensar até que patamar poderia ter chegado não fosse aquele episódio que ainda hoje o acompanha, Delfim garante estar em paz consigo mesmo e vive uma vida tranquila. Ainda aguarda o desfecho que um processo que se arrasta há mais de uma década, mas encontrou no conforto da família e no futsal a serenidade que outrora precisou. Hoje, já consegue abraçar os filhos, algo que durante algum tempo pareceu impossível.
Em que ponto está o litígio com o Marselha?
O litígio está no Supremo tribunal francês e a sentença será deliberada em finais de janeiro.
Já é um processo que se arrasta desde 2012...
Deu entrada por essa altura e remonta a factos de 2002.
Que expectativas tem quanto ao desfecho?
Não tenho expectativas. É esperar pela posição da justiça francesa para, depois, me pronunciar, mediante essa conclusão. Se não for favorável, irei avançar para outra instância, fora de França, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
Entende que o caso ainda não tenha sido resolvido?
Está nas instâncias jurídicas francesas, tudo tem de ser esgotado. Tenho de esperar para depois avaliar que passos devo dar.
E fisicamente ainda tem mazelas?
As mazelas ficaram. Vou vivendo. Fiquei com limitações que me fizeram perder valências enquanto parte ativa do futebol profissional numa tenra idade. Aos 25 anos, vi-me alheado dos relvados durante praticamente três épocas desportivas, com perda de valências físicas e motoras. Nunca mais voltei a ser o jogador que era.
Passaram mais de 20 anos, a preocupação com a condição física dos jogadores é outra. Acredita que atualmente poderia ter outro tratamento?
Sinceramente, não sei. Tudo depende das pretensões das pessoas que estão a gerir um clube, que é uma empresa. Tudo depende do profissionalismo e da boa-fé.
Esteve 30 meses parado, conseguiu voltar a jogar e ainda regressou a Portugal. Mas também se retirou muito cedo. Foi uma opção sua ou o corpo já não permitia ir muito mais além?
Fiz 32 anos em fevereiro de 2009 e terminei a carreira em maio desse ano. Já tinha recebido a informação de que teria sido importante ter deixado de jogar logo aos 29 anos. Tudo fiz para voltar, voltei, mas isso exigiu de mim um esforço físico suplementar, para lá do normal. Quando uma pessoa é fixada artificialmente em duas vértebras consegue perceber o que daí advém. Teve de ser feito muito sacrifício para voltar a jogar. Fi-lo, nunca na sequência de boas prestações e nunca na melhor condição física contínua. Com 29 anos, já me tinham dito que era oportuno terminar. Contudo, a paixão, o bichinho foi ganhando terreno e fez com que prolongasse a carreira até aos 32 anos. Acordava diariamente com a informação de que era altura para deixar [o futebol], porque estava em declínio.
Os médicos diziam isso?
Eu próprio sentia. Não precisava dos médicos. A função deles era recuperar-me e dizer aquilo que devia ou não fazer. Contrariei dados e estatísticas. Ninguém me disse taxativamente que poderia voltar a jogar, bem pelo contrário. Diziam que iria ter muitos problemas e que até dificilmente recuperaria o meu físico para ter uma vida normal. Recuperei, ao ponto de conseguir voltar a jogar.
Quando acabou a carreira sentiu-se em paz por ter dado tudo aquilo que conseguiu ou só mais tarde é que ficou de consciência tranquila?
É uma questão pertinente. Saí de bem comigo mesmo. Consegui demonstrar que era um ativo para o futebol e não um inválido, como o clube me tentou fazer passar. Tentou, inclusive, comprar a minha invalidez. Terminar a carreira como terminei… é com um orgulho enorme que declaro que o fiz.
Ainda resta alguma mágoa relativamente ao Marselha?
Mágoa não existe. Nunca me agarrei ao lado negativo, sempre ao positivo. Foi isso que me fez recuperar da forma como recuperei, para voltar como voltei, não obstante nunca nas condições que tinha antes da grave lesão que me contraíram. Mas fui ao ponto de ter sensações boas, para lhes mostrar que eu não era aquilo que eles queriam fabricar.
O que ficou por cumprir na carreira?
Saí aos 24 anos e, aos 25, contraio uma lesão gravíssima na coluna vertebral, provocada num gabinete médico do departamento clínico do Marselha. Maior frustração não pode haver. Esta lesão não foi contraída no campo, mas sim num gabinete médico.
Podia ter atingido outros patamares?
Não vivo para procurar as respostas, porque nunca as terei.
Mas ainda joga futsal.
Jogo futsal nos veteranos [do CP Vila Boa do Bispo], no campeonato da Associação de Futebol Distrital do Porto. É a forma que tenho de ter contacto com uma modalidade relativamente próxima do futebol. Não se joga no exterior, joga-se protegido do frio. É contra-indicado tendo em conta o meu historial clínico, mas o que tiro de positivo nesses convívios supera todo o mal que também me faz.
Joga com o Pedrinha [antigo jogador de Penafiel e P. Ferreira] e Noverça [que passou por Leixões, Desp. Aves, Gil Vicente, entre outros], que também jogaram na Liga. Como é partilhar o balneário novamente com quem andou em palcos parecidos com aqueles que pisou?
É o espírito que continua, aquele espírito de balneário, de grupo, de amizade. Deixa-me em contacto com o mundo a que me habituei e no qual cresci desde tenra idade. Abandonei a carreira de profissional em consciência, orgulhoso de mim próprio.
Está com 47 anos. Ainda podemos vê-lo no futsal até aos 50?
[Risos] Vamos mês a mês, ano a ano, porque com tudo o que carrego quanto a histórico clínico… pode pregar-me uma surpresa a qualquer momento.
Em 2014, deu uma entrevista ao Maisfutebol e falou da sua paixão por motas. Ainda se mantém?
Menos. Muito menos mota de "enduro", mas a mota de estrada acaba por ser o meio de transporte, ainda mais a viver no Porto.
Como é que ocupa o seu tempo atualmente?
Sou um pai presente, após a carreira preocupei-me a cem por cento ao acompanhamento dos meus três filhos. Fiz também, criteriosamente, uma gestão de património para conseguir suportar as despesas diárias.