“Cheias vão provocar stress pós-traumático”. A visão de um especialista em comportamento humano

Agência Lusa , WL
13 dez 2022, 17:09
Um popular observa uma zona coberta por terra levada pela água, no centro histórico de Campo Maior. (Nuno Veiga/Lisboa)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Especialista aponta que 14 a 20% das pessoas atingidas por episódios de mau tempo podem desenvolver stress pós-traumático

O especialista em comportamento humano José Manuel Palma alerta para o impacto psicológico das cheias e inundações, antecipando “uma percentagem muito elevada de pessoas com stress pós-traumático e com episódios de stress agudo”.

Os desastres naturais causam stress psicológico, apesar de haver quem ache que perder um carro é só uma chatice, aponta.

“Mesmo as pessoas que não perdem objetivamente nada podem ter stress. Aquelas que perdem ainda têm mais”, indica.

Apoiando-se em estudos sobre desastres naturais, sobretudo nos Estados Unidos, o especialista refere que “cerca de 14 a 20% das pessoas atingidas por estes episódios podem desenvolver, e desenvolveram, stress pós-traumático, para além de formas mais mitigadas de stress”.

José Manuel Palma avisa que “as implicações disto para o sofrimento humano e para as perturbações psicológicas e comportamentais são muito grandes” e, portanto, a reflexão em torno destes acontecimentos deve ir além da “questão dos buracos” que se vai ou não fazer nas cidades.

“Estamos a falar de sofrimento humano, de consequências de stress pós-traumático que podem acompanhar uma pessoa por quase toda a sua vida”, recorda este professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e antigo presidente da associação ambientalista Quercus.

Ora, assinala, nem Lisboa nem Portugal estão preparados para lidar com esse impacto.

“De modo nenhum. Não está preparada Lisboa, nem Portugal”, o que é visível, desde logo, “pelo espírito de segurança” em vigor.

José Manuel Palma critica o teor das mensagens enviadas pela Proteção Civil, que não indicam como se deve proceder.

“Não posso mandar um aviso sem dizer o que é que devo fazer. Ou seja, não basta dizer ‘ah e tal, vai chover muito’. Então e que quer dizer? Quer dizer que vou ao trabalho? Como é que eu devo funcionar?”, exemplifica.

Essas indicações concretas sobre o que fazer são “absolutamente fundamentais”, do ponto de vista da psicologia e da prevenção, perceção e análise de risco.

“Não querem mandar mensagem porque assustam as pessoas indevidamente. Isto é uma completa idiotice, porque mais vale prevenir as pessoas e depois explicar” caso não venha a ocorrer como previsto, frisa.

“É uma estupidez pensar que o pessoal entra em pânico. O pânico é uma resposta muito específica, que acontece em ocasiões muito particulares e não acontece nestas situações”, sustenta.

Sobre a aposta da Câmara Municipal de Lisboa no Plano Geral de Drenagem, do qual está já a ser construído o primeiro túnel, em Campolide, José Manuel Palma reage dizendo que, “do ponto de vista estrito da teoria da resiliência, ter soluções estruturais e fixas desse tipo é algo que supostamente não se devia fazer”, porque “a resiliência procura soluções flexíveis”.

O especialista em resiliência das cidades e das infraestruturas dá como bom exemplo a cidade holandesa de Roterdão, que, para absorver as enxurradas, cria bacias de retenção nos locais públicos, “de modo que a água seja captada em diferentes sítios sem ter de se fazer obras faraónicas, que são pouco flexíveis”.

Mesmo admitindo que era necessário “fazer aqueles grandes buracos” em Lisboa – coisa em que não acredita –, os “túneis não vão resolver o problema, porque vai sempre ter de haver soluções flexíveis e de gestão das bacias hidrográficas”, aponta.

“Temos cheias em Loures, temos cheias em Lisboa, temos cheias em todo o lado aqui à volta e esses sítios não vão ter solução nenhuma com buracos como os que se querem fazer”, antecipa.

“Como é que Lisboa consegue dar como exemplo uma obra como sendo o suprassumo da resiliência, quando, na realidade, […] é o contrário da resiliência, porque é uma solução fixa, não-flexível e pouco adaptável?”, questiona José Manuel Palma, que foi consultor ambiental da autarquia da capital aquando da elaboração do Plano Diretor Municipal.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Meteorologia

Mais Meteorologia