ANÁLISE || A decisão de Donald Trump de lançar uma ofensiva contra o Irão, após o assassínio do Líder Supremo Ali Khamenei, abre um leque de cenários que vão de uma possível vitória estratégica à desestabilização profunda do Médio Oriente. Especialistas alertam para a falta de uma estratégia clara e para os riscos políticos e militares de um conflito que pode prolongar-se e ter custos imprevisíveis
Pete Hegseth exibiu na segunda-feira o tom bombástico típico do arranque de “choque e pavor” das guerras norte-americanas, ao prometer vitória sobre o Irão.
“Vamos terminar isto em condições ‘América Primeiro’, escolhidas pelo Presidente Trump, e por mais ninguém, como deve ser”, afirmou o secretário da Defesa no Pentágono.
Mas o seu comentário evocou fatalmente outra promessa, feita em 2001.
“Este conflito começou no momento e nos termos de outros; terminará da forma e à hora da nossa escolha”, afirmou o Presidente George W. Bush a uma nação traumatizada pelos ataques de 11 de setembro. Pouco depois, levou os Estados Unidos para guerras que duraram quase duas décadas.
O eco da história apenas alimentará receios de que esta administração esteja a falhar ao recordar as lições sangrentas do passado recente.
A dimensão da aposta de Donald Trump ao lançar uma guerra ao lado de Israel — que já levou ao assassínio do Líder Supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei — é resumida pela escala dos possíveis resultados.
O risco é que o conflito, baseado numa lógica questionável, provoque o caos em todo o Médio Oriente e acabe por matar milhares de civis, ao mesmo tempo que semeia novos ataques terroristas contra os americanos nos próximos anos.
No entanto, existe um cenário alternativo para um presidente que lançou um ataque ao Irão que os seus antecessores nunca ousaram. Poderá forjar uma vitória estratégica se neutralizar a ameaça regional de um inimigo declarado dos EUA há quase 50 anos e catalisar o nascimento da liberdade no Irão.
“Esta guerra lançada por Trump é injustificada e ilegal. Isso não significa necessariamente que vá ser mal-sucedida”, afirmou o historiador e especialista em política externa Max Boot numa conferência telefónica do Conselho de Relações Exteriores, na segunda-feira, criticando ao mesmo tempo o presidente por arrogância.
Os EUA prometem intensificar a guerra
À medida que a guerra entra no quarto dia, os EUA e Israel prometem intensificar o ataque ao Irão. A liderança remanescente de Teerão está determinada a fomentar o caos regional.
Três desfechos gerais parecem possíveis:
► O cenário mais otimista é que dias de ataques aéreos contra instrumentos de repressão do Estado iraniano precipitem uma revolta popular. Um novo Irão poderia transformar o Médio Oriente.
► Uma possibilidade mais complicada, e talvez mais provável, é que os líderes sobreviventes do Irão construam um novo regime. Mas a operação dos EUA ainda poderia ser bem-sucedida ao destruir a capacidade nuclear, militar e de mísseis que torna o Irão uma ameaça regional. Esse pode ser um resultado aceitável para Israel, mas poderia levar a guerras futuras para impedir que o novo regime iraniano reconstruísse as suas capacidades.
► O pior cenário é que o Irão espelhe a Líbia, mergulhado num vazio de poder num Estado destruído por anos de autoritarismo. Conflitos entre facções ou uma guerra civil poderiam eclodir, exportando caos, provocando uma crise de refugiados e deixando as reservas de urânio vulneráveis a grupos extremistas.
Onde tudo pode correr mal
Se os norte-americanos estão confusos quanto ao que se segue, não é surpreendente, já que a administração tem vindo a alterar a sua justificação para a guerra.
Trump falou em mudança de regime e no desejo de dar liberdade aos iranianos. Prometeu destruir um programa nuclear que já afirmara ter obliterado. Hegseth sublinhou na segunda-feira a necessidade de vingar norte-americanos mortos em ataques terroristas iranianos ou por milícias apoiadas pelo Irão durante a ocupação do Iraque. O secretário de Estado Marco Rubio argumentou que os EUA lançaram uma guerra preventiva porque Israel planeava atacar o Irão e as tropas norte-americanas na região enfrentariam represálias.
Se esta lógica difusa reflete uma administração que não sabe ao certo porque entrou em guerra, a campanha poderá já estar em dificuldades.
“Não há realmente uma estratégia clara. E precisamos de ouvir do presidente o que ele quer”, disse à CNN, na segunda-feira, a senadora democrata Jeanne Shaheen. “Esta é uma oportunidade para um verdadeiro ponto de inflexão no Médio Oriente se tivermos sucesso. Mas não é nada claro como isto vai evoluir.”
No entanto, para Trump, a imprecisão é uma característica, não uma anomalia.
Ao manter vagos os objetivos de guerra, cria margem política para declarar vitória quando quiser. Parece ter aprendido uma lição do Iraque e do Afeganistão: guerras terrestres em grande escala arriscam transformar-se em lamaçais.
Mas é difícil recordar um único exemplo de poder aéreo que tenha provocado uma mudança de regime e o nascimento de um Estado sucessor estável. Embora Trump tenha insistido na segunda-feira que não se vai “aborrecer”, alguns críticos duvidam da sua capacidade de resistência caso o regime sobreviva.
Trump já parece estar a restringir os seus objetivos. Disse na segunda-feira que o plano era erradicar a marinha do Irão, os seus programas de mísseis e as suas futuras aspirações nucleares. Tanto ele como Hegseth pareciam também preparar o terreno para uma justificação caso o regime se reconstitua, insinuando que os iranianos só teriam a si próprios a culpar se não aproveitassem a oportunidade.
“Penso que a mensagem que o presidente transmitiu foi clara. Ao povo do Irão: este é o vosso momento”, afirmou Hegseth.
Alguns analistas traçaram paralelos com a estratégia de Trump na Venezuela, onde a líder interina Delcy Rodríguez emergiu para trabalhar com Washington após a operação das forças especiais que retirou o Presidente Nicolás Maduro.
Mas Washington tem tentado — e falhado — durante décadas encontrar responsáveis iranianos moderados com quem trabalhar. Após o assassínio do ayatollah, parecem existir ainda menos incentivos para que tais figuras surjam.
Ainda assim, no pior dos casos, um sucesso militar norte-americano não acompanhado por uma mudança política mais ampla poderia, ainda assim, tornar a região mais segura.
“Penso que o que claramente emergirá desta guerra é um regime muito, muito diferente, mesmo que se mantenha”, afirmou Elliott Abrams, investigador sénior do Conselho de Relações Exteriores e antigo alto responsável de política externa na administração Bush. “Não haverá um líder supremo verdadeiramente supremo como (ayatollah Ruhollah) Khomeini e Khamenei foram.”
E acrescentou: “Este será um país largamente sem capacidade de usar a força. Penso que, quando isto terminar, mesmo que seja dentro de apenas mais uma semana, não terão qualquer programa nuclear. Provavelmente não terão lançadores de mísseis e talvez nem mísseis. Não terão marinha.”
Um Irão neutralizado teria também implicações geopolíticas mais amplas. Privaria a Rússia e a China do terceiro membro do seu eixo antiocidental. Poderia igualmente abrandar o fluxo de drones e mísseis para o esforço militar russo na Ucrânia.
O peso das lições da história
Ainda assim, até o exercício de traçar cenários positivos para o Irão ignora a maldição da política externa norte-americana do pós-Segunda Guerra Mundial. O que parece lógico e até provável dentro da Ala Oeste pode definhar em contacto com a realidade do Médio Oriente.
Washington apresentou inúmeras novas estratégias para finalmente vencer a guerra no Afeganistão e aumentos de tropas para conter a insurgência no Iraque. Ainda assim, os EUA saíram derrotados desses conflitos.
Ironicamente, o próprio Trump tocou nesse fracasso durante a primeira viagem internacional do seu segundo mandato, na Arábia Saudita.
“Os chamados ‘construtores de nações’ destruíram muito mais nações do que construíram — e os intervencionistas estavam a intervir em sociedades complexas que nem sequer compreendiam”, disse Trump.
Mas Trump poderá estar a incorrer numa falha diferente de compreensão.
Embora parecesse estar a fazer progressos na negociação de um acordo nuclear com Teerão, nunca ofereceu a Khamenei uma saída honrosa. Em vez disso, exigiu capitulação total. E investiu tanto do seu próprio prestígio nas negociações que deixou a si próprio poucas alternativas além de impor as suas linhas vermelhas ou perder credibilidade global.
Trump disse ao Jake Tapper, da CNN, na segunda-feira, que os EUA agora pretendiam ajudar os manifestantes a se levantarem. Mas acrescentou: “Neste momento queremos que todos fiquem dentro de casa. Não é seguro lá fora.”
As hipóteses de colapso do regime num Estado repressivo que penetra todos os níveis da sociedade iraniana parecem remotas. E mesmo que os bombardeamentos degradem seriamente as forças de segurança da República Islâmica, estas continuariam a superar em armamento os opositores do regime, que carecem de líderes organizados. O martírio de Khamenei poderá tornar os seus apoiantes de base ainda mais implacáveis do que aqueles que mataram milhares de manifestantes na última revolta contra a teocracia, em dezembro e janeiro.
É sempre difícil prever quando regimes totalitários poderão cair. Mas quanto mais tempo o regime resistir, piores serão as probabilidades de transformação política.
“Da perspetiva iraniana, a sua estratégia mudou”, afirmou Trita Parsi, cofundador do Instituto Quincy para a Política Responsável. “O seu cálculo, a sua métrica de sucesso, não é necessariamente ganhar a guerra. Precisam apenas de chegar o mais perto possível de destruir a presidência de Trump antes de perderem a guerra.”
Um envolvimento prolongado dos EUA no Irão, mesmo que as autoridades americanas prevejam semanas e não meses de ação, exerceria uma intensa pressão política sobre o presidente — que precisa de uma vitória rápida num ano de eleições intercalares.
Uma nova sondagem da CNN mostrou na segunda-feira que quase seis em cada dez norte-americanos desaprovam a decisão de Trump de recorrer à ação militar no Irão. Embora a maioria dos republicanos o apoie, isso poderá mudar numa crise subsequente — por exemplo, se choques petrolíferos fizerem disparar a inflação interna. A decisão do presidente de não procurar autorização do Congresso para o conflito, e a sua recusa em explicá-lo para além de forma superficial, poderão voltar-se contra si.
A história moderna dos Estados Unidos mostra que as guerras não fracassam apenas nos campos de batalha estrangeiros. Muitas vezes são igualmente perdidas na opinião pública interna.
E, ao contrário do que assegurou Hegseth, ninguém pode ainda saber como esta terminará.