“A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, escola de natação.” A frase, retirada do diário de Franz Kafka a 2 de agosto de 1914, diz quase tudo sobre a modernidade política: o colapso do mundo e a persistência do quotidiano. Sem o querer, Kafka serviu um chá a Thomas Hobbes.
Ambos perceberam, cada um à sua maneira, que a condição humana tem qualquer coisa de belicosa, caótica e instável. O que chamamos de “Ordem Internacional” nunca poderia nascer de uma natureza inocente. E piora quando os que decidem a guerra raramente a travam com os próprios esqueletos.
Se o “Homem é o lobo do Homem”, como escreveu Hobbes, então a paz exige um polícia. É aqui que entra o Direito Internacional (Público).
O problema é que o Direito Internacional, para vigorar, precisa de instituições multilaterais que o tornem vinculativo — a ONU, os tribunais internacionais, os mecanismos de arbitragem — e necessita de uma potência capaz de o fazer respeitar. Voltamos, portanto, ao ponto inicial: é preciso um polícia.
Desde a II Guerra Mundial até ao fim da Guerra Fria, esse polícia foi, em larga medida, os Estados Unidos. Com todas as suas ambiguidades, serviram de garante da estabilidade internacional porque, apesar de flutuações geopolíticas, interesses económicos e incoerências estratégicas, estavam genericamente alinhados com a expansão da democracia liberal e dos valores que ela procurou traduzir no Direito Internacional.
Foi esse o preço que o Ocidente aceitou pagar. Todos, menos os pós-modernistas, que, lendo a ação americana como neocolonialismo puro, decidiram que o mal do mundo residia em Washington e passaram a confundir potências revisionistas com oprimidos históricos. Uma puerilidade que quase se perdoaria, não fosse também perigosa.
Entretanto, duas outras potências foram espreitando nas sombras. A Rússia, sempre imperial na vocação, banhada em nostalgia, ressentimento e sentido de missão antiliberal. E a China, mais prudente e pragmática, interessada em enriquecer no intervalo das hesitações do Ocidente, esse Ocidente que teve diante de si a hipótese de um “fim da História” e preferiu desperdiçá-la.
É aqui que entra o Irão. Um Estado teocrático que resulta, em boa parte, da interferência anglo-americana de 1953, com a Operação Ajax a derrubar Mossadegh, primeiro-ministro legitimamente eleito, abrindo caminho a um ressentimento anti-imperialista que mais tarde seria canalizado pela Revolução Iraniana de 1979.
O que hoje vemos já não é apenas o prolongamento histórico dessa fratura: é a sua combustão aberta. Desde 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel abriram uma guerra direta contra o Irão, com ataques a instalações nucleares, militares e energéticas; Teerão respondeu contra Israel, bases ocidentais e infraestruturas críticas no Golfo; e o Estreito de Ormuz passou de hipótese estratégica a gargalo efetivo da economia mundial. O regime teocrático, antiocidental e ideológico continua o mesmo; o que mudou foi a escala do incêndio.
Teoria dos Tabuleiros Instáveis
Imagine quatro tabuleiros assentes sobre uma bola, oscilando ao sabor do vento. Estão próximos uns dos outros. Sobre cada um há copos com líquido, que se vão entornando de uns para os outros, até escorrer para o tabuleiro do meio. Três desses tabuleiros chamam-se “EUA”, “Rússia” e “China”. O do centro chama-se “Irão”.
Mais do que um jogador plenamente autónomo, o Irão funciona como palco de projeção estratégica das grandes potências. É o espaço onde os outros jogam poder, contenção, influência e sobrevivência.
É isto, em síntese, que proponho: perante a leitura de Donald Trump sobre a ameaça geoestratégica representada por um Irão em condições de se afirmar como potência nuclear, o país deixou de ser apenas o tabuleiro central onde os superagentes testam o seu lugar no mundo; tornou-se o lugar onde a nova ordem global já começou a testar a sua própria gramática de violência.
Os Estados Unidos, através do que se pode chamar uma doutrina trumpiana de unilateralismo transacional, nacionalismo económico e improvisação estratégica, entendem legítima a sua intervenção na região. Essa intervenção assenta num tripé.
Primeiro, a centralidade de Israel enquanto aliado estratégico decisivo dos EUA no Médio Oriente, num contexto em que a convergência entre a Administração Trump e a linha dura de Netanyahu se tornou menos tática do que orgânica, com os EUA a passarem a ser um proxy da doutrina preventiva-agressiva de Israel.
Segundo, a centralidade do Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte decisiva dos fluxos globais de petróleo e gás, esse ouro negro que continua a mover a economia internacional e a financiar guerras. Os últimos dias provaram, de forma brutal, que uma interrupção séria daquele corredor basta para perturbar preços, reservas estratégicas, alianças e calendários eleitorais em continentes inteiros.
Terceiro, a necessidade de bloquear ou conter a consolidação de interesses militares e económicos russos e chineses no Irão. Mas também aqui a realidade ficou mais cínica do que a teoria: enquanto Washington fala em esmagar o problema iraniano, é obrigado a recorrer às reservas petrolíferas estratégicas e a autorizar temporariamente a venda de crude iraniano já carregado em navios para conter os preços. O império continua a agir como polícia; mas o polícia já depende do mercado do suspeito.
Neste quadro, o vocabulário do “prelúdio” tornou-se insuficiente. Não estamos ainda perante uma III Guerra Mundial em sentido formal, mas já estamos perante uma guerra regional com efeitos sistémicos globais, tão deslocalizada quanto possível para fora do Ocidente, mas suficientemente densa para afetar energia, comércio, alianças militares, mercados financeiros e a hierarquia das guerras que o mundo escolhe ver.
A escala dessa guerra dependerá de dois fatores. O primeiro é o alargamento retaliatório do conflito por parte do Irão, caso procure demonstrar força atacando mais países ou interesses regionais. Esse alargamento já começou a ensaiar-se na forma de ataques e ameaças que extravasam o binómio Irão-Israel e atingem o Golfo, bases ocidentais e cadeias logísticas inteiras. O segundo é a capacidade de derrama deste conflito sobre a guerra da Ucrânia e, por extensão, sobre a arquitetura global de segurança. Também aqui a derrama já se começa a fazer sentir: as conversações sobre a Ucrânia foram empurradas para segundo plano, a Rússia beneficia da alta energética, e Kiev é forçada a disputar atenção estratégica com uma nova frente que reordena prioridades em Washington e na Europa.
Entretanto, o Direito Internacional está por um fio. Tornou-se quase um vestígio histórico de uma ordem mundial imperfeita, mas ainda assim a mais próxima que tivemos de uma certa ideia de normatividade e progresso. O próprio Conselho Europeu já fala em “desescalada”, “respeito integral pelo direito internacional” e até numa moratória sobre ataques a infraestruturas energéticas e hídricas, o que, sendo necessário, também mostra o grau de regressão a que chegámos: o horizonte mínimo já não é a paz justa, é evitar o colapso civilizacional dos serviços básicos.
Nesse contexto, a Rússia ganha espaço para reforçar a sua narrativa de legitimidade estratégica na Ucrânia, escudando-se na velha tese da ameaça identitária e militar da NATO. E ganha ainda algo mais prosaico, mas decisivo: tempo, preço e distração. Enquanto o petróleo sobe e os olhos do mundo descem para o Golfo, a frente de Donetsk continua a moer o real, a ponto das autoridades ucranianas iniciaram a evacuação obrigatória de crianças de certas zonas de Sloviansk.
E a Europa, por seu lado, é forçada a abandonar a paz confortável do Welfare State e a readmitir aquilo que julgava ultrapassado: o nuclear, a economia de guerra e a razão da força. Mas não o faz como sujeito geopolítico inteiro; fá-lo como espaço dividido entre a linguagem jurídica da contenção, a dependência militar dos Estados Unidos e a vulnerabilidade económica a tudo o que sucede entre Ormuz e o Donbass.
E a China? A China pode muito bem ser a grande vencedora relativa deste processo. Tem um cálculo económico, frio e paciente. Mesmo que Washington consiga degradar profundamente a capacidade militar iraniana e reabrir Ormuz, Pequim continuará, muito provavelmente, a beneficiar da reorganização da economia global. Enquanto Washington sonha com um regresso impossível à autossuficiência industrial, a China consolida-se como potência sistémica da interdependência. Não por virtude, mas por posição: continua a ser o grande absorvedor de fluxos, cadeias e descontos, incluindo, quando possível, os do petróleo iraniano que o próprio Washington agora flexibiliza para impedir que os preços se tornem politicamente intoleráveis.
Os próximos passos não são claros. Mas para aqueles que ainda querem a paz e o desarmamento nuclear, talvez seja tempo de redesenhar as ambições. Na melhor das hipóteses, poderemos regressar a uma paz desconfiada.
Paradoxalmente, a economia continua a ser, ao mesmo tempo, o nosso travão e a nossa armadilha. A interdependência não aboliu a guerra; apenas distribuiu os seus custos por portos, refinarias, cadeias de abastecimento, bolsas e eleições. Mas se isso pode ainda servir de racional para os EUA, para a Europa e até para a China, resta saber se, no derradeiro momento, Putin estará disposto a abandonar a construção do seu legado para aceitar a lógica menor, mas racional, de uma paz negociada. Até agora, nada na evolução recente da frente ucraniana obriga a esse otimismo, e a disponibilidade para “trocar” o Irão pela Ucrânia é prova do seu cinismo e insistência ideológica.
E enquanto as potências empurram os seus tabuleiros, algures no mundo alguém continua, simplesmente, a ir à escola de natação.
Resta saber até quando.