Este desfiladeiro escondido no Mediterrâneo está cheio de baleias e golfinhos. Mas está sob ameaça

CNN , Michelle Cohan
1 dez, 15:00
Golfinhos. (Imagem: One Ocean Foundation)

Escondido ao largo da Sardenha, um canyon submerso onde baleias, golfinhos e corais raros prosperam está agora sob ameaça da pesca intensiva, do tráfego marítimo e da poluição

A mil metros de profundidade no mar Mediterrâneo, um caranguejo enredado em plástico luta para se arrastar pelo fundo rochoso. A 240 metros, uma população inteira de coral de bambu está a ser estrangulada por equipamentos de pesca. 

Estas são algumas das cenas que a bióloga marinha italiana Ginevra Boldrocchi testemunhou durante uma exploração às profundezas do mundo subaquático conhecido como Caprera Canyon. 

Situado nas águas azuis e agitadas a cerca de 20 a 40 quilómetros da costa da Sardenha, em Itália, o Caprera Canyon é um vasto vale submarino que sustenta uma grande variedade de vida marinha e ajuda a manter o equilíbrio dos oceanos. 

É uma das últimas grandes fronteiras do Mediterrâneo e um dos maiores e mais biodiversos ecossistemas submarinos da região - mas encontra-se ameaçado pela pesca comercial, pelo intenso tráfego marítimo e pela poluição. 

Aqui, a 190 metros (623 pés) de profundidade, o ROV observou um evento de mortalidade do coral vermelho chamado Corallium rubrum. (Imagem: One Ocean Foundation) 

Em junho, a CNN internacional juntou-se à One Ocean Foundation, uma ONG internacional, na sua primeira missão para descer um veículo operado remotamente (ROV) a mais de 1000 metros de profundidade para explorar a densa “floresta marinha” no fundo do Caprera Canyon, no âmbito da Rolex Perpetual Planet Initiative. 

Como coordenadora científica da One Ocean Foundation e investigadora na Universidade de Insubria, Ginevra Boldrocchi liderou a missão para observar um ambiente que nunca tinha sido visto por olhos humanos - um passo crucial para aprofundar o estudo da fundação sobre a importância ecológica do desfiladeiro. 

O Caprera Canyon é classificado como “canyon submarino”, uma estrutura que faz circular nutrientes, armazena carbono e fornece habitat para inúmeras espécies marinhas, dos corais e tartarugas aos tubarões e golfinhos. 

“Neste momento, o desfiladeiro não tem qualquer tipo de proteção, por isso arriscamo-nos a perder um refúgio para muitas espécies em perigo e a perder uma grande parte da biodiversidade”, conta Ginevra Boldrocchi à CNN internacional. 

Depois de anos a fazer investigação à superfície, a One Ocean Foundation concluiu que era altura de olhar mais fundo e descobrir o que se esconde no leito marinho do canyon. 

Missão com ROV 

Como os humanos não conseguem mergulhar fisicamente até às partes mais profundas do desfiladeiro, Ginevra Boldrocchi recorreu à ajuda do engenheiro e antigo marinheiro Guido Gay, que construiu um ROV subaquático especializado, capaz de explorar estas profundidades extremas. 

“O papel da tecnologia na conservação é muito importante, porque precisamos de ver, de nos conectar e de compreender o ambiente em detalhe para o podermos proteger”, defende Guido Gay. 

Pilotado pelo ex-marinheiro, o ROV elétrico explorou profundidades entre cerca de 130 e 1050 metros, investigando habitats rochosos, recolhendo amostras e observando organismos de grande profundidade.

A 170 metros abaixo do nível do mar, a expedição do ROV revelou um jardim subaquático diversificado, composto por peixes e corais. As evidências desses habitats ajudarão a One Ocean Foundation a construir o seu caso para ajudar a proteger o canyon. (Imagem: One Ocean Foundation) 

Segundo Francesco Enrichetti, investigador na Universidade de Génova que colabora com a One Ocean Foundation nesta expedição, a ciência ainda sabe muito pouco sobre a vida que habita as águas profundas do canyon. 

“Este ambiente é completamente desconhecido e, por isso, esperamos encontrar uma floresta marinha rica em animais”, diz à CNN internacional antes da missão. 

A luta por uma Área Marinha Protegida 

Desde 2019, Ginevra Boldrocchi tem vindo a recolher dados para reforçar o argumento a favor da designação do desfiladeiro como Área Marinha Protegida (MPA) - uma medida que poderia protegê-lo da sobrepesca, da poluição e de outros impactos humanos. 

“O canyon é, na prática, um cruzamento entre França e Itália, por isso há uma enorme perturbação causada pelo tráfego marítimo, que gera poluição acústica, e temos ainda o problema das atividades de pesca, como a pesca de arrasto de fundo”, explica Ginevra Boldrocchi. “Muitos destes animais, que já são considerados em perigo, acabam presos nas redes e morrem”. 

Grande parte da investigação científica de Ginevra Boldrocchi decorre junto à superfície, onde recolhe amostras a diferentes profundidades para avaliar os níveis de poluição e a presença de animais. 

“Fazemos amostragem de ADN ambiental (eDNA) para recolher todas as pistas biológicas presentes na água e perceber quais os animais que passaram recentemente por aquela área”, partilha. 

Para captar sons de animais marinhos e o ruído da poluição acústica, Ginevra Boldrocchi e a equipa colocam hidrofonia a cerca de 20 metros de profundidade, registando o áudio durante cerca de 40 minutos em cada expedição. 

Recolhem também amostras de zooplâncton, organismos microscópicos que flutuam perto da superfície, alimentando-se de plantas microscópicas e servindo de alimento para espécies maiores. Como base da cadeia alimentar marinha, estes pequenos animais absorvem contaminantes que circulam nas águas do canyon. 

“Procuramos mercúrio, cádmio, arsénio, ferro, zinco, analisamos também diferentes tipos de contaminantes, como o DDT”, diz Ginevra Boldrocchi. 

O DDT, hoje proibido, foi em tempos um pesticida amplamente utilizado. 

“Mesmo tendo sido banido desde os anos 70, ainda o encontramos em todo o lado, e interfere com as hormonas, com o crescimento e com a reprodução da vida marinha”. 

O que revelou o ROV 

Depois da expedição, as amostras e os vídeos recolhidos pelo ROV foram analisados em terra. A exploração revelou colónias de esponjas raras, corais e numerosas espécies de peixe. Mas mostrou também as cicatrizes da atividade humana - restos de material de pesca e lixo, responsáveis pela morte de corais. 

“Observámos uma população rara de gorgónias de fundo mole completamente destruída pelo impacto destas linhas de pesca longas”, contou Francesco Enrichetti. 

As gorgónias são corais moles, muitas vezes chamados “leques-do-mar”, que formam estruturas semelhantes a árvores e oferecem abrigo a outros animais marinhos. 

A 1.000 metros abaixo do nível do mar - um dos pontos mais profundos do canyon - imagens captadas por um ROV mostraram um caranguejo preso em plástico a tentar rastejar pelo fundo do oceano. (Imagem: One Ocean Foundation) 

Apesar dos sinais de impacto humano, houve descobertas encorajadoras. A investigação da One Ocean Foundation identificou a presença da foca-monge do Mediterrâneo, espécie em perigo, o que indica que o Caprera Canyon pode ser uma importante zona de alimentação para estes animais. 

“Encontramo-la basicamente sempre que fazemos amostragens - não só todos os meses, mas em várias áreas”, relata Ginevra Boldrocchi. “E isso são ótimas notícias, porque significa que a foca-monge está, pouco a pouco, a repovoar e a regressar à Sardenha”. 

Uma fonte de esperança 

Em 2024, o desfiladeiro foi reconhecido como Mission Blue Hope Spot - um local considerado vital para a saúde do planeta. Com esse impulso, Ginevra Boldrocchi e a One Ocean Foundation planeiam, nos próximos anos, avançar em várias frentes de proteção para a área. 

“Quando tivermos todos os dados de que precisamos, vamos avançar em três direções: vamos tentar obter o reconhecimento como Important Marine Mammal Area (IMMA), em segundo lugar a designação como Fisheries Restricted Area (FRA) e, ao mesmo tempo, começar o processo para criar uma Área Marinha Protegida”, explica Ginevra Boldrocchi. 

A cientista diz que planeiam usar os dados recolhidos pelo ROV para apoiar a proposta de FRA em 2026, quando apresentarem formalmente as conclusões às autoridades italianas e da União Europeia. 

“Queremos mostrar que existe, também no fundo, uma comunidade importante que merece ser protegida”, conclui. 

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