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Menopausa: o que muitas mulheres ainda não sabem - e os riscos que isso pode trazer

CNN , Sashikala VP
22 mar, 12:00
Ilustração menopausa (Yukari Schrickel/CNN)

Muito mais do que afrontamentos e suores noturnos: a menopausa pode afetar o coração, a saúde mental e o sono. Eis o que os especialistas dizem (e que as mulheres devem saber)

Aos 38 anos, Rosy Devi vive com dores constantes no corpo. Caminhadas curtas tornaram-se difíceis, fica sem fôlego com facilidade e sente dores no peito. Diz que a sua saúde tem piorado gradualmente desde que fez uma histerectomia em 2019, cirurgia que a levou a entrar prematuramente na menopausa.

"Estou a caminhar e, de repente, sinto um calor intenso no corpo e começo a suar. E sinto uma dor no peito, como se alguém me tivesse dado uma pancada nas costas", conta a mãe de quatro filhos, que vive no estado de Bihar, no leste da Índia.

Nunca imaginou que a menopausa, o momento da vida em que a mulher deixa de ter menstruação de forma permanente, tivesse um impacto tão grande no seu corpo.

"Agora sinto-me realmente velha. Quer dizer, sinto mesmo que envelheci… O corpo, o rosto, tudo mudou", diz.

A menopausa era algo que Devi esperava viver apenas muito mais tarde, e não como consequência de uma cirurgia, pelo que tudo aconteceu de forma inesperada, admite.

Mas trata-se de uma mudança que, em algum momento da vida, afeta metade da população mundial. Os sintomas que Devi descreve fazem parte dos efeitos mais variados e menos conhecidos associados à menopausa.

Sintomas como afrontamentos e alterações de humor são bem conhecidos e, muitas vezes, estereotipados, mas especialistas de todo o mundo salientam que as mulheres enfrentam uma enorme variedade de alterações no seu corpo durante a menopausa – e a falta de informação faz com que muitas comecem a sentir sintomas sem perceber a sua causa.

Eis o que importa saber.

O que é a menopausa - e porque se sabe tão pouco sobre ela?

A menopausa ocorre quando a mulher deixa de menstruar durante mais de 12 meses consecutivos, marcando o fim da fase reprodutiva.

A maioria das mulheres entra na menopausa entre os 45 e os 55 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, um estudo realizado nos Estados Unidos e na Coreia do Sul indica que até 9,4% das mulheres - cerca de uma em cada dez - passam por esta fase entre os 40 e os 44 anos, enquanto até 8,6% entram na menopausa antes dos 40. Em casos muito raros, pode acontecer na casa dos 20 anos. Também pode surgir após uma histerectomia total - cirurgia que remove o útero e os ovários - ou por outras razões médicas.

No caso da menopausa natural, a primeira fase é a perimenopausa. É neste período que os ovários começam a produzir gradualmente menos hormonas, o que afeta os ciclos menstruais. Entre os sintomas estão menstruações irregulares, afrontamentos, perturbações do sono e alterações de humor.

A perimenopausa pode começar ainda na casa dos 30 anos e durar entre quatro e oito anos. No entanto, muitas mulheres não conseguem identificar quando tiveram os primeiros sinais, explica Gayathri Delanerolle, investigadora do Hampshire and Isle of Wight Healthcare NHS Foundation Trust, no Reino Unido. Em entrevistas realizadas no âmbito da investigação, algumas recordam o momento exato em que tiveram o primeiro afrontamento ou começaram a dormir pior. Outras não fazem ideia de quando tudo começou, diz à CNN. "A menopausa nem sequer estava no radar."

Estudos mostram que a maioria das mulheres sabe pouco sobre a menopausa. Um deles, que inquiriu mais de 800 mulheres pós-menopausa - a maioria no Reino Unido - concluiu que mais de 90% nunca tinham aprendido sobre este tema na escola e que quase metade se sentia completamente desinformada. As participantes disseram também que os próprios médicos demonstravam falta de conhecimento suficiente, o que as fazia sentir-se "desvalorizadas e sem apoio" após as consultas. Outros estudos chegaram a conclusões semelhantes.

Segundo Joyce Harper, professora do Instituto de Saúde da Mulher da University College London e coautora do estudo, estes resultados mostram que "as mulheres têm falta de educação sobre esta fase fundamental da vida... Se a isto se juntar a falta de formação de alguns profissionais de saúde, as mulheres podem ficar sem diagnóstico e sem apoio".

A menopausa pode surgir de várias formas e em idades diferentes

A menopausa é considerada "prematura" quando acontece antes dos 40 anos e "precoce" quando surge antes dos 45.

Investigações indicam que, em países de baixo e médio rendimento, as taxas de menopausa precoce e prematura têm aumentado e que a idade média de início está a diminuir.

"Se entrar na menopausa cedo, terá de lidar com isso durante mais tempo", explica Nikita Rajput, do Centro de Epidemiologia do Cancro do Tata Memorial Centre, em Navi Mumbai, na Índia. A investigadora diz à CNN que o seu estudo mostra que as mulheres de zonas rurais da Índia enfrentam "acesso limitado a cuidados de saúde, baixo nível de sensibilização e taxas mais elevadas de menopausa prematura".

Outras formas de menopausa incluem a menopausa cirúrgica, que ocorre após uma histerectomia - cirurgia em que são removidos o útero e os ovários -, e a menopausa médica, que pode surgir quando tratamentos como quimioterapia ou radioterapia afetam o funcionamento dos ovários e provocam o início da menopausa.

Na Índia, especialistas em saúde manifestaram preocupação com as elevadas taxas de menopausa prematura e precoce no país, sendo que estudos apontam para uma ligação com as histerectomias. Isto verifica-se, em particular, entre as jovens provenientes de meios de baixos rendimentos, com menor nível de escolaridade e de zonas rurais. Rajput explica à CNN que, quando estas mulheres enfrentam problemas ginecológicos como hemorragias abundantes ou miomas, muitas acabam por sentir que não têm alternativa senão recorrer à histerectomia. Em alguns casos, essa decisão surge sob pressão do marido, da família do marido ou até de médicos que apresentam a cirurgia como a primeira opção de tratamento. Estudos indicam ainda que muitas mulheres não têm plena noção da dimensão dos procedimentos a que foram submetidas.

Sintomas da menopausa (Yukari Schrickel/CNN)
Sintomas da menopausa (Yukari Schrickel/CNN)

Os sintomas da menopausa variam muito de mulher para mulher

Os sintomas mais comuns da menopausa são afrontamentos e suores noturnos, presentes em cerca de 80% dos casos, segundo a Sociedade de Menopausa, nos Estados Unidos. Outros sintomas frequentes incluem secura vaginal, necessidade frequente ou urgente de urinar, insónias e alterações de humor, incluindo depressão e irritabilidade.

"Muitas mulheres também referiram dores de cabeça, enxaquecas... e dificuldade em adormecer ou manter o sono", diz Delanerolle. Muitas sofrem ainda de incontinência urinária, o que acaba por afetar outros aspetos da sua vida, incluindo o trabalho e a prática de exercício físico.

Além disso, as mulheres podem apresentar sintomas como palpitações cardíacas, dores nas articulações e nos músculos, alterações no desejo sexual, dificuldades de concentração, aumento de peso e queda de cabelo, de acordo com a Mayo Clinic.

Outros sintomas menos comuns incluem olhos secos, e algumas mulheres relatam também alterações na visão. Podem ainda notar que fazem nódoas negras com mais facilidade ou sofrer de boca seca ou acne.

Delanerolle diz que encontrou também outros sintomas no âmbito da sua investigação, incluindo comichão no couro cabeludo e na pele. Algumas mulheres na Índia e no Reino Unido relataram até um aumento da libido, acrescenta.

"A menopausa pode ser uma experiência muito diferente de mulher para mulher", explica. Como muitos sintomas também surgem noutras doenças, "por vezes não é possível afirmar com certeza que estão relacionados com a menopausa".

Delanerolle defende que são necessários mais estudos aprofundados, campanhas de sensibilização pública - incluindo nas escolas - e formação baseada em evidência científica para os profissionais de saúde.

Porque é perigoso saber tão pouco sobre menopausa?

Em média, a menopausa e os seus sintomas duram cerca de sete anos, segundo a Cleveland Clinic, pelo que é importante que as mulheres consigam reconhecer e compreender o que está a acontecer com o seu corpo.

Após a menopausa, as mulheres passam também a ter um risco mais elevado de desenvolver doenças cardiovasculares, o que torna particularmente importante manter atividade física regular e uma alimentação equilibrada. Isto acontece porque a menopausa provoca uma queda significativa nos níveis de estrogénio - hormona que ajuda a regular o colesterol e a gordura no organismo - aumentando o risco de doença coronária, enfarte ou AVC, segundo a British Heart Foundation. As doenças cardíacas são, aliás, a principal causa de morte entre mulheres em todo o mundo.

Estudos indicam ainda maior risco de doenças respiratórias, como a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), especialmente em casos de menopausa prematura.

Om Kurmi, professor associado de epidemiologia na Coventry University, no Reino Unido, afirma que maior consciencialização permite às mulheres obter apoio adequado e fazer mudanças no estilo de vida, para mitigar os riscos para a saúde que a menopausa acarreta.

Por exemplo, mudanças no estilo de vida, como deixar de fumar, reduzir o consumo de álcool, praticar mais exercício, diminuir os níveis de stress e perder peso, podem ajudar a aliviar os sintomas e reduzir o risco acrescido de doenças como a osteoporose e as doenças cardíacas. Outra área é a saúde mental, que Kurmi diz "não ser discutida de todo". Embora sintomas da menopausa como irritabilidade, oscilações de humor e insónias estejam bem documentados, estudos recentes mostram também um maior risco de depressão e ansiedade.

As mulheres "precisam de reconhecer que, ao entrar na menopausa, a probabilidade de desenvolver certos problemas de saúde é maior do que entre aquelas que ainda não passaram por esta fase", diz Kurmi à CNN. "Quando se compreendem os sintomas… é possível geri-los de forma eficaz."

Tipos de menopausa e riscos (Yukari Schrickel/CNN)
Tipos de menopausa e os seus riscos (Yukari Schrickel/CNN)

Como podem as mulheres gerir os sintomas da menopausa? E existem diferenças entre países?

O tratamento mais prescrito para a menopausa é a terapia hormonal, também chamada terapia de substituição hormonal (HRT). Este tratamento repõe as hormonas que diminuem no organismo. Um deles é a terapia com estrogénio - normalmente indicada para mulheres que foram submetidas a uma histerectomia - e o outro combina as hormonas estrogénio e progesterona. A terapia hormonal pode ajudar a aliviar os sintomas e a reduzir alguns dos riscos associados à menopausa. O tratamento dura, em geral, entre dois e cinco anos, podendo por vezes prolongar-se mais tempo. A interrupção da terapia pode levar ao reaparecimento dos sintomas da menopausa.

Estas terapias são mais acessíveis em países ricos devido ao custo, ao acesso a cuidados de saúde e ao conhecimento dos profissionais para prescrever o tratamento. Mesmo nesses países existem desigualdades: mulheres com maior rendimento tendem a ter mais acesso.

A terapia hormonal pode ter alguns efeitos secundários como hemorragias vaginais irregulares e sensibilidade mamária, além de um risco acrescido de coágulos sanguíneos e doença da vesícula biliar. Existe também um ligeiro aumento do risco de cancro da mama, do ovário e do endométrio (revestimento do útero). No entanto, segundo a Cancer Research UK, esse risco continua a ser reduzido e depende de vários fatores, como o tipo de terapia, a duração do tratamento, a idade da mulher e o seu estado geral de saúde e estilo de vida. Os especialistas sublinham que as mulheres devem ponderar todas as opções antes de decidir - algo que só é possível quando têm acesso à informação e às diferentes alternativas de tratamento.

Existem também medicamentos que podem ser prescritos para tratar sintomas específicos, como antidepressivos para tratar os afrontamentos. Muitas mulheres preferem optar por abordagens consideradas mais naturais, recorrendo a suplementos à base de plantas que alegam ajudar a aliviar sintomas como os afrontamentos e as perturbações do sono. No entanto, as autoridades de saúde geralmente não recomendam estes produtos, devido à falta de provas suficientes sobre a sua eficácia e segurança. Outras opções incluem suplementos vitamínicos e mudanças no estilo de vida, como deixar de fumar, perder peso e praticar exercício físico regularmente - medidas que podem ser mais acessíveis para mulheres em contextos de menor rendimento.

Uma análise de estudos realizados nos Estados Unidos e em cinco países europeus concluiu que a maioria das mulheres com sintomas moderados a graves optou por fazer alterações no estilo de vida para os controlar. O tratamento mais prescrito foi a terapia hormonal, seguido de antidepressivos.

Nos Estados Unidos, uma decisão recente de retirar o chamado "black box warning" - o aviso de segurança mais rigoroso aplicado a medicamentos - dos produtos de terapia hormonal de substituição (HRT) poderá levar mais mulheres a optar por este tratamento. A Food and Drug Administration (FDA), a entidade reguladora do medicamento nos EUA, decidiu remover este aviso, que alertava para um possível aumento do risco de doenças como cancro da mama e demência. Segundo o comissário da FDA, Marty Makary, a medida pretende "travar a máquina do medo que tem afastado as mulheres deste tratamento que pode mudar e até salvar vidas."

Porque a menopausa exige mais atenção de todos - incluindo decisores políticos

"A população está a crescer, a esperança média de vida também está a aumentar e isso significa que as mulheres, que representam cerca de 50% da população mundial, também estão a aumentar", diz Kurmi. E, com as mulheres a viverem mais tempo do que os homens, o relatório World Population Prospects 2024, das Nações Unidas, sublinha a necessidade de dar prioridade a "necessidades de saúde específicas de género” e de reforçar os “sistemas de apoio social para reduzir a potencial sobrecarga associada aos cuidados".

Com cada vez mais mulheres acima dos 40 e 50 anos, Kurmi, que integra uma equipa de investigadores que estuda a necessidade urgente de dar mais atenção à menopausa, diz à CNN que é expectável um aumento dos problemas de saúde associados a esta fase da vida.

Em muitos países de baixo e médio rendimento, como a Índia, os serviços de saúde continuam a concentrar a maior parte do orçamento destinado às mulheres na saúde sexual e reprodutiva, devido a problemas como as elevadas taxas de mortalidade materna, que o governo indiano considera uma "questão crítica de saúde pública". No entanto, um número crescente de mulheres mais velhas também precisa de cuidados, e as políticas públicas ainda não respondem às suas necessidades. "O governo vê a mulher apenas como alguém em idade reprodutiva, não como alguém que já passou por essa fase. Deixa de ser vista como mulher, ou passa a ser definida apenas pelo útero", diz Rajput. Segundo a investigadora, é necessário criar políticas e programas de saúde específicos para a fase pós-reprodutiva.

O estigma persistente em torno da menopausa também precisa de ser combatido.

"A forma como a menopausa é vista precisa de mudar. E uma grande parte dessa mudança passa pela informação e pela sensibilização", diz Delanerolle, do NHS no Reino Unido. A investigadora acredita que ensinar raparigas adolescentes sobre a menopausa nas escolas pode fazer a diferença, porque "à medida que crescem… percebem que a menopausa não é o fim da linha. É apenas mais um capítulo. Temos um livro e a menopausa é mais um capítulo dessa história."

Créditos

Editora responsável: Meera Senthilingam

Texto: Sashikala VP

Edição de texto: Hannah Strange

Edição visual: Carlotta Dotto e Elisa Solinas

Ilustração: Yukari Schrickel

 

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