"O mar pede socorro". Maya Gabeira bateu o recorde da Nazaré, mas agora o desafio é (ainda) maior: "Eu surfo rodeada de plástico"

28 jun, 11:16
Maya Gabeira na Conferência dos Oceanos

Assumidamente apaixonada por Portugal, a surfista brasileira vive na Nazaré há já vários anos. Mas, esta segunda-feira, conduziu uma hora até à Conferência dos Oceanos, em Lisboa, onde foi oficialmente apresentada como embaixadora da Boa Vontade da UNESCO

Foram 22,4 metros de uma onda gigante na Nazaré que lhe valeram um novo recorde mundial. Um marco que ocorreu após a recuperação de um grave acidente que sofreu na mesma praia, em 2013, e que a deixou parada durante quatro anos. Mas, para Maya Gabeira, o desafio agora é ainda maior: a conservação dos mares.

Já venceu um prémio Espy e foi sete vezes campeã da Liga Mundial do Surf. Maya Gabeira é aplaudida como uma das surfistas mais influentes de todos os tempos pela paixão e compromisso demonstrados na proteção dos oceanos. Esta segunda-feira, a surfista brasileira foi apresentada ao público na Conferência dos Oceanos da ONU, em Lisboa, como embaixadora da Boa Vontade da UNESCO.

"É um cargo que traz bastante responsabilidade, mas estou super feliz e muito honrada. E espero fazer a diferença", começa por afirmar, em entrevista à CNN Portugal.

Maya tem sido uma inspiração a nível mundial, sobretudo para os mais jovens. Como surfista, tem uma relação mais umbilical com o mar e, por isso, alerta que os efeitos da ação humana e das mudanças climáticas no oceano já podem ser sentidos na pele por pessoas que passam boa parte das suas vidas dentro de água.

“O mar pede socorro. Nos últimos anos é cada vez mais visível. Eu surfo profissionalmente há 15 anos e visivelmente eu vejo a questão do plástico como essencial. Temos de falar sobre isso e agir agora", alerta, detalhando: "Surfo rodeada de plástico na maioria dos lugares. Vejo muito plástico na praia, na água e todos sabemos que isso só tende a piorar. O plástico não vai a lado nenhum, vai ficar aqui para sempre. E nós só estamos a acrescentar cada vez mais e mais".

A surfista tem mais preocupações em relação aos mares: a pesca ilegal, a sobrepesca e as áreas preservadas serem, de facto, preservadas, são algumas delas.

"Há muitas questões para serem abordadas e acho que o facto de passar o dia dentro de água faz com que eu tenha essa noção e também uma certa responsabilidade - de usufruir daquele espaço. A minha profissão é exercida naquele ambiente. então o que eu tenho profissionalmente vem dali. E não cuidar daquilo e não deixar algo de facto sustentável e saudável para as próximas gerações seria uma loucura", afirma, apelando: "O problema é de todos e a solução só existe se todos nós nos envolvermos."

“É a minha responsabilidade fazer a minha parte. Mas também todos nós. Não é só o surfista que depende do mar, não é só o pescador que depende do mar. Na verdade, todos nós dependemos do mar para a sobrevivência.”

A relação com o mar português e o risco do "sobreturismo" na Nazaré

O mar português não é um estranho para a surfista brasileira. Antes pelo contrário. Maya Gabeira vive em Portugal há vários anos e conhece bem a realidade portuguesa.

"Eu amo Portugal. Moro na Nazaré, então vivo essa cultura de pesca e do surf", afirma a surfista, que acaba por revelar: "Amo o Atlântico apesar de achar que aqui é um pouco frio para mim".

Questionada pela CNN Portugal se a crescente atenção que capta para a Nazaré pode virar-se contra a própria causa que defende, a surfista reflete: "O sobreturismo é sempre um desafio: porque o turismo é importante para a economia e para uma cidade. Mas temos de saber como gerir isso".

"Temos de saber gerir o turismo para que ele não estrague aquilo que exatamente está a fazer o turista - que possamos virar essa chave da extração, destruição e preservação para nós conseguirmos de facto usufruir do que o Oceano nos pode dar, mas de forma a preservá-lo, porque senão ele não tem mais nada para nos dar", alerta.

"Temos de ter essa consciência, mas confesso que não é o turismo que mais me preocupa: é a legislação, novas leis baseadas na ciência, é as grandes corporações começarem de facto a investir o seu dinheiro em soluções, novos materiais, novas tecnologias…", adverte.

"Sinto-me privilegiada por estar num país que está a receber uma conferência como esta, que se preocupa, que tem um presidente que fala com as autoridades sobre o assunto e acho que ainda há muito trabalho a ser feito, mas sinto-me uma sortuda por pegar no carro e conduzir uma hora até uma conferência como esta e fazer parte de um momento importante", conta a surfista.

"É preciso ter muito mais conhecimento do mar e é preciso ter responsabilidade", apela Maya Gabeira.

"Quem toma a decisão tem de olhar para o mundo, para as próximas gerações e para o futuro do planeta. Já acabou a época de se poder extrair, extrair, extrair e só pensar no agora. Estamos a ver que o futuro está lascado. Ou transformamos o presente ou não temos futuro. É inevitável que aconteça uma mudança”, conclui.

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