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Presidente da JB TOMORROW GROUP SGPS || Autor do livro MEDO – Como transformar as ameaças em forças

Do que têm medo os portugueses?

20 mai, 11:20
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Um país que já conquistou oceanos… mas ainda hesita em conquistar a si próprio

Portugal é um país estranho.

Um país que ensinou o mundo a navegar quando o mundo ainda tinha medo do mar. Um país que atravessou oceanos desconhecidos em barcos frágeis, com mapas incompletos e um grau de incerteza que hoje nenhum gestor aceitaria numa folha de Excel. Um povo que enfrentou tempestades, guerras, crises económicas, ditaduras e sucessivas reinvenções.

Um país que, durante séculos, viveu da coragem.

E, no entanto, quando olhamos para dentro da sociedade portuguesa contemporânea, encontramos um paradoxo curioso: Portugal é hoje um país profundamente marcado pelo medo.

Não um medo dramático, visível, explosivo. Não o medo que se vê nas ruas ou que se declara em voz alta. É um medo mais subtil, mais cultural, mais silencioso. Um medo que não se grita, vive-se.

Sente-se nas decisões adiadas. Nos sonhos que nunca chegam a ser tentados. Nas ideias que ficam guardadas nas gavetas. Nas conversas onde alguém diz “um dia gostava de…” e imediatamente a seguir acrescenta “mas isso não é para mim”.

Em Portugal o medo raramente aparece em forma de pânico. Aparece em forma de prudência.

Em frases aparentemente sensatas que repetimos quase sem pensar: “Não vale a pena arriscar.”, “Mais vale estar quieto.”, “Assim já está bem.”, “Quem sou eu para tentar?”.

E pouco a pouco essas frases deixam de ser apenas opiniões individuais. Tornam-se mentalidade coletiva. Talvez por isso um dos medos mais enraizados na sociedade portuguesa seja o medo de falhar. Falhar em Portugal continua a ter um peso social enorme. Não é apenas um erro de percurso, muitas vezes é visto como sinal de incapacidade, de imprudência ou até de irresponsabilidade.

Enquanto em muitos contextos empresariais internacionais o fracasso é considerado parte natural do processo de aprendizagem, em Portugal ele ainda carrega frequentemente uma marca de vergonha.

Os dados confirmam esta perceção cultural. Estudos internacionais sobre empreendedorismo mostram que Portugal apresenta níveis relativamente elevados de medo do fracasso entre potenciais empreendedores. Muitas pessoas dizem querer criar um negócio, mas uma percentagem significativa admite que o medo de falhar é o principal motivo para nunca avançar. E isso tem consequências profundas. Profissionais que permanecem anos em empregos que já não os realizam. Pessoas que mantêm carreiras seguras, mas emocionalmente estagnadas. Empreendedores potenciais que nunca chegam a transformar ideias em projetos.

O medo de falhar cria vidas seguras. Mas também cria vidas pequenas.

Existe ainda outro medo profundamente enraizado na cultura portuguesa: o medo do julgamento.

Portugal é um país de proximidade. As comunidades são pequenas, as relações cruzam-se, as histórias circulam rapidamente. Isso cria laços fortes, mas também gera uma pressão social invisível.

Muitas decisões importantes da vida são tomadas com uma pergunta silenciosa na cabeça: “O que é que os outros vão pensar?”

Esse pensamento acompanha escolhas decisivas: mudar de carreira, terminar uma relação, abrir um negócio, voltar a estudar aos quarenta anos, assumir um sonho fora da norma.

O problema não é apenas o julgamento externo. O problema é quando esse julgamento é antecipado antes mesmo de acontecer. E então escolhemos o caminho mais seguro. Não o que faz mais sentido. Mas o que faz menos barulho.

Outro medo profundamente presente na sociedade portuguesa é o medo da instabilidade.

As últimas décadas deixaram marcas profundas na memória coletiva do país: crises económicas, austeridade, desemprego elevado, salários estagnados e uma permanente sensação de fragilidade económica.

Tudo isso criou uma geração inteira educada com uma prioridade emocional muito clara: segurança.

Segurança no emprego. Segurança no rendimento. Segurança no futuro. Mas a segurança tem um preço. Porque quando a segurança se torna o critério dominante de decisão, o risco deixa de ser uma oportunidade e passa a ser uma ameaça.

E assim muitas pessoas permanecem em situações que já não as representam. Trabalhos que não as desafiam. Ambientes que não as fazem crescer. Caminhos que já não fazem sentido.

Não porque não tenham talento para mais. Mas porque o desconhecido parece sempre mais perigoso do que o desconforto.

Há ainda um outro medo menos visível, mas igualmente poderoso: o medo de se destacar.

Portugal é uma cultura que valoriza profundamente a humildade e isso é, em muitos aspetos, uma virtude. Mas em certos contextos essa humildade transforma-se em algo diferente: medo de parecer ambicioso demais.

Desde cedo ouvimos frases que parecem inocentes: “Não te estiques.”, “Não te armes.”, “Não te mostres demasiado.”. E assim muitos talentos aprendem a viver em volume baixo.

Ideias extraordinárias permanecem guardadas. Projetos inovadores nunca são partilhados. Pessoas altamente capazes preferem permanecer discretas em vez de assumir protagonismo.

Porque, em certos contextos sociais, brilhar pode parecer perigoso.

Mas talvez o medo mais profundo de todos seja outro. O medo de mudar de vida.

Mudar exige confrontar aquilo que já não funciona. Exige assumir responsabilidade pelas escolhas. Exige abandonar histórias que já não fazem sentido. E isso dói.

Por isso muitas pessoas preferem continuar exatamente onde estão, mesmo quando sabem, no íntimo, que já cresceram para além daquele lugar. A mudança exige coragem emocional.

E a coragem raramente nasce da ausência de medo. Nasce quando o desejo de viver com verdade se torna maior do que o desejo de permanecer confortável.

Apesar de tudo isto, algo interessante está a acontecer em Portugal. Uma nova geração começa lentamente a questionar estas narrativas. Empreendedores que arriscam. Profissionais que mudam de carreira aos quarenta ou cinquenta anos. Pessoas que escolhem propósito em vez de apenas estabilidade. O medo continua presente. Mas já não é o único conselheiro.

Talvez seja esse o momento em que o país se encontra: entre duas culturas emocionais.

Uma cultura antiga, marcada pela prudência e pela sobrevivência.

E uma cultura emergente, que começa finalmente a permitir algo diferente: experimentar.

Portugal não é um país sem medo. Mas pode tornar-se um país onde o medo deixa de ser o decisor principal. E talvez seja essa a pergunta que realmente importa. Não apenas sociologicamente, mas pessoalmente. Não apenas para o país, mas para cada um de nós. Não é apenas: “Do que têm medo os portugueses?” É outra. O que poderia este país tornar-se se aprendesse, finalmente, a viver com menos medo?

Porque a história já provou algo extraordinário. Quando os portugueses deixam de ouvir o medo…

são capazes de atravessar oceanos.

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