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Ana Ramos, psicóloga clínica e fundadora do podcast Princípio Ativo

Boa medicina sem empatia é, muitas vezes, uma má experiência 

6 jul, 16:45
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Há uma dimensão dos cuidados de saúde que continua fora do debate público: a forma como as pessoas são tratadas dentro do sistema. 

Falamos (e bem!) de tempos de espera, falta de profissionais, financiamento ou inovação tecnológica. Mas raramente discutimos a qualidade da relação entre quem cuida e quem é cuidado. Como se essa dimensão fosse secundária. Ou, no limite, irrelevante.  

Não é. 

A experiência de doença é profundamente marcada pela forma como os profissionais de saúde se relacionam com as pessoas. Não apenas pelo que fazem, mas por como o fazem. Há consultas tecnicamente irrepreensíveis que deixaram marcas negativas duradouras. E há gestos simples, uma pergunta feita com tempo, uma escuta genuína, um reconhecimento da pessoa para além do diagnóstico, que mudaram completamente a forma como a doença foi vivida. 

Isto não é um detalhe. É parte integrante da qualidade dos cuidados. 

A evidência científica tem vindo a confirmar aquilo que a experiência há muito sugere: a empatia está associada a melhores níveis de satisfação, maior adesão ao tratamento e melhores resultados em saúde. Ainda assim, continua a ser tratada como uma característica desejável, mas não essencial. Talvez porque é difícil de medir. 

Pode ser difícil de medir. Não encaixa facilmente em indicadores. E obriga a repensar o próprio conceito de “boa prática clínica”. 

Mas ignorá-la não a torna menos relevante. 

Num sistema de saúde sob pressão, é precisamente aquilo que parece menos prioritário que pode ter maior impacto na experiência das pessoas. Continuar a tratar a empatia como um “extra” é perpetuar uma visão incompleta dos cuidados de saúde. 

É neste contexto que se torna cada vez mais importante dar visibilidade a esta dimensão do cuidado, reconhecendo práticas centradas na pessoa e valorizando quem, no terreno, faz a diferença na forma de cuidar. 

Porque, se queremos falar seriamente sobre qualidade em saúde, talvez seja tempo de incluir aquilo que, sendo menos mensurável, não é por isso menos determinante. 

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