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Colunista e comentador

O pisão (imperdoável) de Matheus Reis foi o pretexto ideal para Rui Costa e o Benfica fazerem a tempestade (im)perfeita

27 mai 2025, 19:49
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Rui Santos escreve sobre o tema do momento e dirige, na sua Mensagem semanal, algumas palavras ao presidente dos "encarnados"

O lance entre Matheus Reis e Belotti, com Maxi Araújo na jogada, ocorrido aos 90 minutos + 5, portanto no tempo de compensação com 1-0 no marcador, e ainda com mais 5 minutos para se esgotar o tempo extra concedido pelo árbitro Luís Godinho, é uma coisa do arco-da-velha.
 
É uma coisa do arco-da-velha, porque apertado por Matheus Reis e Maxi Araújo, nunca se viu Belotti fazer qualquer falta e se, nalgum momento, o ponta-de-lança italiano fez algo para não ter a bola jogável, isso foi uma consequência da ação dos dois jogadores do Sporting.
 
O lance ocorrido junto à bandeirola de canto do lado dos ‘leões’ não teria nada de especial se (1) o árbitro-assistente, Pedro Mota, não tivesse visto a infração cometida por Belotti; (2) se na sequência da vesguice de Pedro Mota, o especialista-VAR Tiago Martins, ajudado por Vasco Santos e Sérgio Jesus, cumprisse o seu papel de assinalar a agressão cometida por Matheus Reis (pisão com o pé esquerdo na cabeça do italiano, depois de uma falta com o pé direito e ainda um agarrão e um puxão de camisola, nada disto observado pelo árbitro-assistente).
 
A configuração deste lance é, em resumo, a negação do VAR e, sim, neste caso concreto, a culpa maior não é de Luís Godinho, que cometeu outros erros (por exemplo, assinalar uma grande penalidade contra o Sporting, cuja decisão foi ‘anulada’ por um fora-de-jogo de 26 cms arrancado a Kokçu, na sequência de uma bola rematada por Bruma com o pé esquerdo, com a bola a embater no braço esquerdo de Gonçalo Inácio, que se fez ao lance com o braço numa posição natural, junto ao corpo); a culpa maior da não expulsão de Matheus Reis não é de Luís Godinho, dizia, mas de Tiago Martins (principalmente), Vasco Santos e Sérgio Jesus, que, todos, contribuíram para uma arbitragem amplamente negativa.
 
Caro Rui Costa,

Dito isto vamos às declarações pós-jogo.

Toda a razão no lance de Matheus Reis, como já disse e sublinhei, mas mais uma vez estas queixas têm sempre um problema: desviar as atenções das coisas que são responsabilidade do Benfica, seja por défice de posições mais estruturantes ao longo dos tempos (e aqui, caro Rui Costa, já tenho dito que o Benfica, sobre questões desta natureza, e outras que têm a ver com comportamento de adeptos, por exemplo, não pode ficar a meio da ponte), seja por questões mais pontuais, nomeadamente ao nível da responsabilidade  dos jogadores ou do treinador.
 
E neste jogo não foi o árbitro que disse ao Renato Sanches que fizesse um penálti também do arco-da-velha sobre Gyökeres com o jogo mesmo a acabar; e não foram nem Godinho nem Tiago Martins que disseram a Lage para recuar e não forçar o 2-0 quando o Sporting parecia não ter energia para mais coisa nenhuma e não foi a equipa de arbitragem que disse a Lage para mexer na equipa como mexeu. E, finalmente, não foi o Conselho de Arbitragem a gerir a condição técnica, física e psicológica de Di María, que acabou a época em Portugal da pior maneira possível.
 
Caro Rui Costa, sobre as declarações:

1) “Há coisas que ultrapassam tudo!” Tem razão. Tudo mesmo. O comportamento do VAR (indesculpável, sobretudo por ser o VAR mais utilizado pela UEFA, inclusive foi o VAR da Liga dos Campeões feminina). Mas também a irresponsabilidade ou a menos competência de jogadores e treinador. Não podemos olhar apenas para duas ou três árvores da floresta (as da arbitragem), temos de olhar para a floresta na sua vastidão. E é isso que os dirigentes e os presidentes dos clubes (já foi pior!) normalmente não fazem.
 
2) “Há que olhar a fundo para o futebol português!” O presidente do Benfica volta a ter razão. E onde estão as propostas concretas dos clubes para alterar o essencial? O que é proposto para mudar o paradigma da arbitragem? Os clubes fornecerem as listas dos seus árbitros favoritos? E no plano disciplinar, o que fazem os clubes para fomentar o aumento das sanções perante comportamentos indesejáveis, às vezes indecentes, dos agentes desportivos? E o comportamento das claques? O que já fez Rui Costa (e outros dirigentes ou ex-dirigentes do Benfica) para denunciar situações altamente lesivas para a reputação do Benfica e do próprio Estado português? E a utilização dos artefactos pirotécnicos combate-se com comunicadozinhos de circunstância?
 
Pois é, caro Rui Costa, fica bem dizer que “prefiro olhar para os erros internos” mas, mais do que os erros internos, a ideia que passou é que o Benfica não ganhou a Taça de Portugal por causa dos erros de arbitragem. O que, convenhamos, iliba erros próprios e é apenas uma parte da verdade, para além de ninguém poder adivinhar o que iria acontecer se Matheus Reis tivesse sido expulso naquele momento como deveria ter sido.
 
Caro Rui Costa,

Chegamos ao ponto essencial: eu sei que era importante para si e para o Benfica vencer a Taça ou, pelo menos, não a perder como a perdeu (e não me sai da cabeça aquele penálti de Renato Sanches, um verdadeiro haraquíri difícil de aceitar), mas — perdoe-se-me a expressão — a maior chatice, em contramão com essa importância, é estar agarrado a uma solução (Bruno Lage) que o próprio calendário do Benfica torna difícil mudar.
 
Como parece claro que o Rui continua a acreditar que Lage é a solução, mesmo considerando a não conquista do campeonato e da Taça, a proximidade do Mundial e as queixas de arbitragem vêm mesmo a calhar para que o essencial fique na mesma.
 
E isso, para os benfiquistas, é importante, uma vez que continuam a não ter resposta sobre a pergunta vital: como é que o Benfica, nas últimas 5 épocas, só ganhou 3 troféus (um campeonato, uma taça da Liga e uma Supertaça) em 20 possíveis, isto, é 15% de conquistas no total?
 
Alguma coisa não está bem e não pode ser apenas a arbitragem. O rei vai nu e é preciso ter e assumir essa consciência. O Benfica vale mais. Muito mais!

O comunicado é severo, importante para despertar consciências, externas e internas, mas a sua severidade é uma consequência da má época do Benfica e de más decisões internas. O pisão de Matheus Reis, imperdoável, é o pretexto, não para o Benfica e Rui Costa fazerem mea culpa, mas para a realização da tempestade (im)perfeita.

Há muito por explicar no “jejum” do Benfica e esta “caldeirada” toda em cima do pisão (repito, imperdoável) de Matheus Reis veio mesmo a calhar para se tapar o sol com a peneira. Repito: sou a favor de se perceber e ir até às últimas consequências para se apurar a razão pela qual o VAR Tiago Martins deixou passar um lance daqueles, mas não alinho na expiação dos pecados do Benfica durante a época. Quando teve o campeonato oferecido de bandeja e a “Taça” na mão.

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