Autoridades mexicanas sabiam da existência da quinta desde setembro, mas nada fizeram. Acredita-se que possam ter morrido milhares de pessoas naquele local
Milhares de peças de roupa, crematórios clandestinos, sepulturas e restos mortais humanos: foi este o cenário "macabro" encontrado numa quinta com pouco mais de meio hectare, na região mexicana de Jalisco, a uma hora de Guadalajara, a capital mexicana.
A descoberta da propriedade - que está a ser apelidada de “rancho dos horrores” - aconteceu na semana passada, quando membros do grupo Guerreros Buscadores de Jalisco — formado por familiares de desaparecidos — se dirigiram ao local após receberem uma denúncia anónima.
A propriedade seria utilizada como um campo de treino de estilo militar para novos recrutas de um dos mais poderosos grupos de crime organizado do México, o Cartel da Nova Geração de Jalisco. Os jovens chegavam à quinta atraídos por anúncios de emprego falsos para funções como motoristas, eletricistas e seguranças, com a promessa de um pagamento de quatro mil pesos (equivalente a cerca de 183 euros).
Contudo, depois de ali chegarem nunca mais eram vistos: o campo de treino transformou-se num autêntico campo de extermínio. Uma vez na propriedade, ficavam sem acesso a telemóveis e objetos pessoais, deixavam de ser tratados pelos nomes e eram obrigados a realizar treinos militares violentos, acabando muitos deles por ser assassinados, de acordo com os Guerreros Buscadores de Jalisco.
📷 Los terribles hallazgos de un posible campo de exterminio en #Teuchitlán #Jalisco #Mexico @ahtziricardenas conversa con @Enrique_Acevedo en @Radio_Formula , sobre lo último con respecto a lo encontrado ahí el pasado 5 de marzo, por el colectivo "Guerreros Buscadores de… pic.twitter.com/h3twGugdQo
— Ahtziri Cárdenas C. (@ahtziricardenas) March 11, 2025
“A pele fica arrepiada ao ver tudo espalhado pelo chão, ao ver as malas, os sonhos daqueles jovens. Ver como foram parar ali porque pensavam que podiam ter uma vida melhor”, disse a líder do grupo que liderou as buscas, Indira Navarro.
Entre os itens encontrados estava uma carta que dizia: "Meu amor se algum dia eu não voltar, peço-te apenas que te lembres que te amo muito".
Em setembro do ano passado, as autoridades estatais já tinham investigado a quinta. A operação encontrou dois reféns, um cadáver, vários fragmentos de ossos queimados, armas e cartuchos e resultou na detenção de dez pessoas armadas, de acordo com o El País. No entanto, as autoridades não prosseguiram com as diligências.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, classificou o caso como "terrível" e acusou o governo estatal, controlado pela oposição, de ter gerido mal a investigação. Agora, ordenou uma investigação profunda com a procuradoria nacional a assumir a condução dos trabalhos.
As autoridades estatais afirmaram que "não tinham condições para explorar" a propriedade por ser "muito grande" e prometeram cooperar com as autoridades federais.
O procurador-geral do México, Alejandro Gertz, afirmou que vai investigar se a falha na investigação inicial, ao não reconhecer a gravidade dos crimes ali praticados, se deve a incompetência ou a uma conspiração com o crime organizado.
O caso, que está a chocar o México, colocou em evidência o problema crónico do país relativamente a desaparecimentos ligados aos narcotráfico. Jalisco é o Estado mexicano com mais desaparecidos: quase 125 mil registados oficialmente, a maioria desde 2006, quando foi declarada a guerra aos cartéis de droga.
