Estamos a construir menos memórias porque fotografamos tudo e mais alguma coisa?

13 ago, 12:46
Fotografar comida (Pexels)

A resposta simples é sim - e as consequências vão para além daquilo de que cada pessoa se consegue lembrar sobre um determinado momento

Um almoço no restaurante da moda, um café cremoso, o mar assim que se chega à praia, a vista de uma esplanada, um monumento numa cidade nova. Nos dias que correm, os telemóveis andam sempre em riste, prontos para fotografar tudo e mais alguma coisa, fotografias que são partilhadas nas redes sociais de forma tão rápida e espontânea que quase nem há tempo para formar uma memória do momento. Parece uma hipótese exagerada, mas o hábito de se fotografar tudo e mais alguma coisa poderá está a enfraquecer as nossas memórias?

“É uma pergunta pertinente, mais filosófica do que técnica”, começa por nos dizer Filipe Palavra, neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia. “Dispor de uma tecnologia como os telemóveis para reter a imagem que queremos reter, diria que, em certa medida, alivia a nossa memória da necessidade de ter de reter informação, mas transforma isso num mecanismo mais preguiçoso do que o habitual. Isso tem as suas desvantagens. Num determinado contexto, se não tivermos as coisas na memória é uma chatice”.

Foi o que aconteceu numa experiência feita em 2018 e publicada na revista Journal of Experimental Social Psychology. Neste estudo, os participantes tinham apenas uma tarefa: visitar a Igreja Memorial de Stanford, nos Estados Unidos. Um dos grupos ia munido de um iPod com câmara fotográfica e foi desafio a fotografar para depois publicar nas redes sociais, já o outro grupo não levava qualquer tipo de dispositivo, nem telemóvel, nem máquina. O tempo de visita e o circuito foi igual para ambos os grupos, mas, uma semana depois, e quando todos os participantes receberam um questionário surpresa em casa, aqueles que tinham fotografado tiveram menos respostas corretas do que aqueles que não fotografaram. Ou seja, formaram menos memórias.

“A necessidade de eternizar [um momento] pela fotografia, este imediatismo da memória fotográfica, retira a este processo de construção de memórias a robustez e o gosto pelo detalhe”, explica Filipe Palavra. Além de que, continua, faz com que o cérebro crie menos memórias desse momento, uma vez que o processo de construção de memórias vai além da imagem e implica, por exemplo, o cheiro, as conversas e as próprias circunstâncias do momento - que dificilmente ficam numa fotografia.

Mas há outro aspeto a ter em conta no impacto que a tendência para fotografar “tudo e um par de botas” tem na memória, adianta o neurologista: a atenção, ou a falta dela que esta ‘tendência digital’ causa. A atenção, explica Filipe Palavra, é um aspeto determinante para se criar uma memória, mas nem sempre está presente quando esta é eternizada numa fotografia. “As pessoas estando habituadas a recorrer a auxiliares de memória, perdem capacidade de atenção”, alerta, frisando que aqui inclui também a cada vez mais comum tendência para usar o telemóvel quase como uma extensão do corpo humano, seja para anotar uma ideia ou para colocar um lembrete para algo.

Em 2015, os investigadores Alixandra Barasch, Kristin Diehl e Gal Zauberman levaram a cabo uma análise sobre o impacto das fotografias e das redes sociais na memória e concluíram que a procura pela fotografia perfeita - para publicar no Instagram, por exemplo - faz com que as pessoas não prestem atenção aos cheiros, ao que ouvem e até ao que as rodeia. E a falta de atenção leva a uma menor capacidade de produzir uma memória, pelo menos, uma memória concreta, detalhada.

“O facto de as pessoas não estarem habituadas a reter informação faz com que tudo se torne numa coisa demasiado superficial e esta é uma situação que me preocupa. Se as pessoas não estiverem capazes de gerar o próximo conhecimento, se estiverem sempre habituadas a ver e ler o que os outros escrevem e fotografam, são mais suscetíveis a fake news”.

Em 2011, a revista Science publicou um estudo que vem mostrar isto mesmo. Intitulada de ‘Efeito Google’, a pesquisa descobriu que quando as pessoas são informadas de que um computador irá guardar uma informação, é menos provável que elas se lembrem dessa mesma informação por si mesmas.

O médico destaca que este é um efeito que se sente já no “imediato” e que pode agravar-se a “curto e médio prazo". “Uma das coisas que faço na minha consulta para avaliar a acuidade visual é pôr os jovens a ler em letras muito pequenas um texto que tem os primeiro versos da primeira estrofe de Os Lusíadas, e nem 10% dos adolescentes reconhecem o texto que estão a ler porque não está na memória”, conta-nos, destacando que a falta de atenção e o hábito de recorrer à internet estã relacionados com esta situação.

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