Há uma dimensão dos cuidados de saúde que continua fora do debate público: a forma como as pessoas são tratadas dentro do sistema.
Falamos (e bem!) de tempos de espera, falta de profissionais, financiamento ou inovação tecnológica. Mas raramente discutimos a qualidade da relação entre quem cuida e quem é cuidado. Como se essa dimensão fosse secundária. Ou, no limite, irrelevante.
Não é.
A experiência de doença é profundamente marcada pela forma como os profissionais de saúde se relacionam com as pessoas. Não apenas pelo que fazem, mas por como o fazem. Há consultas tecnicamente irrepreensíveis que deixaram marcas negativas duradouras. E há gestos simples, uma pergunta feita com tempo, uma escuta genuína, um reconhecimento da pessoa para além do diagnóstico, que mudaram completamente a forma como a doença foi vivida.
Isto não é um detalhe. É parte integrante da qualidade dos cuidados.
A evidência científica tem vindo a confirmar aquilo que a experiência há muito sugere: a empatia está associada a melhores níveis de satisfação, maior adesão ao tratamento e melhores resultados em saúde. Ainda assim, continua a ser tratada como uma característica desejável, mas não essencial. Talvez porque é difícil de medir.
Pode ser difícil de medir. Não encaixa facilmente em indicadores. E obriga a repensar o próprio conceito de “boa prática clínica”.
Mas ignorá-la não a torna menos relevante.
Num sistema de saúde sob pressão, é precisamente aquilo que parece menos prioritário que pode ter maior impacto na experiência das pessoas. Continuar a tratar a empatia como um “extra” é perpetuar uma visão incompleta dos cuidados de saúde.
É neste contexto que se torna cada vez mais importante dar visibilidade a esta dimensão do cuidado, reconhecendo práticas centradas na pessoa e valorizando quem, no terreno, faz a diferença na forma de cuidar.
Porque, se queremos falar seriamente sobre qualidade em saúde, talvez seja tempo de incluir aquilo que, sendo menos mensurável, não é por isso menos determinante.
