As discrepâncias no seio da UE sobre o Médio Oriente são demasiado profundas para se poder falar num bloqueio. Simplesmente, não existe uma posição. Muitos dormirão descansados antes da próxima decapitação. Os europeus, começando por Von der Leyen, não deviam
Durante décadas, bastou à Europa acreditar que estava do lado certo da história. Esse conforto terminou. Quando Ursula von der Leyen declarou que a Europa “não pode continuar a ser a guardiã da ordem baseada em regras” soou como mais um ponto de viragem. A Presidente da Comissão Europeia apresentou-o como o enésimo despertar estratégico, na Conferência de Embaixadores da UE: aceitar um mundo caótico, moldar o futuro e não lamentar o passado. Falou em autonomia, independência e numa política externa capaz de fortalecer a União, proteger interesses e promover valores. No dia seguinte, numa cimeira sobre a energia nuclear em Paris, anunciou mais uma garantia, agora de 200 milhões de euros para apoiar o investimento privado em tecnologias nucleares inovadoras. Não há nada mais permanente do que políticas provisórias. Nada mais típico em Bruxelas do que procurar contrabalançar divisões com promessas.
Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão foram mais uma oportunidade de passar das palavras aos atos. Pressagiados desde o verão, apesar das negociações em Omã e na Suíça, o bombardeamento causou menos surpresa do que resignação. A diplomacia americana decorreu, mas a mobilização militar deixava poucas dúvidas sobre o resultado. As ameaças de Donald Trump, aliadas à influência de Benjamin Netanyahu, sugeriam que o destino estava traçado.
A Europa reagiu como habitual, tanto no conteúdo como na forma. Von der Leyen criticou o regime iraniano, ignorando a agressão americana. Roberta Metsola e Friedrich Merz alinharam-se com Washington e Tel Aviv, defendendo uma mudança de regime. França, Alemanha e Reino Unido reforçaram as defesas contra mísseis e drones, em coordenação com os EUA, enquanto Espanha e Noruega condenaram o ataque. Itália, refém de equilíbrios internos e de futuros referendos, acabou por criticar a intervenção. Portugal, sem surpresa, preferiu dar as respostas certas às perguntas erradas, não fosse Trump olhar para os Açores.
A contradição europeia é moral e política, uma vez que a União proclama valores normativos – democracia, direitos humanos, regras internacionais – mas aplica-os de forma seletiva. Surge assim a hipocrisia: talvez produtiva para alguns, quando aspiramos a valores ainda que incompletos. Destrutiva, quando se disfarça de violência e poder sem limites.
A legalidade da guerra – independentemente do nome escolhido – é, no mínimo, altamente discutível. Ninguém contesta a malignidade do regime iraniano. Mas na ausência de provas claras de uma ameaça iminente por parte do regime clerical, a ação preventiva aponta para uma violação do direito internacional, confirmada pelos objetivos declarados – e várias vezes atualizados – pelos Estados Unidos. Não é purismo, é direito.
Uma análise atenta da doutrina da responsabilidade de proteger, R2P, conclui rapidamente que dificilmente poderia ser aplicável. A doutrina, consagrada na Cimeira Mundial das Nações Unidas de 2005, limita-se a situações de genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica ou crimes contra a humanidade e pressupõe uma decisão do Conselho de Segurança.
Mas a discussão já se deslocou para outro plano. Falemos então da famosa realpolitik. Muitos perguntam-se se as regras internacionais devem aplicar-se a regimes considerados malignos, apesar de terem sido concebidas para se aplicar também a Estados considerados hostis ou ilegítimos. Aos aiatolas. Aos chavistas. Mas por que não poderiam essas mesmas regras deixar de se aplicar aos que Xi Jinping e Putin consideram criminosos? À Ucrânia? A Taiwan?
Sob o peso do unilateralismo americano, que não começou com Donald Trump, mas que com ele alcançou o apogeu, a prática das normas internacionais tornou-se mais performativa do que real. O bloqueio do Conselho de Segurança, protagonizado sobretudo por Estados Unidos, China e Rússia, não é novo. Mas é difícil recordar um momento em que tantos líderes tão rapidamente renegassem a ordem internacional que tão apaixonadamente defendem noutras instâncias, em Davos ou Munique, no Parlamento Europeu ou na Assembleia Geral das Nações Unidas.
O problema não é apenas externo. Estamos também perante uma transformação profunda na própria política americana. A tradição de autocontenção constitucional que durante décadas garantiu alguma previsibilidade parece ceder terreno a uma lógica crua de poder. Em certos momentos, a política externa de Trump aproxima-se perigosamente de uma doutrina de mudança de regime permanente. A Europa fala de independência, mas ainda depende de Washington, tanto militar como diplomaticamente. Depende, sobretudo, psicologicamente. Talvez Donald Trump seja o “paizinho” de muitos líderes europeus, e não apenas de Mark Rutte.
Esta dependência não é apenas uma consequência histórica da arquitetura atlântica. É também o reflexo de uma visão estratégica específica em Mar-a-Lago. A administração Trump tende a olhar para a Europa menos como um aliado e mais como um espaço subordinado: simultaneamente mercado, protetorado de segurança e plataforma tecnológica. Nessa lógica, as tarifas, as sanções, as ameaças recorrentes aos membros da NATO ou episódios aparentemente extravagantes – como a Gronelândia – deixam de parecer impulsos erráticos e passam a revelar um método: testar até onde vai a disponibilidade europeia para aceitar uma hierarquia informal no interior do próprio campo ocidental.
O cenário global torna a urgência impossível de ignorar. A guerra sem fim na Ucrânia, o conflito regional no Médio Oriente, as violações dos direitos humanos em Gaza e da soberania na Cisjordânia. As crises silenciadas no Sudão, um conflito aberto entre Paquistão e Afeganistão, tensões latentes entre China e Japão e o anúncio de novas decapitações na América Latina, consolidando uma política de disparar primeiro e negociar depois.
A aleatoriedade da política externa norte-americana – apesar de uma estratégia de segurança nacional que nos garantiram ser coerente – reforça a necessidade de autonomia estratégica genuína. E há alguns sinais na direção certa. Macron anunciou o reforço do arsenal nuclear francês, sugerindo que o seu efeito de dissuasão poderá ser estendido aos parceiros europeus.
Iniciativas como o “One Europe, One Market” combinam liberalização com protecionismo moderado, reforçando os chamados “campeões europeus” e reduzindo dependências, mas serão insuficientes sem um mercado único de capitais, uma defesa comum e a instituição de um mecanismo contracíclico permanente para lidar com crises geopolíticas, geoeconómicas ou sanitárias, à imagem do SURE, essencial durante a pandemia.
Se esta leitura estiver correta, a questão deixa de ser meramente diplomática. Torna-se estrutural. A União Europeia terá de decidir se pretende continuar a funcionar como uma periferia da ordem americana ou se está disposta a transformar-se num polo soberano num mundo com cada vez menos regras. Isso implica acelerar a integração da indústria de defesa europeia, criar capacidades reais de reação rápida, reduzir vulnerabilidades energéticas e tratar a soberania digital como um campo de batalha estratégico. Isso significará inevitavelmente um confronto regulatório com as grandes plataformas tecnológicas americanas e a construção de alternativas europeias em áreas críticas como a cloud, os semicondutores e a inteligência artificial.
Mas a diversidade de posições entre líderes europeus evidencia a fragilidade da política externa. Von der Leyen e Kaja Kallas estão em rota de colisão. O chanceler Merz evita confrontos diretos com Washington, enquanto Giorgia Meloni mantém uma “neutralidade colaborante”.
Pedro Sánchez, de forma mais ou menos calculada, surge como contraponto: rejeita alinhamentos cegos, critica conflitos prejudiciais e defende uma política guiada por valores e interesses próprios, aparentemente alinhada com o Presidente do Conselho Europeu. Portugal, como habitual, não aparece na fotografia. As discrepâncias no seio da União Europeia, quando o tema é o Médio Oriente, são demasiadas para sequer se poder falar de um bloqueio. Não há uma posição digna desse nome, uma semana antes do Conselho Europeu de dia 19 de março e com os vetos da Hungria e da Eslováquia ao empréstimo à Ucrânia e ao vigésimo pacote de sanções à Rússia ainda em cima da mesa dos embaixadores.
O paradoxo é evidente. Proclamamos abandonar hábitos do velho mundo, mas cedemos a pressões externas. Independência? Só no discurso. A retórica contrasta com a prática: alinhar-se a Washington, ignorar violações, falar de princípios enquanto os compromissos alheios prevalecem. A pergunta permanece: a Europa deixará de ser guardiã da ordem normativa por escolha própria ou por obrigação? Aprendemos alguma coisa nos campos de golfe da Escócia ou apenas abdicámos de fazer valer os nossos valores numa determinada latitude? Exigiremos à Ucrânia aquilo que não cobramos à Hungria e à Eslováquia?
Se a União quiser ter relevância num mundo caótico, terá de alinhar discurso e ação, consolidar independência real, proteger princípios e harmonizar políticas de segurança, economia e tecnologia. Não são frases feitas. Traduzem-se em soberania e avanços tecnológicos. Numa economia social de mercado moderna. Até lá, a enésima promessa de Von der Leyen não passa de um salto de fé, constantemente contrariado pela realidade. Num sistema internacional mais competitivo, as promessas não garantem influência. As palavras não eliminam vulnerabilidades, como a dependência energética ou tecnológica.
A Europa fala de autonomia, mas comporta-se como se fosse tutelada, presa entre hipocrisias internacionais e pressões externas. Aqueles que defendem uma posição para Gaza sustentam a oposta para Kiev. Aqueles que professam devoção à “coragem” de Donald Trump abominam a crueldade de Vladimir Putin. Os mesmos que duvidam da sanidade do Presidente dos Estados Unidos ao ameaçar a Gronelândia não hesitam em entregar-lhe, no Médio Oriente, o papel de parte, juiz e carrasco. Vivemos num estado de dissociação geopolítica.
Mais do que um problema no seio do Conselho Europeu, trata-se de um problema europeu. As potências raramente tratam os parceiros indecisos como aliados. Tendem a tratá-los apenas como espaços de influência. Ou redescobrimos aquilo que nos uniu e aquilo que nos pode voltar a unir, ou não serão necessários Orbáns, Putins ou Trumps para destruir a União Europeia. Implodirá, um dia destes, entre acusações de “purismo” e de “benignidade”, deixando-nos à mercê da “moralidade” de Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping.
Muitos dormirão descansados antes da próxima decapitação.
Os europeus, começando por Von der Leyen, não deviam.