No território mais pobre da União Europeia, a dimensão da tragédia é difícil de apurar devido ao grande número de imigrantes em situação ilegal
Estão a surgir relatos de danos extensos em Mayotte, após um ciclone ter atingido este arquipélago francês pela primeira vez em 90 anos no passado sábado. Um dos habitantes ouvidos pela CNN comparou a destruição a uma bomba atómica. Teme-se que haja centenas, ou mesmo milhares, de vítimas.
“A situação é catastrófica, apocalíptica”, conta Bruno Garcia, dono do Hotel Caribou em Mamoudzou, capital de Mayotte. “Perdemos tudo. O hotel está completamente destruído. Não resta nada. É como se uma bomba atómica tivesse caído em Mayotte”.
Mayotte localiza-se entre Madagáscar e a costa leste de África.
O cyclone Chido, uma tempestade de categoria 4, percorreu o sudeste do Oceano Índico durante o fim de semana, atingindo o norte de Madagáscar, antes de se intensificar. Ao alcançar Mayotte, os ventos estavam acima dos 220 quilómetros por hora.
O Chido seguiu depois para o norte de Moçambique, onde também causou danos, embora tenha, entretanto, perdido força.
Este foi o pior ciclone a atingir o território de Mayotte, com 300 mil habitantes, em pelo menos 90 anos. Arrasou bairros, derrubou redes elétricas, destruiu hospitais e escolas e danificou a torre de controlo do aeroporto.
“Sinceramente, estamos a viver uma tragédia. Sentimo-nos como se estivéssemos no rescaldo de uma guerra nuclear. Vi um bairro inteiro a desaparecer”, conta Mohamed Ishmael, morador em Mamoudzou, à Reuters.
Pelo menos 14 pessoas já foram confirmadas como vítimas mortais pelo ministério do Interior francês. Contudo, espera-se que o número real de mortes seja muito maior. As autoridades locais preveem que o número de vítimas possa ser na escala das centenas, ou mesmo dos milhares.
“Penso que haja centenas de mortos, talvez cheguemos aos mil. Milhares mesmo, dada a violência deste ciclone”, afirmou o autarca de Mayotte, François-Xavier Bieuville. Os piores danos tiveram lugar em habitações com condições precárias.
Bieuville considerou que o número oficial de mortos “não é plausível” quando se olha para estas habitações. “As imagens aéreas do exército francês mostram vilas reduzidas a escombros”.
Estes bairros abrigam muitos dos cerca de 100 mil imigrantes sem documentação que vivem em Mayotte, segundo dados do ministério do Interior de França.
Localizado a cerca de oito mil quilómetros de Paris, Mayotte é o lugar mais pobre da União Europeia, enfrentando problemas de desemprego, violência e uma crise migratória cada vez mais profunda.
Nas últimas décadas, dezenas de milhares de pessoas vindas dos países vizinhos, Comores e Madagáscar, chegaram a Mayotte à procura de melhores condições de vida, incluindo o acesso ao sistema de Estado social francês.
“Foi tudo arrasado”
A extensão dos danos causados pelo ciclone, que destruiu estradas e outras vias de comunicação, bem como a presença de imigrantes sem documentação a viver em habitações precárias, como barracas, dificultam os esforços de busca e salvamento e tornam difícil apurar o verdadeiro número de mortos.
Cerca de dois terços do território da ilha estão inacessíveis, explica Estelle Youssouffa, deputada por Mayotte. “Não devemos confundir as vilas que estão sem comunicação com as favelas, onde as probabilidades de encontrar sobreviventes são reduzidas”.
Antoine Piacenza, que trabalha numa escola em Mamoudzou, conta que muitos dos seus alunos, que são imigrantes sem documentos, escolheram não integrar as ações de evacuação anteriores à tempestade por terem medo de serem apanhados pela polícia.
Nos últimos anos, França enviou milhares de polícias para Mayotte, com o objetivo de deportar imigrantes ilegais e despejá-los das suas habitações ilegais.
Familiares desesperados recorreram às redes sociais para procurar notícias dos seus entes queridos depois da tempestade.
“Não temos eletricidade, não temos água, estamos a viver no escuro há três dias. Passaram-se três dias e não vimos nenhum elemento das equipas de resgate”, conta Fahar, morador em Mamoudzou.
O ministro francês responsável pela área da segurança, Nicolas Daragon, afirmou nas redes sociais, no domingo, que os primeiros aviões militares com ajuda de emergência já tinham aterrado em Mayotte.
Centenas de socorristas, bombeiros e polícias foram enviados pra este território, bem como para a vizinha Ilha da Reunião.
Chad Youyou, a viver em Hamjago, no norte de Mayotte, publicou vídeos no Facebook, onde se viam árvores derrubadas e danos generalizados na aldeia. “Mayotte está destruída. Nós estamos destruídos”.