As comunicações (recolhidas pelas forças israelitas e agora divulgadas em Israel) apontam o Qatar como aliado estratégico do Hamas, tanto no plano diplomático como financeiro, e sugerem um esforço deliberado para afastar o Egipto do processo negocial em Gaza e travar o chamado (pelo Presidente norte-americano) “acordo do século”
Documentos descobertos pelas forças israelitas durante operações militares em Gaza revelam uma coordenação apertada entre o Hamas e o Qatar para travar o chamado “acordo do século” — a proposta de paz do Presidente norte-americano Donald Trump para o conflito israelo-palestiniano — e para sabotar a aproximação diplomática de países árabes a Israel. A revelação foi feita pela cadeia televisiva israelita Canal 12, que teve acesso aos documentos.
A narrativa que emerge desses papéis, alguns dos quais confidenciais, traça um fio condutor entre o apoio do Qatar ao Hamas e a sobrevivência do grupo islâmico ao longo dos anos — apoio esse que, segundo a reportagem, terá sido determinante para a capacidade logística e financeira que permitiu ao Hamas lançar o ataque de 7 de outubro de 2023 contra o sul de Israel.
Numa reunião de emergência em junho de 2019, o emir do Qatar, Tamim bin Hamad Al Thani, recebeu em Doha altos responsáveis do Hamas para discutir as implicações do plano de paz norte-americano e da crescente disposição de vários países árabes em normalizarem relações com o Estado judaico. O próprio emir terá alertado que, entre os países a ceder à pressão diplomática dos EUA, estaria a Arábia Saudita.
“Precisamos de cooperar para resistir ao acordo do século e travá-lo”, terá respondido Khaled Mashaal, uma das figuras históricas do movimento islamista palestiniano, segundo consta dos documentos citados pela estação israelita.
Meses depois, em dezembro de 2019, Ismail Haniyeh, então líder do Hamas, terá sublinhado a importância do apoio financeiro qatari numa reunião com Mohammed bin Hamad Al Thani, então ministro dos Negócios Estrangeiros e atual primeiro-ministro do Qatar. “As subvenções do Qatar são a principal artéria do Hamas”, terá afirmado Haniyeh, referindo-se aos pagamentos em dinheiro enviados por Doha para Gaza.
O plano de Trump — oficialmente apresentado em 2020 sob o nome Peace to Prosperity: A Vision to Improve the Lives of the Palestinian and Israeli People (Paz para a Prosperidade: Uma Visão para Melhorar as Vidas dos Povos Palestiniano e Israelita) — propunha uma solução de dois Estados que deixava de fora os colonatos israelitas na Cisjordânia, concedia aos palestinianos partes do deserto do Negueve e prometia um generoso pacote de ajuda económica. Mas nunca chegou a sair do papel.
Outro dado relevante nos documentos agora tornados públicos é que o Hamas terá procurado diluir a influência diplomática do Egipto na Faixa de Gaza, substituindo o seu papel tradicional de mediador pelo do Qatar. Uma carta escrita por Yahya Sinwar (líder de facto do enclave) a Ismail Haniyeh, datada de maio de 2021, depois de 11 dias de confrontos com Israel, dá conta dessa estratégia: “Os egípcios tentaram conter a escalada, mas fizemo-los sair de cena de mãos a abanar. No seu lugar, vieram os qataris, a quem demos oportunidade de colher os frutos da diplomacia”.
Há muito que se sabe da relação ambígua entre Doha e o Hamas. Os documentos agora divulgados acrescentam-lhe, porém, novos contornos — mais claros, mais comprometedores, e com implicações que se estendem para além da Faixa de Gaza.
