As ULS integram hospitais e centros de saúde debaixo de uma única gestão
A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) avalia os quase dois anos de expansão das Unidades Locais de Saúde (ULS) como “acidentados” num país onde as assimetrias criaram integração de cuidados “muito diferente nos vários locais”.
“É impossível fazer um balanço global [destes dois anos] porque há muitas diferenças de unidade para unidade. Já se esperava que isso acontecesse. As realidades são muito distintas. Começa logo porque a nossa cobertura por médicos de família é muito assimétrica. Só isso provoca uma integração muito diferente nos vários locais”, avaliou o presidente da APMGF.
Em entrevista à Lusa, nas vésperas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) completar dois anos de cobertura nacional em modelo de ULS, Nuno Jacinto lembrou o grande receio dos cuidados de saúde primários quando esta reforma foi anunciada, de serem engolidos pelos cuidados hospitalares, e é direto.
“Em alguns sítios isso foi evitado, em outros não. As dificuldades não são iguais. Em muitos locais não se terá provado o benefício deste novo modelo de funcionamento e até pode haver situações que ficaram mais complicadas do que antes, nomeadamente a nível de gestão de processos internos, aprovisionamento, recursos humanos, sistemas de informação. Em outros, efetivamente, terá havido ganhos e melhorias” processos”, descreveu.
Num diagnóstico por regiões, sem entrar em casos concretos, Nuno Jacinto apontou que “em Lisboa e Vale do Tejo, onde a cobertura por médico de família é menor, tem havido, obviamente, muito mais dificuldades”.
Mas o sentido oposto não é totalmente óbvio: “Por outro lado, na região Norte, sabíamos que devido a uma estrutura já forte dos cuidados de saúde primários, muitos procedimentos administrativos, de aprovisionamento de recursos humanos, burocráticos já estavam mais afinados e com a passagem para o ULS essas dificuldades acentuaram-se”.
E o presidente da APMGF acrescentou à lista de assimetrias uma terceira realidade: “Nas ULS universitárias, que são muito grandes, há maiores dificuldades e, portanto uma USF [Unidade de Saúde Familiar] ou uma UCSP [Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados] fica claramente mais perdida no meio de toda essa instituição do que ficará, por exemplo, numa ULS do Alentejo ou de Trás-os-Montes”.
Sublinhando que o balanço não pode ser homogéneo, Nuno Jacinto tem uma certeza: “As dificuldades podem estar relacionadas com as realidades locais, mas o país tem de encontrar um caminho independentemente de ciclos políticos”.
Portugal ficou desde 01 de janeiro de 2024 inteiramente coberto por 39 ULS, numa reorganização anunciada como tendo por objetivo facilitar o acesso das pessoas e a sua circulação entre os centros de saúde e os hospitais.
As ULS integram hospitais e centros de saúde debaixo de uma única gestão.
Paralelamente desapareceram as Administrações Regionais de Saúde.
Neste período a Direção-Executiva do SNS teve três diretores executivos e o país diferentes legislaturas.
“Umas das coisas que na associação repetimos insistentemente é que precisamos de um rumo. Já não digo para o longo prazo, mas pelo menos no curto e no médio prazo. Precisamos de alguma constância. Dissemos desde o início que as ULS, no ponto de vista teórico, têm as suas virtudes. Mas são precisas orientações, acompanhamento, algumas balizas e, paradoxalmente, uma maior autonomia por parte de cada conselho de administração, precisamente para poder dar este papel de relevo, quer aos cuidados de saúde primários, quer aos cuidados hospitalares”, analisa Nuno Jacinto.
Conselhos de administração “sem autonomia para coisas básicas”, planos de desenvolvimento e organização que “tardam a ser aprovados”, mapas de pessoal “por aprovar ou desatualizados” são, para a APMGF, “só algumas das enormes dificuldades na gestão”, algo que “obviamente desanima aos profissionais”, acrescentou.
“Não há um acompanhamento real. Vão havendo algumas coisas dispersas, mas não há um momento em que nos sentemos todos e se pergunte: ‘então nos vossos locais quais são as vossas dificuldades?’”, disse Nuno Jacinto, deixando um desafio.
“Vamos parar um bocadinho, sentar-nos à mesma mesa, se for preciso até durante vários dias. Todos: tutela, conselhos de administração, profissionais e responder ‘o que é que é importante? O que é que é preciso para resolver isto?’. Não podemos andar sempre a correr e a inventar soluções em cima do joelho, a criar medidas desconexas umas das outras”, concluiu.
Administradores hospitalares dizem que modelo melhorou mas faltam “coisas básicas” nas ULS
A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) acredita que a integração dos cuidados entre os centros de saúde e os hospitais melhorou com o modelo de Unidades Locais de Saúde (ULS), mas “ainda falta muita coisa e coisas básicas”.
“Falta, essencialmente, integração clínica. Em muitos hospitais as equipas ainda não trabalham de forma articulada. Faltam incentivos alinhados, as equipas têm que ter um conjunto de incentivos que partilhem. Faltam coisas estruturais básicas, como regulamentos. A grande parte das ULS não tem sequer um regulamento aprovado. O regulamento que decide qual é a estrutura de gestão, como é que nós nos articulamos”, enumerou à Lusa o presidente da direção da APAH, Xavier Barreto.
Numa entrevista por ocasião dos dois anos de expansão do modelo de ULS a todo o território nacional, Xavier Barreto reafirmou que a convicção de que “as ULS são um instrumento para se fazer a integração de cuidados, mas advertiu: “Não são um fim em si mesmas e muitas pessoas confundem isto”.
“Diria que hoje estamos melhor do que estávamos há dois anos e creio que essa é a perceção generalizada dos trabalhadores da saúde das ULS, quer nos cuidados hospitalares, quer nos cuidados primários. Mas, naturalmente, há um longo caminho para fazer”, analisou o presidente da APAH.
Regressando ao que permanece em falta, Xavier Barreto considerou “incompreensível” que “muitas” das 39 ULS que existem no país não tenham “em dois anos” regulamentos aprovados, uma responsabilidade da tutela a quem cabe também dar aos conselhos de administração a autonomia tão ambicionada.
“Os governos têm falado sempre de autonomia e da importância da autonomia para as administrações poderem tomar decisões importantes também para a integração de cuidados. Tudo isso é fundamental para a gestão do SNS, das suas ULS e, infelizmente, nós estamos a terminar mais um ano e, mais uma vez, os hospitais continuam sem qualquer tipo de autonomia”, afirmou Xavier Barreto.
Desde 01 de janeiro de 2024 que Portugal passou a estar inteiramente coberto por ULS, num total de 39.
A reorganização foi anunciada como tendo por objetivo facilitar o acesso das pessoas e a sua circulação entre os centros de saúde e os hospitais já que estas estruturas respondem agora a uma única gestão. Paralelamente desapareceram as Administrações Regionais de Saúde (ARS).
Nestes quase dois anos, a Direção-Executiva do SNS teve três diretores executivos e o país vai na terceira legislatura.
Recordando que o início das ULS “foi muito difícil” e considerando que o processo de extinção das Administrações Regionais de Saúde “foi complexo e em alguns casos até caótico, pouco planeado”, Xavier Barreto disse que “existem coisas que poderiam estar feitas”.
“Durante muitos meses o governo alimentou a ideia de que não se sabia exatamente se as ULS se iam manter ou se seriam extintas e a reforma revertida. Esta indefinição atrasou o processo”, resume o presidente da APAH.
Neste momento, defendeu Xavier Barreto, esperava-se que os centros de saúde, os hospitais e até mesmo a área social, os municípios, as associações de doentes, as farmácias e o setor privado pudessem articular-se em rede, pudessem partilhar informação, tivessem um único processo clínico e eletrónico.
“Mas ainda não têm, como infelizmente se viu por casos recentes em que essa troca de informação, essa partilha de informação falhou. Em causa está definir um percurso para os doentes. Estamos muito longe disso. Muito longe”, referiu.
Para a APAH “falta um impulso maior para criar equipas multidisciplinares que discutam qual é o melhor percurso para os doentes, como é que se consensualiza o diagnóstico, o tratamento e acompanhamento dos doentes”.
“As ULS favorecem isto porque estão a gerir de forma integrada centros de saúde e hospitais. Favorecem, mas não quer dizer que o garantam. Falta muita coisa, mas apesar de tudo, acho que estamos melhor hoje do que estávamos há dois anos”, concluiu.