Em causa está o conflito no Irão. O aumento do preço dos combustíveis vai repercutir-se noutros setores. "Em nove dias de conflito no Irão e já estamos a ter este impacto... Não augura nada de bom"
O conflito entre o Irão e a coligação formada pelos Estados Unidos e pelo Irão está no 10º dia e o impacto na economia mundial já se faz sentir. Embora não importe petróleo e gás natura do Médio Oriente, Portugal não foge à regra e os preços dos combustíveis nas bombas de gasolina portuguesas acordaram esta segunda-feira com aumentos na ordem dos 20 cêntimos para o gasóleo e sete cêntimos para a gasolina, de acordo com as previsões anunciadas pelo ACP. O efeito real só poderá ser medido esta terça-feira, mas será, sem sombra de dúvidas, um dos maiores aumentos de sempre no espaço de uma semana.
Vários países do Médio Oriente já limitaram a produção. O último a fazê-lo foi a Arábia Saudita, mas antes já o tinham feito o Iraque, o Kuwait e os Emiratos Árabes Unidos. O maior problema nem está na redução da produção, mas antes nos problemas com o escoamento do produto, depois do fecho do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo inteiro. O estreito liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é a principal rota de exportação para grandes produtores como a Arábia Saudita, o Iraque, o Kuwait, os Emiratos Árabes Unidos, ou o Catar. São cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, que têm como destino sobretudo a Ásia, mas cujo bloqueio tem impacto no mundo inteiro.
“O preço do petróleo não está a subir porque há falta agora, mas porque pode haver falta depois e os mercados antecipam essa escassez. Mesmo os países que ainda estão a produzir, se não têm por onde o escoar, não adianta continuarem a produzir”, explica Ricardo Marques, analista da IMF - Informação de Mercados Financeiros, SA.
Dominó
Magda Moura Canas, porta-voz da DECO PROteste, considera que o pior ainda está para vir. E, como esperado, o aumento dos preços dos combustíveis pode ter um efeito de “contágio noutros domínios da economia”. É espectável que, em pouco tempo, esse aumento se faça sentir também nos preços de bens alimentares, outros bens de consumo e até nos preços dos serviços.
“Os combustíveis são o motor da economia. Se aumentam, aumenta também o custo da produção e mesmo do próprio transporte”, constata a especialista.
“O efeito dominó não é uma imagem gasta. O primeiro dominó é o dos combustíveis, o segundo é o da produção e dos transportes e o terceiro é o da inflação”, acrescenta.
Magda Moura Canas diz à CNN Portugal que não é possível “fazer previsões em relação a valores, “mas temos uma previsão muito segura e nada animadora de que vai haver um aumento generalizado dos preços.
A porta-voz da DECO considera que, ainda assim, o efeito que estamos a sentir até podia ser pior. Além do petróleo, o preço do gás natural tem um forte impacto na produção de energia - em Portugal, “1,4 milhões de consumidores são dependentes do gás natural”. “Estamos num contexto muito específico. O aumento do gás está diretamente relacionado com o aumento da produção de energia. E este conflito apanhou-nos numa altura em que temos as barragens cheias e estamos estáveis ao nível da produção das renováveis, como as eólicas”, sublinha, acrescentando, a título de exemplo, a invasão da Ucrânia há quatro anos, que apanhou Portugal num período de “barragens vazias”, a que se seguiram “meses de seca.
O impacto na prestação da casa
Há ainda uma peça do dominó que terá uma queda inevitável: a dos créditos. “É esperado que o efeito bola de neve se vá verificar, quer queiramos quer não”, diz Magda Moura Canas.
“Esta questão tem um segundo plano, que vai além do dia a dia, além do abastecimento do carro, do aquecimento das casas e da ida ao supermercado”, sublinha, explicando que, numa tentativa de conter a inflação, os bancos centrais podem aumentar as taxas de juro, com impacto direto, por exemplo, nos créditos habitação.
Nos créditos habitação com taxas fixas, não se espera grande impacto. Mas nos créditos com taxas Euribor a três e seis meses, o aumento deverá ser praticamente inevitável, tal como aconteceu, aliás, também quando a Rússia invadiu a Ucrânia.
E, atrás desta peça, a possibilidade de todas as outras virem atrás é também praticamente inevitável. Depende muito, diz Magda Moura Canas, das posturas, mais uma vez, dos bancos centrais: “Mas têm de ter também algum cuidado, porque ao aumentar muito as taxas de juro e, por consequência, os valores do crédito à habitação estarão a estrangular a capacidade de consumo das pessoas”.
200 dólares por barril "não é impensável"
O impacto do conflito nos preços dos combustíveis e, consequentemente, nos dos principais bens de consumo é, por enquanto, imprevisível. Ricardo Marques lembra que isso dependerá muito da duração do conflito.
O analista sublinha que, “num curto prazo, não haverá escassez de petróleo”, porque a maioria dos países tem reservas para alguns meses. Mas, “no médio e longo prazo poderá haver escassez” e, aí, o cenário é imprevisível.
“Depende muito dos stocks de petróleo que os países têm e depende muito também da posição que o mundo assumir face a este conflito”, diz.
O preço do barril do petróleo rondou já esta segunda-feira os 120 dólares. Um preço que não se via desde março de 2022, depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia. Já na sexta-feira, o Financial Times escrevia que “o barril de petróleo a 200 euros já não é um cenário impensável”. As previsões dependem muito da duração do conflito e do tempo que o estreito de Ormuz esteja fechado.
Ainda assim, Ricardo Marques está relativamente otimista e lembra que não são só os países importadores a “perder” com a redução da exportação do petróleo oriundo do Médio Oriente. Os produtores também vão ver essas implicações nas próprias economias. Com o Estreito de Ormuz fechado, os países produtores não têm como escoar a produção: “Não adianta a Arábia Saudita ter os preços a 100 ou a 200, porque não vai vender nem a 100 nem a 200 se não conseguir exportar”. “Portanto, acredito que, para o bem de todos, os países produtores vão conseguir encontrar uma alternativa ao Estreito para exportar o petróleo produzido”, considera.
O que pode o Governo fazer mais?
O Governo de Luís Montenegro anunciou ainda na sexta-feira “um apoio” aos consumidores para travar o aumento de preços previsto para os combustíveis. Uma redução de 4 cêntimos no imposto sobre os combustíveis em aumentos superiores a 10 cêntimos. Os consumidores de gasóleo, que tem um amento previsto na ordem dos 20 cêntimos, vão usufruir desse apoio. Os consumidores de gasolina, cujo aumento foi de sete cêntimos, não vão usufruir.
Um “apoio” que não implica uma perda em termos de receita fiscal para os cofres do Estado, já que os preços dos combustíveis incluem IVA a 23% e quanto maior for o preço maior será a receita fiscal em sede de IVA. Não podendo mexer no IVA diretamente, por imposição das regras europeias, o Governo reduz o preço do ISP. Não está propriamente a dar alguma coisa, está simplesmente a deixar de ganhar quatro cêntimos em cada litro de gasóleo.
Magda Moura Canas considera que o Governo pode fazer “muito mais” do que mexer nos preços dos combustíveis para travar a inflação consequente. Desde logo, “como fez no passado, ao nível de taxas de IVA aplicáveis a outros bens”, que venham a sofrer com a subida dos combustíveis.
De que valem as reservas estratégicas?
Portugal tem reservas estratégicas de petróleo equivalentes a três meses de consumo, como a esmagadora maioria dos países europeus. Não é dos países com maiores reservas energéticas. Os Estados Unidos, por exemplo, têm reservas estratégias para seis meses de consumo. O Japão e a Coreia do Sul têm reservas para 150 a 200 dias.
Mas se todos os países têm reservas estratégicas, porque é que o impacto de um conflito é tão imediato nos preços dos combustíveis? Ricardo Marques responde com uma constatação simples: “O preço não está a subir porque há falta agora. Está a subir porque os mercados temem que haja falta depois”.
Já há países a considerar libertar petróleo armazenado nas reservas estratégicas, para conter a subida de preços dos combustíveis. Um desses países é a França. Os ministros das Finanças do G7 e a Agência Internacional da Energia (AIE) reuniram-se esta segunda-feira por teleconferência. Em cima da mesa esteve uma possível disponibilização conjunta de petróleo das reservas, coordenada pela AIE.
Pode ser uma solução a curto prazo mas que pode ter impactos indesejáveis a longo prazo, dizem os especialistas. Sobretudo quando não se sabe o tempo que o conflito pode durar.