Jorginho é um dos rostos do Kairat, a equipa do Cazaquistão que surpreendeu a Europa. Há dois anos, jogava no Pevidém e nunca sequer atuou nos escalões profissionais portugueses. Estava longe de imaginar o que tinha pela frente, até que aceitou uma proposta do Luxemburgo e tudo mudou. Agora, deixa uma garantia: «Se for para cumprir calendário mais vale nem me levarem»
Menos de 24 horas depois de ter atingido o ponto alto da carreira, Jorginho conversou com o Maisfutebol sobre um percurso que até há bem pouco tempo só parecia possível no sonho mais irrealista. Fizemos-lhe companhia ao jantar e explicou-nos o que sente o rapaz que saiu de Braga há dois anos, sem nunca ter jogado nos escalões profissionais, para tentar uma aventura no estrangeiro, agora coroada com a presença na Liga dos Campeões.
O avançado de 27 anos foi um dos protagonistas do apuramento histórico do Kairat diante do Celtic, mas, antes disso, ainda foi preciso ultrapassar três pré-eliminatórias. Com o objetivo de ser campeão cazaque ao serviço de um clube gigante no país, Jorginho admite que é impossível não pensar já nos possíveis adversários da Champions e há um cenário que se sobrepõe aos demais: jogar em Alvalade.
O português tem um discurso muito sereno e não se mostra deslumbrado pelo sucesso. Afinal, há dois anos trabalhava e jogava ao mesmo tempo, ciente de que o futebol poderia não dar certo. Mas deu. Deu muito certo.
Já se passaram 24 horas, deu para parar um bocadinho e pensar no que é que aconteceu?
Já parei. Mas ainda não parei de pensar. Ainda não caiu a ficha. Por tudo, por tudo. Não é porque não acreditássemos que fosse possível, é mais pela dificuldade que era desde o início e pelo feito histórico que é para nós, para o clube e para o país.
As suas redes sociais estão cheias de mensagens, não param de chegar.
As notificações – não é que eu ligue a isso, pelo contrário, eu até gosto bem de estar no meu cantinho com pouca gente atrás de mim – mas não pararam desde o final do jogo.
O que é que veio à cabeça logo naquele momento em que o guarda-redes defende o penálti? Houve muitas lágrimas no final do jogo.
A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu fiquei chateado porque não tive oportunidade de marcar. Ia marcar a seguir (risos). Temos ali um momento em que nós já estávamos a correr e o árbitro apita e manda esperar porque o VAR estava a confirmar se o nosso guarda-redes tinha saído da linha ou não. Por acaso, o nosso capitão, quando chegou ao meio-campo, já nos tinha avisado disso, depois de marcar o penálti. Mas nós começámos a correr e acabou. Se ele anulasse, não sei como é que íamos continuar. Já estava tudo dentro do campo (risos).
«Se for para cumprir calendário mais vale nem me levarem»
Também foi importante o facto de a segunda mão ter sido em casa?
Isso vale o que vale. Porque se levássemos 3-0 ou 4-0 lá, o que é que íamos fazer em casa? E vice-versa. No Slovan [Bratislava], por exemplo, o primeiro foi em casa e depois fomos lá a penáltis também. No fundo, isso só se sabe se é bom no final, depois de estar feito.
Continuam a lutar pelo título [a um ponto da liderança], mas, com esta entrada da Champions, como vão gerir as competições e que prioridades vão existir?
O foco tem de ser o campeonato, porque, se nós queremos jogar a Champions para o ano, temos de ganhar o campeonato. Apesar de nós sonharmos, acho que ganhar a Liga dos Campeões já será um bocado longe demais (risos). Mas nós também queremos fazer boa figura na Champions. Não queremos ir para a Liga dos Campeões só para cumprir calendário. Se for para cumprir calendário – pelo menos para mim – mais vale nem me levarem. Eu quero ir para lá mostrar o meu futebol e lutar pelos pontos. Toda a gente achava que, se calhar, íamos perder 7-0 com o Celtic a duas mãos. A verdade é que os eliminámos. Vão começar os jogos, vem aí o sorteio… Por que não fazer uns pontinhos e quem sabe se vamos aos play-offs.
Há alguma equipa que gostava de apanhar?
Fora, tenho três clubes onde mais gostava de jogar, se pudesse escolher. Era jogar em Alvalade, em Anfield e em Dortmund. Seriam as minhas preferências. Mas a verdade é que, pegando na lista, se pudesse escolher, eu jogava contra todas, porque são clubes incríveis.
Alvalade por algum motivo em particular?
Por dois motivos. O primeiro é porque, sendo em Portugal, talvez tenha a oportunidade de ir a casa ver a minha família, e os meus amigos e tê-los lá a apoiar. E porque é o clube que eu gosto desde pequenino e o meu pai também. E era um presente que eu gostava de poder dar ao meu pai, ver-me jogar no estádio do Sporting, que é algo que nós sempre quisemos.
Há também a possibilidade de jogar na Luz. Em 2021, quando jogava no Fafe, esteve perto de lá ir jogar para a Taça de Portugal, mas perderam com a B SAD, apesar de estarem a ganhar 2-0 quase até aos 90.
Foi um jogo estranho. Foi um bocadinho feio o que nos fizeram. Nós fomos obrigados a jogar com um surto de Covid e não quiseram adiar o jogo. Fomos 17 jogadores para o jogo, sendo que alguns eram miúdos. Na véspera, em vez de estarmos a descansar, estávamos a fazer os testes.
Se agora pudesse jogar na Luz, ficava chateado?
Não, não, não. Se fosse na Luz, também ficava contente por todas as razões que disse. Ia estar perto de casa e da minha família. Seria uma motivação ir a Portugal seja contra quem for.
Para quem não conhece bem a realidade, o que pode dizer sobre o Kairat?
O Kairat é um clube totalmente diferenciado aqui no Cazaquistão. Não é o clube que paga mais, pelo que se fala aqui, mas é dos mais certos, dos mais sérios, mais responsáveis e, depois, a nível de condições é o melhor clube do país, mas de longe. As nossas condições de treino são incríveis. O nosso centro de treinos, os quartos para os jogadores, as condições de recuperação, o material de trabalho, tudo, tudo é diferenciado. Estou a dizer o peixe que me venderam, quem andou por outros clubes no país. Mais nenhum clube tem o que o Kairat tem.
Sempre disse que foi muito fácil tomar a decisão de sair do Luxemburgo para mudar-se para o Cazaquistão. O projeto que apresentaram era muito melhor?
Foi por tudo. No Luxemburgo, tinha jogado também a primeira eliminatória da Liga dos Campeões contra o Klaksvík, das Ilhas Faroé e eu senti que ali o que fez a diferença era só uma questão de mentalidade, de confiança no jogo, de tranquilidade. E quando me dizem que o Kairat, campeão, vai jogar a Liga dos Campeões, com melhor salário, melhores condições de trabalho, mais competitivo…. Comecei a pensar: se apanharmos adversários do nível que eu apanhei aqui, os jogadores e staff lá, se calhar, estão todos mais bem preparados para o momento. Pode ser que dê para fazer uma gracinha na Europa e abrir mais portas. Foi tudo, abriu-me portas, melhorou a minha vida financeira, ajuda tudo.
Como é que é, num plano mais pessoal, o seu dia-a-dia no Cazaquistão?
Eu sou uma pessoa muito caseira. Passo mais tempo em casa. Mas, por exemplo, no nosso grupo de portugueses e brasileiros vamos sempre jantar a algum lado, já fomos aqui às piscinas, porque têm piscinas incríveis, têm muitos espaços verdes, já fomos às montanhas… Quando temos uma folga, fazemos algo diferente.
E teve algum problema na adaptação? Desde a língua, à comida ao tempo...
A comida, por acaso, foi a melhor surpresa que tive no país. Não é nada mau como podemos pensar, é tudo normal, como estamos habituados em Portugal. Os cozinheiros cozinham muito bem e, comendo em casa, faço-o também, por isso não é problema. Têm também restaurantes para todos os gostos. O clima foi a pior parte, no inverno, quando eu cheguei, porque havia muita neve nas estradas, muita neve mesmo.
Como é que foi recebido? O Luís Mata chegou mais tarde, era o único português na altura, e existe também o grupo dos brasileiros.
Quando cheguei cá, ainda não estava nenhum dos brasileiros, só chegaram dois dias depois de mim, mas fui recebido por funcionários do clube, o meu empresário acompanhou-me também, e o clube, inclusive, tinha um tradutor, era uma pessoa que falava português, mas essa pessoa já não trabalha connosco. Depois, quando os brasileiros chegaram, começou a ser mais fácil porque eles acolheram-me ali no grupo, nós fizemos o grupo do café, porque ficámos a viver um mês no centro de treinos e fazíamos sempre a nossa horinha do café, depois de jantar, no quarto deles. Eles facilitaram muito as coisas. Depois o Mata chegou e, a partir daí, já se fala português de Portugal… e do Norte.
E a relação no balneário quanto à língua é complicada?
Há um grupo de sete ou oito jogadores que falam bem inglês, os da Geórgia, de Israel e da Sérvia. Há também alguns cazaques mais novos que já sabem inglês, porque já se aprende nas escolas. E isso facilita. Claro que há sempre um grupo que não fala mesmo nada, mas a linguagem do futebol dá sempre para comunicar, porque é muito simples e praticamente todos entendem.
Tem sentido saudades de casa?
Consegui ir uma vez há uns meses, vou conseguir também ir na próxima semana, mas é o que é, temos de fazer sacrifícios na vida se queremos alguma coisa. Para já está a dar-me frutos. À custa deste sacrifício já consegui trazer os meus pais ao Cazaquistão para terem umas férias diferentes, consegui levar os meus pais e o meu irmão ao Celtic Park, que era uma experiência diferente. Quero ter mais vezes, quero que seja uma coisa normal, mas na altura foi a primeira vez.
O rapaz que há dois anos saiu de Braga para o Luxemburgo, na altura, pensava que dois anos depois tudo teria corrido tão bem?
Eu não pensava objetivamente, mas sabe aquela ideia que está ali na parte de trás da cabeça, naquela gaveta lá ao fundo? A ideia estava lá. Eu tinha esperança. Não pensava que seria uma coisa clara, que ia acontecer, mas tinha aquela esperança. Eu estava a fazer grandes números no Differdange e, nos meus jogos europeus, – e isto até parece arrogância – eu não vi assim ninguém melhor do que eu nos clubes contra quem eu joguei, na minha posição. Acreditava que conseguia lá chegar.
Apesar de ter feito grande parte da formação no Sp. Braga, não começou lá.
O meu primeiro ano de futebol não é federado, mas é aos sete anos, no Merelinense, porque o meu pai tinha rompido os ligamentos e estava lá a fazer a recuperação, então pôs-me lá nas escolinhas. Depois, o meu segundo ano também não federado é no Celeirós, nas escolinhas do Celeirós. Só depois é que vou para o Sp. Braga e aí é que é federado.
Acaba a formação no Celeirós, em júnior. Porque é que saiu naquela altura do Sp. Braga?
Porque já não estava a ter tantos minutos e, conforme se fica mais velho na formação… o cerco apertou e foi a altura de seguir o meu caminho. E a verdade é que se calhar foi o melhor, porque se tivesse ficado no Sp. Braga talvez não tivesse chegado onde cheguei ou se calhar chegava mais longe. Correu bem.
Sentiu que o futebol podia não dar certo?
Quando saí do Sp. Braga não pensei nisso, porque era muito novo. Ainda não tinha maturidade sequer para pensar nisso. Achava que tinha o mundo todo pela frente e que o meu tempo era eterno. Não tinha maturidade para pensar nessas coisas. Eu só me queria divertir. Essa realidade começou a cair-me a partir dos 23/24 anos. Porque sempre disse aos meus pais que ia investir até aos 25. Se aos 25 não desse ia procurar outro caminho e ia trabalhar. E foi o que aconteceu.
Nos diferentes contextos por onde passou, os seus colegas jogavam e trabalhavam?
No Celeirós ainda estudava, estava a acabar o 12º ano. No Merelinense, nos meus primeiros dois anos, treinávamos de manhã, havia muita gente profissional e havia um ou outro que tinha um part-time ou um negócio, malta mais velha. No Fafe já era praticamente tudo profissional. No Pevidém, na Liga 3, eu era o único que não trabalhava e, quando descemos, foi o momento em que decidi ir trabalhar também.
Porque os outros também trabalhavam e sentia que também precisava disso? Ou porque o futebol já podia não chegar?
Foi o que eu tinha dito aos meus pais, queria investir só no futebol até aos 25 ou iria para outros caminhos. E o dinheiro que eu estava a ganhar sem sair do mesmo sítio já não era futuro para ninguém. Era um bom dinheiro, mas só iria durar até os 30 e poucos anos a jogar naquele nível. Preferi ter dois salários do que só um.
O que fazia naquela altura?
Controlo de qualidade numa empresa em Braga.
Ter subido a pulso e trabalhado ao mesmo tempo que jogava também ajudou a atingir um determinado patamar?
Eu acredito que sim, porque tirou-me aquela obsessão de ter de ser jogador de futebol. Deixou-me muito mais relaxado para fazer as coisas e o trabalho deu-me outra maturidade. A verdade é que trabalhar é duro. Eu tinha de me levantar às cinco e tal da manhã para pegar às seis e isso traz outra maturidade.
E agora quer trabalhar para atingir um patamar superior e não voltar a esse onde estava há dois anos...
Sem dúvida. Quero continuar a subir que é para não precisar de voltar a esse tipo de trabalho no futuro. No entanto, estou de consciência perfeitamente tranquila, porque se a vida der essa volta e tiver de o fazer não tenho medo nem problema de me voltar a fazer à vida, porque não há tempo para nos lamentarmos.
Não se deixa deslumbrar pelo sucesso?
Não. Nem pensar numa coisa dessas. Nunca fui ninguém, vou ser agora? Sou uma pessoa como todas as outras.
Que expectativas é que ainda tem para esta época?
Estamos na luta pelo título, que é o objetivo principal, queremos tentar fazer mais uma gracinha como já fizemos até aqui na Liga dos Campeões, quero continuar a marcar golos e a fazer assistências para ajudar a equipa a ganhar e depois logo se vê. Não gosto de atirar números em concreto, isso guardo para mim.
Ainda se vê a ficar no Cazaquistão mais alguns anos ou pensa em voltar a Portugal? Ou também ficar no estrangeiro?
Estou aberto a todas as possibilidades. O que achar que é melhor para mim é o que eu vou seguir. Se tivesse uma proposta financeiramente melhor de Portugal, dos clubes principais, que disputam a Europa, eu ia já, sem olhar para trás. Jogando nesses clubes, em Portugal, abrem-se portas para o mundo que aqui não abrem. A realidade é essa. Mas estou aberto a tudo. Ficar cá, dar outro salto… O objetivo principal, e eu aprendi isto com um senhor do futebol, o Rui Rego, tem de ser melhorar a nossa vida. No próximo ano, melhorar a nossa vida. No próximo contrato, melhorar a nossa vida. E o segundo é, pelo menos, manter a nossa vida. E é assim que eu penso. Pelo menos manter e tentar melhorar.
«Se quando tens a oportunidade a perna treme… não dá para ti»
Já pensa no futuro, no pós-futebol?
Já me veio algumas vezes essa ideia à cabeça, na verdade. Mas ainda não preparei nada, nem pensei em nada do que eu gostaria de fazer. Sei que não vou ser treinador, isso é certo.
Por algum motivo?
Não é um trabalho para mim. Não tenho paciência, nem personalidade para isso, nem capacidade, nem características. Só gosto de jogar futebol. Não gosto de mais nada. Só gosto mesmo de jogar. Eu estou em casa e não vejo um jogo de futebol. Só se tiver sentimento, se for um clube que eu gosto ou a nossa Seleção. Não tenho prazer em ver futebol, eu gosto é de jogar. Muito dificilmente estarei envolvido no futebol, mas digo isto aos 27 anos.
Já esteve na Liga 3 e no Campeonato de Portugal. É mais um sinal de que os clubes devem olhar para dentro de portas?
Sem dúvida alguma. Estou sempre a dizer isso. E mais importante do que pegar num jogador português é dar-lhes os mesmos créditos que damos ao estrangeiro quando se gasta dinheiro. Porquê? Quando se vai buscar um jogador dentro de portas, o investimento não é tão grande. Se correr mal, fecha-se a porta outra vez e vai cada um à sua vida. O estrangeiro, como o investimento é grande, se as coisas estiverem a correr mal, insistem mais um bocadinho. Fizeram um investimento, então têm de ter um bocado de paciência a ver se dá mesmo ou não. Eu acho que isso é o mais importante, é ter paciência com o jogador português, porque eu acredito mesmo nisto. Atualmente, a partir de certos patamares, os jogadores são quase todos iguais. O que faz a diferença é só a mentalidade. Eu acredito que se tu fores para o meio deles, és tão bom quanto eles. Claro que a um nível proporcional, porque há todo o contexto de adaptação e há jogadores que são melhores do que outros e acabou. É mesmo assim. Mas eu acredito que tendo oportunidade, da forma como está o futebol, muito organizado, muito físico, de capacidade física, já é raro ver aquele talento que sozinho resolve um jogo. Se passas um, tens a cobertura do outro. Eu acho que o que faz a diferença é só a concentração e a capacidade de não errar nas coisas básicas. Que são o passe, a receção sempre bem feita, essas coisas fazem a diferença.
E depois ter a oportunidade...
Sim, depois ter a oportunidade. E, quando tens a oportunidade, tens de morder a língua e agarrar. Se quando tens a oportunidade a perna também treme… não dá para ti.