Histórias de quando o futebol parou a guerra

25 fev, 22:55
Futebol e guerra

Numa semana em que o mundo deu de caras com o lado mais negro da humanidade, o Maisfutebol recorda quatro instantes em que o futebol conseguiu as maiores vitórias.

O mundo acordou quinta-feira em pânico. Durante a noite, uma série de bombardeamentos em várias cidades ucranianas reintroduziu a guerra na Europa e recuperou velhos fantasmas.

O pós-guerra, a paz e o sossego que se seguiu à queda do Muro de Berlim, e ao fim da Guerra Fria, ficaram enterrados nas crateras que as bombas iam abrindo em território ucraniano.

Ora numa altura em que o mundo volta a olhar para a expressão mais negra da humanidade, o Maisfutebol recorda instantes em que o futebol conseguiu enormes vitórias: pequenos instantes em que o futebol conseguiu parar a guerra. Porque também os houve.

A I Guerra Mundial parou no dia de natal para um Inglaterra-Alemanha

É um dos momentos mais recordados da I Guerra Mundial, já deu origem a um filme e a UEFA até inaugurou um monumento no local onde o jogo se realizou. No dia 25 de dezembro de 1914, dia natal no mundo, os soldados ingleses e alemães que combatiam nas trincheiras da Flandres pousaram as armas, trocaram comida, beberam vinho e realizaram um jogo de futebol. Os alemães foram mais fortes e venceram por 3-2, mas isso nem é o mais importante: importante mesmo foi aquele momento de confraternização, que interrompeu a guerra. Um dia sem tiros, sem mortos e com cinco golos. Há quem duvide que este jogo tenha mesmo existido, mas no Museu da I Guerra Mundial há supostas cartas de soldados ingleses a falar da partida, que terá começado por iniciativa deles, e o futebol inglês ainda prestou homenagem ao jogo no Boxing Day de 2014.

Foto do Museu da I Guerra Mundial

O dia em que Drogba de joelhos acabou com a guerra civil

A 8 outubro de 2005, no pequeno Al-Merrikh Stadium, no Sudão, aconteceu algo extraordinário. A Costa do Marfim, da geração de ouro de Drogba, Yaya Touré, Kolo Touré, Eboué e Zokora, precisava de ganhar no Sudão para se qualificar pela primeira vez para um Mundial, o que conseguiu sem problemas: triunfo por 3-1. O problema é que isso não chegava, era necessário que os Camarões não vencessem casa o Egito. No fim dos noventa minutos, o jogo estava empatado, e nos descontos os Camarões beneficiaram de um penálti. Parecia o fim do sonho para um país massacrado por uma guerra civil que se arrastava há três anos. Pierre Wome, no entanto, falhou a grande penalidade, os Camarões choraram e a Costa do Marfim pulou de alegria. Foi então, quando uma televisão filmava a festa dos jogadores no balneário, que Drogba pegou no microfone. «Homens e mulheres da Costa do Marfim, do norte e do sul, do este e do oeste, hoje mostrámos que os costa-marfinenses podem coabitar e ter só um objetivo. Hoje pedimos-vos, de joelhos: perdoem. Perdoem. Pousem as armas e organizem eleições.» Naquela noite as pessoas saíram à rua a celebrar e algumas semanas depois começaram as negociações que conduziram à paz.

Um cessar-fogo de dois dias para ver o Rei Pelé

Em 1969 a Nigéria estava em guerra há dois anos: de um lado as forças do governo, do outro os independentistas do grupo Biafra. Foi nesta Nigéria que o Santos agendou o último jogo de uma digressão por África, frente a uma seleção regional, depois do governador militar Samuel Ogbemudia ter prometido um cessar-fogo para permitir a toda a gente ver Pelé ao vivo. O Santos chegou à cidade de Benin a 28 de janeiro, empatou (2-2) com a seleção nigeriana, perante 28 mil pessoas, e levantou voo. Mais uma vez, há quem duvide da veracidade do cessar-fogo, o que não é o caso do site do Santos, que fala até da abertura de uma ponte entre Benin e Biafra para que as pessoas dos dois lados da guerra pudessem ver o jogo no estádio. O próprio Pelé e alguns colegas atestam também a veracidade da história. Gilmar e Coutinho, por exemplo, garantiram que quando ainda estavam a levantar voo de regresso já ouviam os tiros da guerra, que recomeçou logo a seguir e matou dois milhões de pessoas. O antigo jogador Lima também garante que é verdade. «Podíamos facilmente ter voltado para trás e dizer: 'Há guerra em todo o lado, porque haveremos de entrar nessa confusão?' Mas nós não. Nós queríamos fazê-lo. 'Não somos obrigados a jogar, mas queremos e vamos fazer isso», disse numa entrevista.

O dia em que os melhores do mundo espalharam a paz no Haiti

No dia 18 de agosto de 2004, o campeão do mundo Brasil aterrou no aeroporto de Port-au-Prince para disputar um jogo que ficou na história do próprio futebol. Ficou conhecido como «O Jogo da Paz». Realizou-se no Estádio Sylvio Cator, na capital do Haiti, e trouxe ao país mais pobre da América, que na altura estava em guerra civil, o Brasil. A seleção que na altura era campeã do mundo em título vivia o expoente máximo de popularidade e apresentou-se com várias das grandes estrelas: Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Adriano, enfim. De fora ficaram Rivaldo, mais Dida, Cafu e Kaká (que não foram libertados pelo Milan), Lúcio e Zé Roberto (que não foram autorizados a viajar pelo Bayern). O objetivo do jogo era apenas um: apelar à paz no Haiti. Para isso os bilhetes para entrar no estádio eram dados em troca de uma arma. O Brasil chegou duas horas antes do jogo, fez a viagem direta para o estádio em blindados de guerra e o que se viu foi impressionante: milhares e milhares de pessoas em euforia completa ao longo dos cinco quilómetros do trajeto. Um autêntico delírio. O Brasil venceu a seleção haitiana por 6-0, os golos foram festejados até pelos haitianos e durante umas horas não houve guerra no país.

Brasil

Mais Brasil

Patrocinados