Uma investigação do “Exclusivo” da TVI / CNN Portugal levou-nos até à ilha do Maio, em Cabo Verde, na tentativa de localizar Matthias Schmelz, empresário alemão conhecido como o “rei dos aspiradores”, que está em fuga à justiça portuguesa desde 2019. Há ainda novos indícios sobre o paradeiro do suspeito, que pode estar na Indonésia
A viagem começou em Lisboa, com passagem pela ilha de Santiago, até chegar ao Maio, uma ilha remota com cerca de seis mil habitantes, pouco explorada pelo turismo. É neste cenário que surgem relatos de que fugitivos procuram refúgio. “Aqui chegam algumas pessoas fugidas”, conta uma residente.
Matthias Schmelz é formalmente acusado de 26 crimes, incluindo 21 de recurso à prostituição de menores agravada e cinco de aliciamento de menores para fins sexuais. Segundo o Ministério Público, entre 2018 e 2019 o empresário terá criado um esquema em que pagava entre 200 e 400 euros a jovens para manterem relações sexuais com o próprio Matthias Schmelz, recorrendo também a intermediárias para aliciar menores.
O caso ganhou visibilidade em 2019, levando à fuga do suspeito a 13 de novembro desse ano. As autoridades acreditam que terá saído de Portugal por via terrestre até Espanha, seguindo depois para a África do Sul. Desde então, terá passado por países como Emirados Árabes Unidos e Cabo Verde.
Em março de 2024, foi declarado contumaz. Sobre ele recaem mandados de captura nacionais e internacionais, incluindo um “red notice” da Interpol ativo desde finais de 2024.
A investigação do Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) acompanhou, no terreno, diligências da Polícia Judiciária cabo-verdiana e da Interpol na ilha do Maio, onde havia fortes suspeitas de que Schmelz estivesse escondido numa zona de moradias de luxo habitadas maioritariamente por alemães. Apesar de dias de vigilância, não foi encontrado qualquer rasto.
Sem resultados, a procura foi alargada à população local. Uma nova pista leva-nos a uma pensão modesta, onde uma funcionária garante que o suspeito esteve hospedado durante quatro a cinco dias.
“Chegou com uma mochila, pagou em dinheiro e quase não saía do quarto.” O comportamento discreto e isolado chamou a atenção, mas só mais tarde, ao ver uma publicação nas redes sociais com a fotografia de Schmelz, fez a ligação.
Segundo a funcionária, o homem abandonou a pensão abruptamente, sem fazer check-out, no mesmo dia em que a sua presença na ilha foi exposta online.
Apesar deste testemunho, não existe qualquer registo oficial da entrada de Schmelz em Cabo Verde, reforçando a suspeita de uso de identidades falsas.
A geografia da ilha do Maio pode ter facilitado a fuga. Além das ligações regulares por barco e avião, existem rotas informais utilizadas por habitantes locais, recorrendo a pescadores para viajar até à ilha de Santiago, sem controlo rigoroso.
Nova pista: Indonésia
Um desenvolvimento recente pode apontar para um novo destino. Durante a consulta de um processo judicial no DIAP, em Lisboa, o Exclusivo teve acesso à gravação de uma audição de Schmelz por videoconferência, realizada em janeiro deste ano.
Embora o vídeo não possa ser divulgado porque o Ministério Público não o autorizou, um detalhe chamou a atenção: uma garrafa de água com sabor apenas produzida na Indonésia, muito comum nesse país e sem distribuição conhecida nos países onde o suspeito foi anteriormente avistado.
A presença dessa garrafa, aliada a outros elementos como a aparência do empresário, mais magro e bronzeado, levanta a hipótese de que Schmelz possa estar naquele país do sudeste asiático.
A eventual presença na Indonésia pode complicar ainda mais a ação das autoridades portuguesas. Não existe tratado de extradição entre Portugal e a Indonésia, o que pode limitar a possibilidade de detenção e entrega do suspeito.
Especialistas em direito internacional alertam que, nestes casos, a cooperação depende de processos complexos e nem sempre eficazes, podendo permitir que fugitivos permaneçam anos sem serem capturados.
Sete anos após a fuga, Matthias Schmelz continua por localizar. Ao longo da investigação, nem a Procuradoria-Geral da República nem a Polícia Judiciária portuguesa responderam às questões sobre as diligências em curso.
Durante a investigação, o Exclusivo falou com a defesa de Schmelz e enviámos perguntas para que o empresário pudesse responder. Tal nunca aconteceu.
Entre pistas inconclusivas, movimentações internacionais e silêncio das autoridades, o paradeiro do “rei dos aspiradores” permanece um mistério.