A relação com Trump, o filho Barron e o orçamento de milhões: o que sabemos sobre o filme "Melania"?

CNN , Betsy Klein
31 jan, 15:00
Melania Trump (CNN)

Estreou esta sexta-feira em todo o mundo o documentário que acompanha o percurso daquela que voltou a ser a primeira-dama dos Estados Unidos

Durante décadas, a regra não escrita da Ala Leste era que a vida privada de uma primeira-dama dos EUA era um presente para os Arquivos Nacionais, eventualmente trocado por um livro de memórias pós-presidência e talvez uma ala da biblioteca.

Melania Trump, porém, está a provar que um vislumbre dos bastidores da sua vida não é apenas um registo histórico, mas um negócio multimilionário.

Com o documentário "Melania", que retrata os 20 dias que antecederam o seu regresso à Casa Branca, a primeira-dama deixou de lado a privacidade que tanto ambicionava para se tornar, em vez disso, produtora executiva remunerada da sua própria narrativa - uma que transforma a transição presidencial num acontecimento cinematográfico sem precedentes.

“Sou uma pessoa muito reservada e muito seletiva - o que faço, o que não faço, quando falo, quando não falo. E essa é a minha escolha, e ninguém manda em mim”, afirmou Melania no programa “The Five”, da Fox News, na quarta-feira, sublinhando o cálculo que está a fazer para contar a sua história. 

“Melania” estreou nos EUA na quinta-feira à noite para um grupo restrito de membros do gabinete de Donald Trump e celebridades de menor expressão, incluindo a família Chrisley, famosa pelo seu reality show, o rapper Waka Flocka Flame e o criminoso financeiro “Lobo de Wall Street”, Jordan Belfort. O filme terá exibições simultâneas, apenas para convidados, em 21 cidades.

A carreira de primeira-dama, ao que parece, é bastante lucrativa.

Melania e a sua equipa, liderada pelo agente e conselheiro sénior Marc Beckman, fecharam um acordo de 40 milhões de dólares com a Amazon MGM Studios, além de um orçamento de marketing milionário de 35 milhões de dólares, segundo uma fonte ligada ao assunto.

O filme foi lançado depois nos cinemas de todo o mundo, num teste para verificar se a curiosidade pública sobre a primeira-dama conseguirá levar os seus fãs – e até aqueles que não são seus fãs – às salas de cinema numa altura de quebra nas vendas de bilhetes.

O que podemos esperar do filme

O conteúdo do filme de uma hora e 44 minutos tem sido mantido em segredo. Os jornalistas não receberam cópias antecipadas, embora Maria Bartiromo, da Fox News, e Greta Van Susteren, da Newsmax, tenham marcado presença na passadeira vermelha do Kennedy Center, cuja fachada tem agora também o nome de Donald Trump.

A sinopse do documentário promete “imagens exclusivas que captam reuniões cruciais, conversas privadas e ambientes nunca antes vistos”.

O filme foi produzido inteiramente com o controlo editorial de Melania Trump. A primeira-dama esteve profundamente envolvida na produção, pós-produção e aspetos promocionais do filme, adiantou Marc Beckman em entrevista à One America News.

A longa-metragem marca o regresso do realizador Brett Ratner, naquele que é o seu primeiro grande projeto desde 2017, quando foi acusado de má conduta sexual por várias mulheres. Ratner negou as acusações.

Ao escolher um realizador para o projeto, Trump disse à Fox News que o mais importante era que ele conseguisse materializar as suas ideias. “Que ele concretize as minhas ideias, o que tenho em mente, e o filme cinematográfico que quero alcançar. Por isso, ele era o melhor, e foi ótimo trabalhar com ele".

O trailer do filme gerou mais perguntas do que respostas sobre a dinâmica entre o presidente e a primeira-dama. Mas, embora se espere que o filme aborde a sua relação, não espere que a primeira-dama revele grandes segredos – o presidente classificou-o como "IMPERDÍVEL" no Truth Social, juntamente com uma hiperligação para a compra de bilhetes.

O elenco do filme desvenda outras temáticas gerais que podem estar incluídas: o interesse da primeira-dama pela moda parece ser um elemento-chave, com os seus estilistas de longa data, Hervé Pierre e Adam Lippes, que desenharam o seu casaco azul-marinho para o dia da tomada de posse, a receberem destaque.

A família também assume um papel importante, com o filho Barron Trump, o pai Viktor Knavs e o presidente a surgirem nos créditos (ao contrário dos seus enteados).

A aparição de outras primeiras-damas - Brigitte Macron, de França, e a Rainha Rania, da Jordânia - sugere que a diplomacia também pode ser um tema central. É possível que a fé católica de Melania Trump desempenhe um papel, com a participação do Monsenhor Joseph LaMorte e do Padre Enrique Salvo.

Membros da sua pequena equipa também vão aparecer: a chefe de gabinete Hayley Harrison, a diretora do gabinete de visitantes da Casa Branca, Alexandra Veletsis, e o assessor de longa data Justin Caporale.

A fotógrafa Régine Mahaux, o cabeleireiro Mordechai Alvow, a maquilhadora Nicole Bryl e a designer de interiores Tham Kannalikham também aparecem no filme. Tham Kannalikham ajudou Trump a decorar os aposentos privados da Casa Branca durante os seus dois mandatos e auxiliou em importantes projetos de restauro nos espaços públicos da residência.

“No filme, falo sobre a minha paixão pela preservação e restauro”, adianta Tham Kannalikham numa publicação nas redes sociais.

Um teste para a Amazon

Embora o filme represente um enorme cheque para a primeira-dama, não é claro se trará retorno para a produtora, que ainda não anunciou publicamente uma data de estreia. A Prime Video já se comprometeu a transmitir uma série documental complementar em três partes com cenas adicionais, de acordo com um porta-voz da Amazon MGM Studios.

Os primeiros indícios apontam para que o enorme orçamento do documentário não seja provavelmente recuperado no fim de semana de estreia, que deverá arrecadar entre 2 e 5 milhões de dólares, segundo uma estimativa da Boxoffice Pro, que refere que o filme “teve um aumento significativo de reservas nos últimos dez dias” e estrear-se-á em aproximadamente 1.500 salas de cinema nos Estados Unidos.

A decisão da Amazon de se associar a Trump também pode ser um cálculo político – marcando mais um dos muitos esforços da gigante tecnológica para se aproximar da Casa Branca.

“Licenciámos o filme por um único motivo: porque acreditamos que os clientes o vão adorar”, afirmou um porta-voz da Amazon MGM Studios.

A empresa está a apostar que existe um público interessado na misteriosa primeira-dama.

“Há sempre uma curiosidade inerente sobre Melania Trump que vai além da simples admiração e simpatia da base política de Trump por ela. Será que isso vai atrair público aos cinemas? Quem sabe?”, questionou Kate Bennett, ex-jornalista da CNN que acompanhou a família Trump e autora de “Free, Melania”.

“Pode ser que sim, mas é um investimento muito pesado para um estúdio da Amazon, apostando numa mulher cuja imagem pública é muito, muito rara, e que não é tão omnipresente como a de Michelle Obama, Jill Biden ou Laura Bush”.

A digressão promocional

A primeira-dama norte-americana tem mantido um perfil extremamente discreto neste mandato em comparação com o primeiro, optando por passar a maior parte do tempo em Nova Iorque ou Palm Beach, na Florida. Melania promoveu diversas iniciativas, incluindo a proteção de crianças em lares de acolhimento, a segurança da inteligência artificial e a reunificação de crianças ucranianas alegadamente raptadas pela Rússia. Mas, segundo fontes próximas, a sua preferência é não se envolver publicamente no regresso do marido à vida pública.

Esta situação alterou-se no período que antecedeu o lançamento do filme, com a primeira-dama a intensificar a sua agenda pública e a dar uma entrevista televisiva pela primeira vez em mais de um ano. Trump vai aparecer na Fox News três vezes esta semana: no programa “Fox & Friends” na terça-feira, no “The Five” na quarta-feira e numa entrevista gravada para o programa “Mornings with Maria”, da Fox Business.

O lançamento do filme ocorre num momento delicado para a Casa Branca. O casal presidencial realizou uma exibição privada no Salão Leste no sábado, mesmo com a crescente indignação em relação à forma como o governo lidou com o assassínio de Alex Pretti por agentes federais em Minneapolis naquela manhã. Os convidados, incluindo o CEO da Apple, Tim Cook, e Andy Jassy, ​​​​da Amazon, comeram pipocas em caixas personalizadas com o nome “Melania” e ouviram uma apresentação da “Valsa Melania” no Grand Foyer, enquanto os norte-americanos protestavam contra o assassínio do enfermeira de cuidados intensivos, de 37 anos.

“Sou contra a violência. Por isso, se – por favor, se protestarmos, falamo-lo pacificamente, precisamos de unir-nos nestes tempos”, afirmou Melania na Fox News, quando questionada sobre o assassínio em Minneapolis, tecendo um raro comentário sobre os acontecimentos recentes.

Na quarta-feira de manhã, Melania apareceu na Bolsa de Nova Iorque, a tocar o sino em frente à placa com o nome “Melania”, ao lado de dois executivos da NYSE.

A campanha promocional estendeu-se a anúncios televisivos (incluindo durante os jogos dos playoffs da NFL, que têm uma audiência elevada), outdoors, estações de metro, autocarros por todo o país e até na Sphere, em Las Vegas.

Segundo o cineasta documentarista Stefano Da Frè, este grande orçamento de marketing deve-se provavelmente à crença de que o filme será um sucesso de bilheteira e de streaming. 

Stefano Da Frè, que não esteve envolvido no projeto, realizou vários filmes disponíveis em plataformas de streaming como a Amazon. Numa entrevista à CNN, Stefano garante que a Amazon “não chegou a esse valor de forma aleatória”. “Eles [na Amazon] acreditam, com base nas suas métricas, que o filme vale essa quantia”, sugere.

Será que quebrar o precedente é "assim tão mau"?

É praticamente inédito que uma primeira-dama em funções lucre ativamente com a sua posição. Muitas das antecessoras de Melania escreveram livros ou deram palestras – mas sempre depois de deixarem o cargo.

Michelle Obama e Hillary Clinton, por exemplo, esperaram até depois de saírem da Casa Branca para publicar as suas memórias, sendo "A Minha História" (Becoming), de Obama, o livro de memórias mais vendido de sempre.

Jill Biden manteve o seu emprego fixo enquanto foi primeira-dama. Em 2023, Jill ganhou 85.985 dólares ao dar aulas de inglês numa faculdade comunitária local, de acordo com a sua declaração de impostos.

Eleanor Roosevelt, que escrevia colunas de aconselhamento para jornais, é talvez a comparação mais próxima. Em 1937, Eleanor vendeu os direitos da sua autobiografia à revista Ladies’ Home Journal por 75 mil dólares (cerca de 62 mil euros) – o equivalente a pouco menos de 2 milhões de dólares atualmente (o correspondente a 1.672.040 euros). Na altura, os críticos acusaram-na de usar os seus trabalhos nos media para lucrar financeiramente com o seu papel de primeira-dama, mas Eleanor também doou grande parte dos seus rendimentos.

A imagem do filme de Trump parece diferente, assinala Kate Bennett. "Estamos a ver alguém com talvez uma das maiores plataformas do mundo a optar por usá-la principalmente para fins promocionais."

"É preciso questionar: será que isto é assim tão mau? O papel de primeira-dama é tão estranho e antiquado. As mulheres colocam as suas vidas e os seus rendimentos em espera só porque os seus maridos foram eleitos. E será que, em 2026, não é altura de repensar este papel?", questiona Kate.

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