As raparigas têm a menstruação cada vez mais cedo e isso tem consequências. Mas porquê?

6 nov, 22:00
A menstruação está geralmente associada a um desconforto, mas há doenças que tornam as dores insuportáveis (Polina Zimmerman/ Pexels)

Mais doenças hormonais, quadros de ansiedade e até de depressão. Tentámos perceber quais os fatores que estão a fazer com que isto aconteça

É um momento marcante no crescimento de qualquer rapariga: a primeira menstruação (ou menarca, de acordo com a terminologia médica) é uma expressão natural da puberdade e, regra geral, antecede várias alterações morfológicas próprias desta fase do desenvolvimento do corpo. Mas se, hoje em dia, a primeira menstruação surge na maioria das raparigas entre os 11 e os 12 anos, a verdade é que nem sempre foi assim.

"Antigamente, as mulheres tinham uma primeira menstruação mais tardia. A puberdade foi sendo cada vez mais cedo e houve mudança até na definição de puberdade precoce. Nas raparigas, antigamente, a definição de puberdade precoce estava nos nove anos e agora já está nos oito anos", sublinha a ginecologista Irina Ramilo, em declarações à CNN Portugal.

Com efeito, se recuarmos a épocas mais distantes, constatamos que a primeira menstruação surgia muito mais tarde do que agora - no século XIX situava-se por volta dos 15 anos e no século anterior aos 16. Progressivamente, a menarca foi aparecendo cada vez mais cedo. O que nos leva à questão: porquê?

"É difícil perceber, mas sabe-se que uma das alterações nas raparigas está relacionada com os disruptores endócrinos, que são produtos químicos que estão presentes numa sociedade cada vez mais industrializada", começa por notar Irina Ramilo.
 
Esses disruptores endócrinos estão presentes no meio ambiente, num vasto leque de produtos desde alimentos a cosméticos, e podem afetar diretamente a nossa saúde. Estudos demonstram que essas substâncias podem causar alterações hormonais que, por sua vez, podem estar na origem deste aparecimento cada vez mais precoce da puberdade. Mas, nesta equação, há mais variáveis.
 
"A população está cada vez mais obesa e a obesidade também significa que temos mais estrogénios em circulação. Estamos também a falar de raparigas que podem ter síndrome metabólico, mais doenças vasculares, diabetes", completa a médica ginecologista e autora da página "A Ginecologista da Melhor Amiga".

A obesidade parece ser outro ponto-chave e a razão pode estar na produção de leptina. Diversos estudos têm relacionado a leptina, que é produzida pelo tecido adiposo, com o sistema reprodutor e o aparecimento de uma puberdade precoce.

A jornalista norte-americana e especialista em assuntos de Ciência Donna Jackson Nakazawa tem-se debruçado sobre este tema e, numa entrevista à CNN Internacional, acrescenta outra ideia importante: "Alguns neurocientistas afirmam que é possível que a sexualização das raparigas, em idade precoce, seja outra parte da razão pela qual elas estão a passar pela puberdade mais cedo. Se o ambiente diz que uma pessoa é sexual, isso pode estimular os caminhos que desencadeiam a puberdade".

Apesar de haver dados pouco concretos sobre este assunto, a combinação destes fatores parece ser a explicação mais evidente para a evolução da puberdade nas raparigas, ao longo da História. Uma evolução que tem consequências.

Cancro da mama e depressão: os possíveis efeitos 

Como menstruam cada vez mais cedo, as mulheres acabam por estar expostas a alterações hormonais durante um período de tempo mais longo. E isto tem efeitos, sobretudo a longo prazo: "As doenças hormonais podem ter mais prevalência, como é o caso do cancro da mama", frisa Irina Ramilo.

Por outro lado, a puberdade precoce pode promover perturbações psicológicas, nomeadamente quadros de ansiedade e até de depressão, uma vez que muitas raparigas, quando menstruam pela primeira vez, nem percebem o que lhes está a acontecer ao corpo. "As meninas que menstruam tão cedo não conseguem perceber porque se estão a desenvolver daquela forma", completa a especialista.
 
"Uma menina vê sangue e claro que se assusta. Depois, o aparecimento dos pêlos púbicos, o crescimento da mama, as ancas mais largas, uma menina com oito ou nove anos não se sente preparada para isso e pode haver mais perturbações psicológicas ou uma depressão", vinca Irina Ramilo.

Em entrevista à CNN Internacional, Donna Jackson Nakazawa lembrou que a puberdade está a acontecer "num momento em que o cérebro não deveria ser transformado". "Todas essas partes do cérebro que ajudam a discernir o que devemos ou não responder e quando precisamos de ajuda ainda não se desenvolveram", sublinha.

"Isso significa que elas estão a passar por emoções e vivenciam um aumento do stress antes dos seus cérebros estarem desenvolvidos e aptos para lidar com estas transformações. É uma incompatibilidade evolutiva", vincou Nakazawa.

Um cenário que se agrava se se tiver em conta que as famílias podem não estar sensibilizadas para esta temática. "Os pais não estão a pensar que uma menina com oito anos vai ter a menstruação pela primeira vez. Estas meninas são muito novas", frisa a ginecologista Irina Ramilo.

Por isso, Irina Ramilo defende que, aqui, a escola deve ter um papel fundamental. A médica acredita que as informações sobre o aparelho reprodutor feminino devem ser exploradas mais cedo e, a este propósito, acrescenta: "Como a sexualidade também é vivida mais cedo, a própria educação sexual também deve ser implementada mais cedo".

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