E é apenas um dos picos, já que o Governo alerta que o mau tempo está mesmo para ficar. Enquanto se teme uma subida catastrófica das águas na zona de Coimbra, em Lisboa Carlos Moedas exortou as pessoas a adotarem o teletrabalho
Fiquem em teletrabalho. O aviso veio do presidente da Câmara Municipal de Lisboa e destina-se a todas as pessoas que possam exercer as suas funções de forma remota, já que esta quinta-feira se prevê o pior cenário da mais recente depressão saída de um autêntico comboio de tempestades.
A tentar avaliar eventuais danos e na tentativa de prever onde é que a situação pode ser mais problemática, Carlos Moedas andou na rua a pedir às pessoas que evitem as deslocações desnecessárias, nomeadamente entre as 00:00 e as 06:00, quando se espera chuva intensa.
“Vamos ter aqui dias muito desafiantes até domingo, de chuva e de vento, sobretudo esta noite, entre a meia-noite e as seis da manhã e, por isso, eu deixava aqui alguns conselhos importantes para os lisboetas: o primeiro é evitar deslocações desnecessárias, o segundo é evitar tudo o que são as zonas-ribeirinhas e o estacionamento nessas zonas-ribeirinhas”, alertou, antes de confirmar que os jardins municipais da cidade como a Estrela, Serafina ou Alvito tinham ordens para encerrar.
É que a água que caiu quase ininterruptamente na capital foi ensopando o terreno, causando mesmo perigo de queda de árvores.
Carlos Moedas salientou que todas as equipas municipais estão no terreno, desde a Proteção Civil, o Regimento de Sapadores Bombeiros, a Polícia Municipal, além do coordenador que tem estado a monitorizar a situação no centro operacional.
“Nós estamos a controlar, os lisboetas devem estar serenos, mas atentos, temos que nos precaver. Nós temos aqui um fenómeno que é diferente da Kristin, na Kristin tivemos 504 ocorrências, dessas era sobretudo queda de árvores e de estruturas. Aqui temos 160 ocorrências e sobretudo inundações”, salientou.
Para o responsável, o que preocupa até domingo é o “acumular desta persistência da chuva”, reconhecendo que os dois fenómenos não são comparáveis com o que aconteceu em 2022, mas que a chuva que se vai acumulando nos solos, vai criando incerteza.
“Mas é preciso manter a serenidade, evitar as deslocações, saber que esta noite é uma noite para ter muita atenção e vamos continuar a trabalhar, eu penso que nós criámos este centro operacional na altura das cheias de 2022, exatamente para isso, para todos os serviços estarem aqui e estarmos a cuidar de todos”, disse.
E se em Lisboa se antecipa, em zonas como Coimbra olha-se para o passado, para o presente e para o futuro. O rio Mondego continua a ser uma ameaça real para milhares de pessoas.
O repórter da CNN Portugal António José Leite que o diga, que esteve no meio de Ereira, freguesia de Montemor-o-Velho que foi completamente cercada pela água.
Foi lá que encontrou Sérgio Paulo, que à hora de jantar estava “expectante e atento” para “mais uma noite” complicada.
A ministra do Ambiente e Energia tem vindo a alertar precisamente para aquela região. Das imagens que se veem de Coimbra percebe-se que pode ser uma questão de sorte a decidir se o rio galga ou não as margens.
Sem querer esperar para saber o que aconteceria nesse cenário, o Governo garante que tem “tudo preparado” caso se venham a verificar cheias naquela zona, onde a Linha Norte teve mesmo de ser cortada, impedindo todos os acessos de comboios de longo curso entre Lisboa e Porto.
Repetindo os avisos feitos na noite anterior numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, Maria da Graça Carvalho voltou a garantir que tudo está pronto para lidar com um “momento crítico”, caso ele venha a verificar-se.
“Está tudo preparado, sabe-se quem sai, para onde vai, as Forças Armadas estão na região de Coimbra, porque não é só Coimbra, é Montemor-o-Velho, é Soure, pode ser um pouco da Figueira da Foz, e está tudo preparado para reagir a essa eventualidade”, afirmou.
A ministra destacou que a APA começou há três semanas a fazer descargas controladas, para ter encaixe nas barragens, referiu que a situação é “monitorizada minuto a minuto”, e afirmou-se preocupada com a situação que vem de Espanha, porque na Andaluzia já foi declarado o estado de emergência, sendo que os caudais dos rios internacionais podem ter impacto em Portugal.
E o que também preocupa a ministra do Ambiente e Energia é Alcácer do Sal. Abaixo, bem mais abaixo em relação a Coimbra, a cidade alentejana viu o rio entrar por ali adentro, subindo mesmo dois metros em alguns casos.
Situação controlada e uma “monitorização muito cuidada”, frisou Maria da Graça Carvalho, mas que não dispensa o acatar das orientações da Proteção Civil, além de uma redobrada atenção aos alertas.
Isto porque a depressão Kristin passou, mas a depressão Leonardo - que até já fez a sua primeira vítima mortal - está a chegar e esta quinta-feira há novo pico. A expressão é precisamente da ministra do Ambiente e Energia, que está preocupada especialmente com o que pode acontecer esta quinta-feira, mas já tem os olhos postos na semana que vem.
"Preocupa-nos muito [o dia de] amanhã. Vamos ter um pico amanhã [quinta-feira]. Segundo as previsões do IPMA, o outro pico, no sábado e no domingo, vai ser muito suave, portanto há melhores notícias para esses dias, mas vamos ter um novo pico segunda, terça ou quarta, portanto no princípio da próxima semana", afirmou.
E os dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) dão razões a Maria da Graça Carvalho. Em comunicado, o instituto avançou que a depressão Leonardo, nome atribuído pela delegação regional dos Açores do instituto português, se encontrará “inserida numa vasta região depressionária onde irão formar-se vários núcleos nos próximos dias”.
“As ondulações frontais associadas à depressão Leonardo irão afetar o estado do tempo em Portugal continental até dia 7”, sábado, “com períodos em que a precipitação será persistente e por vezes forte, queda de neve nas terras altas do Norte e Centro, vento forte e agitação marítima forte”, lê-se na nota.
“Para os dias seguintes prevê-se a passagem de novas superfícies frontais e a continuação deste padrão muito instável”, acrescentou o IPMA.
O sistema vai atravessar o continente, com chuva persistente e por vezes forte, até meio da manhã de quinta-feira, prevendo-se “queda de neve nos pontos mais altos da Serra da Estrela, baixando gradualmente a cota para 900 metros” na sexta-feira, “com acumulação nas serras do Norte e Centro”.
O vento irá intensificar-se, a partir da noite de hoje para quinta-feira, “com rajadas até 90 km/h, sendo até 110 km/h nas terras altas”, diminuindo de intensidade a partir do final de quinta-feira à tarde e prevendo-se “nova intensificação do vento” a partir da manhã de sábado, em particular na região Sul, adiantou o IPMA.
“Ao longo dos próximos dias, os maiores valores acumulados de precipitação deverão registar-se nas regiões montanhosas do Norte e Centro, podendo, entre os dias 04 e 08 [segunda-feira], atingir 150 a 200 mm (litros/m2)”, apontou o instituto.