Covid-19: Portugal não tem novos medicamentos que travam infeções nos grupos de risco

29 mai, 08:00
Injeção

Segundo os especialistas, há fármacos de anticorpos monoclonais que dão imunidade extra aos doentes de risco, grupo que representa grande parte dos que estão internados nos hospitais. Bastonário dos Médicos garante que o tratamento, já aprovado, está a ser feito em muitos países europeus e avisa: "No nosso país não há nenhum"

O alerta chega dos médicos: numa altura em que Portugal enfrenta milhares de casos de covid-19  e o número de mortes está a aumentar, o país ainda não tem, ao contrário de muitos outros, medicamentos inovadores contra o SARS-CoV-2 destinados às pessoas mais susceptíveis, como idosos, imunodeprimidosdoentes cardíacos e diabéticos, entre outros.

“Ao contrário dos outros países europeus, não há nenhum tratamento com anticorpos monoclonais a ser administrado em Portugal e que é essencial para doentes de maior risco”, alerta o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, em declarações à CNN Portugal, explicando que estes medicamentos ajudam a dar anticorpos às pessoas em que "as vacinas não são suficientes para os desenvolver”. É o caso dos que têm o sistema imunitário comprometido, como os transplantados. “Estes medicamentos servem como uma imunidade extra”, acrescenta, notando que são uma injeção única, que custa 1000 euros por cada tratamento.

São, aliás, estes doentes que continuam, em grande parte, a ser internados nas enfermarias e nos cuidados intensivos dos hospitais. “Não se pode colocar medidas restritivas em toda a população só por causa dos grupos de risco, mas temos de os proteger”, diz por seu lado Filipe Froes, pneumologista que dirigiu o gabinete dedicado à covid-19 que a Ordem dos Médicos criou para lidar com a pandemia.

Segundo o especialista, estes anticorpos monoclonais - injecões intramusculares - servem para prevenir a doença. “Em vários países está a ser dado já a estes doentes de risco. Mas em Portugal, passado tanto tempo, ainda nada está disponível para dar aos nossos doentes e isso afeta os números de casos e mortes”, garante, explicando que estes medicamentos de anticorpos monoclonais são de dois tipos: uns servem para tratar e outros para prevenir. “São mais caros do que as vacinas, mas também só serão para as pessoas que não conseguem ter anticorpos a não ser com esses medicamentos.”

A imunidade extra dada por esta medicação dura seis meses e protege os cidadãos de fatores de risco de certas doenças, como cancro ativo, ou até a idade.

“Estes tratamentos são profilaxia, ou seja, evitam que as pessoas se infetem. São anticorpos específicos produzidos sinteticamente para a proteína Spike que o vírus usa para entrar nas células”, nota José Miguel Azevedo Pereira, professor da Faculdade de Farmácia, explicando que ao serem administrados fazem com que as pessoas adquiram imunidade. “Estes medicamentos são muito eficazes do ponto de vista da replicação do vírus pois atuam do lado de fora da célula”, conclui.

É que, além de serem usados como preventivos, há fármacos à base destes anticorpos monoclonais que servem para tratar. “Aí são dados na fase inicial e evitam que avance para uma situação mais grave”, acrescenta Filipe Froes, garantindo que estes novos medicamentos estão a ser usados em larga escalada nos EUA, Canadá e em vários países da Europa: “Na Alemanha, por exemplo, até há centros só para a administração destes anticorpos.”

"É a minha única esperança"

José Ramos, 65 anos, é cirurgião, mas luta neste momento contra um cancro. "A única esperança que há para mim e muitas, mas muitas, outras pessoas são estes anticorpos monoclonais que estão aprovados pela EMA [Agência Europeia do Medicamento] e recomendados pela Comissão Europeia", diz o médico à CNN Portugal, explicando que, devido ao tratamento que faz, as vacinas não têm qualquer efeito. "A medicação que estou a fazer anula a imunidade das vacinas."

Em causa está um tratamento para a sua doença oncológica. "Levei as duas doses das vacinas e ainda a dose de reforço, mas depois fiz um exame serológico e a minha imunidade é zero", conta, recordando que neste momento, ao contrário de Portugal, há muitos países, como "França, Espanha e Itália", onde estes fármacos estão já a ser usados com sucesso.

"Para imunodeprimidos que não podem tomar a vacina ou para pessoas cuja vacina não dá qualquer imunidade estes medicamentos são a solução", acrescenta, considerando que, numa altura em que a covid-19 voltou a intensificar-se, não faz sentido o país não ter estes medicamentos. "Não posso ir trabalhar, tenho de usar constantemente máscaras. É muito complicado, até em questões de família", relata, garantindo que todos os colegas especialistas nesta área da covid-19 lhe dizem que os anticorpos monoclonais podem ser a solução para casos como o seu. "É a forma de as pessoas de risco, que não podem apanhar a doença, mas também não beneficiam da vacina, conseguirem ter uma vida quase normal."

Segundo confirmou à CNN Portugal a AstraZeneca, o laboratório que comercializa o medicamento com anticorpos monoclonais que pode aumentar a imunidade e evitar a infeção, a medicação ainda não está acessível no país, estando as autoridades de saúde a avaliar a situação. “A combinação de anticorpos monoclonais da AstraZeneca já foi aprovada pela Agência Europeia do Medicamento para profilaxia da covid-19. Neste momento, esta terapêutica ainda não se encontra disponível em Portugal, estando a decorrer contactos com as autoridades de saúde para avaliar a possibilidade de aquisição”, explicou fonte oficial da empresa.

Antivíricos para tratar

Além dos anticorpos monoclonais, há outra medicação a ser usada pelo mundo: os antivíricos para a covid-19, que, segundo aqueles especialistas, também não está ainda a ser usada para tratar “quem não está internado”. “Em Portugal não há medicamentos antivíricos para a fase inicial da infeção que permitem que esta não evolua e necessite de internamento ou se torne doença grave. Mas em muitos outros países estão já a ser usados”, avisa, ainda, Filipe Froes, explicando que se destinam a doentes de risco como maiores de 65 anos, cardíacos, doentes oncológicos, entre outros.

Esta medicação é para ser administrada naqueles que não estão internados, sob prescrição médica. Em Portugal existe um antivírico, que é uma injeção, mas destina-se a doentes já internados “a necessitar de baixo suporte de oxigénio”, nota. No entanto, segundo apurou a CNN Portugal, as autoridades de saúde estão também a avaliar a entrada de um destes medicamentos no mercado.

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