Alertamos para o conteúdo sensível das imagens | Operação resultou na apreensão de 54 cães
Enjaulados, magros, desnutridos e sem água. A Guarda Nacional Republicana (GNR) identificou Francisco Almeida e a mulher pela alegada prática do crime de maus-tratos a animais de companhia, na sequência de uma operação de fiscalização realizada nos dias 25 e 26 de junho, na localidade de Quinta do Anjo, no concelho de Palmela.
O caso dos cerca de 70 cães de caça investigado pela TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) por alegados maus-tratos conheceu assim um novo desenvolvimento, depois de parte dos animais ter sido, segundo informação apurada pela TVI, transferida de Montemor-o-Novo para Palmela, apesar da operação de resgate anterior que já tinha retirado dezenas de cães daquele primeiro alojamento ilegal.
De acordo com o Comando Territorial de Setúbal da GNR, a fiscalização foi desencadeada após uma denúncia recebida através da Linha SOS Ambiente e Território e contou com o apoio da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), do médico veterinário municipal de Palmela e do Gabinete de Fiscalização da Câmara Municipal.
Da operação resultou a apreensão de 54 cães. Destes, 34 ficaram ao cuidado de instituições de acolhimento, 17 foram entregues a fiel depositário e três foram devolvidos ao legítimo proprietário.

A associação "Quintinha ABC" revelou À TVI que, após a primeira operação realizada em Montemor-o-Novo, acolheu seis cães provenientes da denominada “Matilha do Lavre”, distribuídos entre o seu abrigo e a associação Marradinhas, apesar da falta de espaço. Na sequência da nova intervenção em Palmela, a associação afirma ter voltado a receber 19 animais, incluindo cachorros, uma cadela com a sua cria e cães adultos encaminhados para famílias de acolhimento temporário (FAT).
“Estiveram meia hora a beber água depois de resgatados”, relatou a associação, referindo o estado de desidratação de alguns dos animais no momento do resgate.
A GNR levantou ainda dois autos de notícia por crime de maus-tratos a animais de companhia e dois autos de contraordenação por falta de condições de higiene, bem-estar animal e espaço adequado para o alojamento dos canídeos. Os factos foram comunicados ao Tribunal Judicial da Comarca de Setúbal.

Associações alertam para sobrelotação após novo resgate
A nova operação de resgate voltou a colocar pressão sobre as associações de proteção animal envolvidas no acolhimento dos cães.
Agora, com a intervenção em Palmela, a associação "Quintinha ABC" indica ter recebido 19 animais, incluindo 11 cachorros, uma cadela com a sua cria e seis cães adultos, estes últimos encaminhados para famílias de acolhimento temporário. Ainda assim, refere que alguns animais permanecem no local devido à falta de capacidade de resposta das associações.
Em declarações à TVI, a presidente e fundadora da associação descreve o cenário encontrado como “absolutamente desolador para quem gosta de animais”, sublinhando que alguns dos cães chegaram em estado de grande debilidade física.
“Dos animais recebidos, temos quatro em muito mau estado físico, muito magros e desnutridos. Quando chegaram ao abrigo estiveram mais de meia hora a beber água sem parar. Não havia água no local e o que procuravam era comida e água”, referiu a responsável, ao recordar os dias intensos de calor que se têm vivido.
A associação acrescenta que os animais revelam sinais de privação alimentar prolongada, referindo que alguns “lutam por comida”, o que indica que “não abundavam neste espaço” e que não é possível determinar com exatidão com que regularidade eram alimentados.
Foram ainda descritas condições de alojamento com acumulação de lixo e potenciais riscos para a saúde pública, com os animais a apresentarem elevados níveis de medo, mas também sinais de recuperação gradual com contacto humano.
“São animais que têm muito medo, mas que ainda assim procuram o conforto e a mão humana. A reabilitação é muito difícil, sobretudo nos que vieram de lá”, acrescenta a associação.
A "Quintinha ABC" alerta ainda para a forte pressão sobre as associações envolvidas, sublinhando que continuam a assumir sozinhas grande parte dos custos de recuperação, incluindo cuidados veterinários, internamentos e esterilizações.
“Estamos a falar de animais que precisam de ser vacinados, tratados e esterilizados. Tudo isto fica a cargo da associação e é muito difícil. Precisamos de ajuda para continuar a salvar vidas”, refere a presidente da associação.

Investigação da TVI levou à retirada de dezenas de cães
A investigação da TVI revelou, em maio, que Francisco Almeida mantinha cerca de 70 cães de caça num terreno em Lavre, Montemor-o-novo, onde moradores denunciavam alegadas situações de maus-tratos, excesso de ruído e condições de alojamento consideradas incompatíveis com o bem-estar animal.
As imagens recolhidas mostravam animais confinados em jaulas e caixas de transporte durante longos períodos e deram origem a uma investigação do Ministério Público.
A reportagem revelou também que vários cães eram utilizados como dadores de sangue para o Banco de Sangue Animal (BSA), uma das cinco empresas privadas licenciadas pela DGAV para esta atividade. As colheitas eram realizadas no próprio local onde os animais estavam alojados, situação que levou o banco a suspender a colaboração com o dono da matilha após ser confrontado com as imagens da investigação.
Na sequência das denúncias, o Tribunal de Montemor-o-Novo ordenou a retirada dos animais do terreno, numa operação que envolveu associações de proteção animal e dezenas de voluntários.
O matilheiro Francisco Almeida sempre negou quaisquer maus-tratos, defendendo que os cães eram acompanhados por um médico veterinário e que as lesões observadas em alguns animais resultam da atividade cinegética.
