Também têm dificuldade em ouvir e em seguir os tratamentos. Como são os médicos quando ficam doentes? “Quem passou pela doença é que sabe”

25 set, 09:00
Estetoscópio, médico, medicina. Foto: Christoph Soeder/picture alliance via Getty Images

Não são de ferro, nem intocáveis. Os médicos também ficam doentes. João, Mafalda e Carla despiram a bata, pousaram o estetoscópio e recordaram o período mais difícil das suas vidas

Estamos habituados a ver João Espírito Santo na televisão, a cuidar do sorriso dos outros, irradiando boa disposição, ânimo e pragmatismo. É com esse espírito que, em conversa com a CNN Portugal, revive um dos períodos mais difíceis da sua vida: aquele em que teve de parar de ser médico para se entregar nas mãos de colegas e tratar da sua própria doença.

Fui um médico doente que soube parar, me soube tratar, soube confiar”, resume.

Mas recuemos ainda mais no tempo. A história de João começa a 26 de outubro de 2019. Ainda não eram seis da tarde e o dentista e cirurgião oral dirigia-se para uma missa de sétimo dia quando sofreu um violento acidente, que o deixou em coma e com prognóstico muito reservado durante 13 dias. Quando acordou, tinha a mão direita seriamente comprometida. Disseram-lhe que não sabiam se ia recuperar, se ia poder continuar a trabalhar.

“Sou um bom doente. Rodeei-me de bons profissionais. Sou um defensor acérrimo do Sistema Nacional de Saúde, embora tenha feito a reabilitação da minha mão num misto entre o público e privado. Entreguei-me, por completo, nas mãos dos meus colegas. Sou um doente que, se acredito, vou de olhos fechados. Foi assim na medicina física e de reabilitação e foi assim na neurocirurgia e na cirurgia plástica”, garante.

João Espírito Santo sofreu um acidente de viação que lhe provocou uma lesão neurológica e o deixou com uma dor crónica. (DR)

João Espírito Santo faz questão de repetir várias vezes, ao longo da conversa, os nomes dos médicos que o trataram: o neurologista Pedro Negrão e a cirurgiã plástica Joana Costa. “Criei relações para a vida. Criei nostalgia dos espaços e dos afetos de desconhecidos. Criei amizade com o Miguel Ângelo, o fisioterapeuta, que me pôs a trabalhar. Eu disse-lhe que precisava da minha mão para trabalhar e ele, ao fim de três meses, pôs-me de bisturi na mão a operar”, recorda.

Uma dor “para a vida toda”

Mas o acidente deixou marcas para a vida no doutor João. “Fiquei com uma lesão que se chama neuroma. Uma dor contínua, atípica, que nos deixa completamente desequilibrados. Estive dois anos sem conseguir dormir para o lado esquerdo e, quando me tocavam no ombro, doía-me uma orelha, quando me tocavam numa orelha doía-me um ombro. Profundamente incapacitante”, descreve.

João ouviu da boca dos colegas que a lesão era “irreversível e para a vida toda”. “Quando nos dizem que a nossa situação é difícil e não tem solução, temos de saber ouvir. Tal como pedimos aos nossos doentes que saibam ouvir quando lhes traçamos o diagnóstico. Isso é fundamental.”

Hoje em dia, estou bem. Aprendi a gerir a dor e vivo com ela todo o dia. Para muitas pessoas, se calhar, seria incapacitante. Para mim já não é.”

A “angústia” do diagnóstico

Mafalda Guimarães, médica de medicina interna, estava habituada a receber doentes oncológicos “quase em estado paliativo”. Conhecia bem a doença e o que ela pode fazer ao organismo. Aos 44 anos, “quase 45”, foi diagnosticada com cancro da mama já com metastização ganglionar.

Soube imediatamente que “não era bom” só de olhar para a cara da colega que lhe estava a fazer a mamografia. O nódulo que sentia e que tinha desvalorizado tinha um nome que não queria pronunciar. “Não acreditei. Foi uma sensação de desespero. Põe-se tudo em causa. Tinha dois filhos pequenos. Foi uma sensação de angústia. Porquê eu? O que fiz de mal? Não havia nenhum fator de risco… Durante muito tempo, não houve um dia  em que não chorasse”, confessa, acrescentando que “o maior período de ansiedade é aquele mês entre o diagnóstico e o início dos tratamentos”.

Mafalda Guimarães estava prestes a completar 45 anos, quando foi diagnosticada com cancro de mama. (DR)

Mafalda conhecia bem demais o inimigo com quem estava a lidar. E isso não lhe amenizou os pensamentos.

Percebi perfeitamente o que os doentes sentem. A sensação de não ouvir nada do que os médicos dizem é uma realidade. Eles falam e nós sentimo-nos fora dali”, relata.

Por isso mesmo, tomou a opção de ir sempre acompanhada às consultas: “eu não ouvia o que o médico me dizia.”

Aqui, “sou só médica”

Mafalda trabalha no Hospital de Cascais. Preferiu não ser tratada pelos colegas com quem lidava diariamente. “Aqui, queria ser vista como médica e não como doente. Depois, ficam sempre memórias dos tratamentos e da quimioterapia, que eu não queria associar ao local para onde tenho de ir todos os dias”, explica.

Foi seguida na Fundação Champalimaud, porque houve uma “reconhecida identificação com a equipa”.

“O passo seguinte é comportarmo-nos como doentes e não como médicos”, resume Mafalda, embora reconheça que nem sempre foi capaz de separar as águas. “Participei num ensaio clínico. As consultas neste âmbito são mais exigentes em termos de registos, por exemplo. Tenho a certeza de que se não fosse médica teria sido uma doente muito mais certinha”.

João Espírito Santo lembra que, durante dois anos e meio, não conseguiu pôr um filho às cavalitas. Hoje, já o consegue fazer. O processo que o conduziu até aqui exigiu de si “muita confiança nos médicos e muita força mental”.

“Nós, como doentes, se formos disciplinados e se colaborarmos, fazemos parte da solução”, alerta.

A vantagem de ser médico

Ser profissional de saúde pode também ser uma vantagem quando se fica doente. O conhecimento, dizem os protagonistas das histórias que ouvimos, permite fazer melhores escolhas e encarar os cenários com outra garra.

“A vantagem que um profissional de saúde tem perante uma patologia é o seu psicológico. Se é uma pessoa proactiva que vai à procura da solução, é mais fácil de encarar os tratamentos”, João Espírito Santo.

O médico dentista lembra que, por serem profissionais de saúde, quando ficam doentes, têm “de dar o exemplo”. “Temos de ser colaborantes e compreensivos, porque o sistema também tem falhas e quando falha temos de ser tolerantes”, lança, em jeito de apelo.

“Dizem sempre que os médicos são os piores doentes, porque nem sempre cumprem. Já me aconteceu esquecer-me da consulta. O que eu até considero que é bom, é sinal de que já não temos aquele pensamento ruminante que nos domina”, acrescenta Mafalda.

Carla Rama é psicóloga e também ela passou por um delicado problema de saúde que prefere não especificar. Em conversa com a CNN Portugal, lembra a importância de reconhecer fragilidades e de procurar ajuda. Ela própria o fez:

Procurei diferentes áreas, para obter apoio, nutrição, psiquiatra (precisava de uma alternativa que me ajudasse a descansar e que não fosse de difícil desmame). Não queria tomar uma benzodiazepina, que devemos evitar por várias razões. Felizmente encontrei um psiquiatra muito sensato que me medicou com melatonina, que não cria nenhuma dependência.”

Na altura, fez também psicoterapia, que foi fundamental no processo de tratamento. E quando já estava curada, sublinha, foi “muito importante” a última sessão de psicoterapia: “Ajudou a fechar muitos assuntos na minha mente”.

Quando a dor não é só física

Também Mafalda Guimarães recorreu a apoio psicológico, mas já depois de terminados os tratamentos. “Enquanto eles duram, sentimos que estamos a fazer qualquer coisa. Quando paramos, é que cai a ficha. Deixamos de andar na roda viva de consultas e hospitais e temos tempo para pensar e pôr tudo em causa e surgem questões como ‘o que fiz de errado?’, ‘será que fiz a vigilância de forma correta?’”.

Até procurar um profissional de saúde mental, Mafalda encontrou suporte nos seus pares, os outros doentes. “Até para coisas muito práticas. Os médicos explicavam alguns efeitos da quimioterapia, mas havia muita coisa que escapava. Por isso é que a partilha entre pares é importante. Há coisas que só falando com outros doentes. Quem passou pela doença é que sabe”, defende.

Mafalda Guimarães faz questão de falar da doença no presente: "eu sou doente oncológica". (DR)

João Espírito Santo não contém as lágrimas quando recorda o dia em que se viu sozinho, no corredor que leva ao bloco operatório. Estávamos em plena pandemia e a solidão assolava-nos a todos. “É muito duro estar sozinho no corredor para entrar para o bloco operatório e pedir ao médico: ´Liga à minha mulher!´. Nós médicos também somos sensíveis. Vamos à procura da solução, mas também choramos. E a dor é muito maior do que a dor física”, admite.

Carla Rama reconhece que há alguma relutância dos profissionais de saúde em procurar ajuda nos colegas da saúde mental. “É mais comum procurarem ajuda de psiquiatria e só pensam procurar ajuda psicológica como segunda ou terceira alternativa. Por vezes, nem a levam adiante. Isto tem a ver com uma cultura que é preciso mudar”, defende.

A psicóloga constata que “os médicos procuram não demonstrar as suas emoções porque receiam que os doentes deixem de confiar em si enquanto profissionais”, mas alerta: “Também são pessoas com emoções e com organismos que reagem ao seu estado psicológico e emocional”.

Ao contrário de Mafalda e de Carla, João não chegou a precisar da ajuda de profissionais de saúde mental. “Procurei ajuda dentro do meu núcleo duro, a falar com os meus filhos e a minha mulher.”

O "lembrete"

João encara a dor crónica com que ainda convive com a dureza que reconhecemos às gentes do Norte. “Prefiro tratar de mim com medicinas complementares e não quero ser medicado”.

Não deixou o trabalho enquanto duraram os tratamentos de fisioterapia. “Parei de exercer, mas ia diariamente à clínica. Ver doente e falar com colegas”, recorda.

Mas, na conversa com a CNN Portugal, defende que se deve saber parar e apostar todas as fichas no tratamento. “Parei inicialmente um ano, depois voltei a trabalhar, e parei mais recentemente mais sete meses. O que é um ano na nossa vida?.”

Mafalda fez mais do que isso. Parou durante os tratamentos e abrandou o ritmo de vida. Recorda a estranheza dos filhos quando começaram a vê-la em casa todos os dias à noite. Eles que sempre se habituaram às ausências da mãe em dois ou três serões da semana.

Quando regressei ao trabalho, depois dos tratamentos, eles temeram que eu voltasse ao que era antes. Há uma mudança na nossa vida e começamos a ver as coisas noutra perspetiva. O trabalho é importante, mas a família é muito mais”, revela.

Mafalda Guimarães reconhece também que as suas capacidades físicas não são agora as que eram antes do diagnóstico. Por isso, não hesitou em ajustar agora a sua atividade a essas mesmas capacidades.

Mafalda faz cinco anos de diagnóstico no dia 4 de outubro. Não diz “fui doente oncológica”. “Eu sou doente oncológica”. Sabe que o cancro pode voltar e esse pensamento obriga-a a estar tão atenta à própria saúde como está à dos seus doentes.

E, para não entrar “em piloto automático” e retomar o ritmo de vida pré-doença, que a fazia colocar em segundo plano a família e a própria saúde, vai fazer uma tatuagem “simples e discreta”, mas que vai funcionar como “lembrete”.

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