Ali Khamenei, o aiatola que mantém o Irão preso à revolução (e ao tempo)

18 jun 2025, 18:00
Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão (GettyImages)
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PERFIL || No topo da República Islâmica desde 1989, Khamenei é mais do que um mero líder religioso: é o símbolo de um regime que, entre ortodoxia e pragmatismo, desafia o mundo ocidental e luta contra as suas próprias contradições internas. Entender Khamenei é perceber o Irão pós-revolucionário, as suas certezas e as suas fissuras

Nasceu numa das cidades sagradas do Irão, Mashhad, no nordeste, em 1939.

Ali Hosseini Khamenei, hoje com 86 anos, cresceu num ambiente onde a religião era o fulcro da vida social e política. Desde muito novo frequentou madrassas e mostrou aptidão para os estudos religiosos xiitas, inserindo-se numa tradição que funde fé e poder - ou poder e fé; a ordem aqui importa.

Era um tempo marcado pelo domínio do xá Reza Pahlavi e pela repressão do clero - que viria a ser o motor da revolução que mudaria o país para sempre e ainda agora. Khamenei emergiu num cenário em ebulição, no qual o Irão oscilava entre modernização autoritária e revolta popular.

Participou ativamente nos movimentos contra o regime do xá, ao lado de figuras como Ruhollah Khomeini, que em 1979 se tornaria o líder da Revolução Islâmica e o primeiro Líder Supremo do Irão. A ascensão de Khamenei no Irão-novo não foi imediata nem inevitável. Antes de se tornar líder supremo, foi Presidente do país entre 1981 e 1989, um período difícil, marcado pela guerra devastadora contra o Iraque de Saddam Hussein — e ainda por tensões internas que ameaçavam a própria sobrevivência do regime.

Ainda assim, a sua reputação consolidou-se como um homem da linha dura, mas pragmático, capaz de navegar as águas turbulentas da política iraniana.

Com a morte de Khomeini, em 1989, Khamenei foi escolhido para suceder-lhe, uma decisão que surpreendeu muitos, dada a sua origem menos "prestigiosa" no clero e a falta do título tradicional de aiatola. Mas foi precisamente o seu perfil menos carismático, talvez, e mais disciplinado, certamente, que seduziu o conselho de guardiões, num contexto em que o regime queria estabilidade, continuidade e, mais que tudo, controlo rígido.

Enquanto Líder Supremo, o poder de Khamenei é praticamente absoluto.

É ele, antes como agora, quem controla as Forças Armadas, incluindo a Guarda Revolucionária, o sistema judicial, os media estatais, e tem a palavra final sobre todas as decisões políticas e religiosas do país. Para além do Presidente eleito, um ator secundário na hierarquia do poder e que funciona mais como um chefe de governo, Khamenei encarna a autoridade máxima, numa teocracia onde o poder religioso se sobrepõe a qualquer outra forma de legitimidade.

Este poder absoluto tem sido exercido numa lógica de resistência e confronto, sobretudo com os Estados Unidos, país a quem Khamenei acusa de querer “esmagar a revolução” e subverter o país.

Desde 1979, o Irão tem vivido num estado de permanente antagonismo com Washington, fosse quem fosse Presidente na América, um antagonismo agravado pela retirada dos EUA do acordo nuclear em 2018 - que marcou uma nova escalada de tensões, com Khamenei a reafirmar a rejeição de qualquer negociação que não seja feita “com dignidade” - e pelo endurecimento das sanções económicas e isolamento diplomático.

Para Khamenei, tudo são tentativas de “guerra económica” e “invasão cultural” - que exigem uma resposta firme e sem nenhumas concessões. O seu discurso faz apelo à resistência popular (e Khamenei personifica essa "resistência") e à construção de um “eixo de resistência regional” - envolvendo aliados como o Hezbollah e as milícias xiitas em vários países árabes.

Já a relação com Israel é ainda mais carregada. Para Khamenei, o Estado hebraico é uma entidade “ilegítima”, um “inimigo sionista” que ocupa terras palestinianas e com quem o Irão estava em guerra não declarada, pois representa uma ameaça existencial ao Irão e, por conseguinte, à causa islâmica.

Os discursos de Khamenei contra Israel são carregados de condenação moral e condenação política. E o apoio iraniano a grupos como o Hezbollah no Líbano ou às milícias xiitas no Iraque e na Síria é parte integrante dessa estratégia de resistência regional, uma estratégia para confrontar Israel por “procuração”.

Embora a retórica mais agressiva tenha sido um pouco suavizada publicamente nos últimos anos - e completamente "implodida" nas semanas mais recentes: agora, sim, é uma guerra, não simbólica mas guerreada -, o discurso oficial mantém a negação do direito de Israel existir e a promessa de resistência. Esta postura alimenta o conflito regional e complica qualquer tentativa de paz duradoura no Médio Oriente.

Mas o Irão de Khamenei não se pode ver só de dentro para fora; é também um país em tensão interna crescente.

Apesar da retórica antiocidental e das vitórias diplomáticas e militares que o regime reclama, a realidade económica e social é dura para a maioria dos iranianos. A inflação galopante, o desemprego elevado, a corrupção (maior nas altas esferas) e a repressão política têm gerado protestos cada vez mais frequentes — protagonizados principalmente por jovens (urbanos) que sentem que o modelo de revolução não corresponde às suas aspirações. As manifestações, que têm vindo a crescer desde 2017, exigem mais liberdade, direitos e mudanças políticas, confrontando um regime que responde com repressão violenta.

Para Khamenei, estes protestos são muitas vezes vistos como tentativas de desestabilização exterior, associadas a “infiltrações estrangeiras". O seu controlo rígido sobre o aparelho de segurança visa sufocar a dissidência e manter o regime intacto. E tem-no conseguido. 

É, portanto, neste contexto, interno e externo, que a figura de Khamenei se torna ainda mais complexa. É que a sua idade já avançada e a falta de uma sucessão clara (nem consenso há entre as elites iranianas) alimentam incertezas no regime. Mas a sua mão, ou punho, firme, ainda mantém o país numa espécie de equilíbrio instável, onde a teocracia e o pragmatismo político se misturam para garantir a sobrevivência da República Islâmica.

Mais do que um líder religioso, Khamenei é hoje o símbolo de uma revolução que se recusa a ser esquecida, mas que enfrenta os fantasmas do tempo e enfrenta a mudança.

O seu Irão é um país que olha para o futuro com desconfiança, agarrado ao passado revolucionário, numa encruzilhada que terá de decidir se permanece encerrado na sua lógica de confronto (como agora, com Israel e, possivelmente, os Estados Unidos) ou se abre caminho para uma nova era. Khamenei nunca permitirá uma nova era. 

Entender Ali Khamenei é entender uma arquitetura que assenta na fusão da autoridade religiosa com a legitimidade política, uma teocracia que legitima o seu poder em nome da proteção da Revolução Islâmica e dos valores xiitas. Entender Ali Khamenei é entender um guardião do sistema: um líder que conseguiu manter o sistema intacto, mas à custa do isolamento e do endurecimento.

Entender Ali Khamenei é entender que o Irão não é apenas uma potência regional com políticas agressivas, mas também um país profundamente dividido, marcado por uma liderança que detém um poder imenso e uma legitimidade cada vez mais contestada.

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