Doar leite materno a bebés prematuros reduz 26 vezes o risco de enterocolite necrotizante. Portanto: "salva vidas, este leite salva vidas"

7 ago, 18:00

A história do único banco de leite humano no país e de como isso ajuda a salvar a vida de muitos bebés prematuros

António tem apenas três meses. Não sabe mas já ajuda a salvar a vida de outros bebés. A par da mãe, Isabela Cunha, é dador de leite materno para o único banco de leite humano que existe em Portugal e que se situa na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa. “Sinto que é um trabalho de equipa. Eu e o meu bebé doamos leite e estamos a ajudar outros bebés e outras mães”, conta Isabela Cunha, mãe e médica de medicina geral e familiar.

Isabela Cunha é uma das cinco dadoras ativas no Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Lisboa Ocidental e Oeiras, a única unidade de saúde primária com o selo Amiga do Bebé. No Centro de Saúde de Oeiras, funciona há cinco anos a consulta de doação de leite humano que trabalha em parceria com o Banco de Leite Humano da MAC.

A enfermeira Ana Lúcia Torgal é uma das responsáveis desta consulta e a grande impulsionadora do projeto. “Vamos a casa da dadora recolher o leite, para evitar que as mulheres tenham de se deslocar para o centro de saúde - numa altura em que devem estar concentradas no seu próprio bebé - e para garantir que se mantém a rede de frio”, explica à CNN Portugal, a propósito da Semana Mundial do Aleitamento Materno.

Ana Lúcia fala do trabalho para o banco de leite humano com a consciência de quem tem um papel importante na vida de muitas famílias: “Para mim é muito gratificante trabalhar neste projeto. Toda a gente está a contribuir para o mesmo. Por mim fazia muito mais, se pudesse”.

E faz muito. Já faz muito há cinco anos. Está presente em todas as fases do processo: sensibiliza as grávidas, participa na divulgação da consulta, no processo de seleção das dadoras, acompanha-as ao longo de todo o processo (e até depois disso) e faz a recolha do leite que mais tarde segue para a MAC para ser analisado, pasteurizado e administrado a bebés prematuros com menos de 32 semanas.

O leite doado é pasteurizado antes de ser administrado aos prematuros. (Arquivo Banco de Leite Humano da MAC)

No Centro de Saúde de Oeiras, as dadoras são referenciadas pelos profissionais de saúde que as acompanham ou chegam de forma espontânea. São selecionadas como quem seleciona um dador de sangue. O questionário é, aliás, o mesmo. “Há um questionário de enfermagem, por telefone. Se estiver tudo bem, agendamos a consulta pelo médico, que acrescenta a informação clínica e preenche o consentimento informado. Se estiver tudo bem também desse ponto de vista, o médico devolve-nos o processo e nós agendamos uma visita domiciliária à mulher, onde só vão as enfermeiras”, explica Ana Lúcia.

Nessa visita domiciliária, as profissionais certificam-se das condições que existem em casa da dadora e que garantem a correta higienização dos objetos utilizados na recolha do leite e a imediata congelação do leite. Além disso, dão também formação à família sobre como esterilizar as componentes da bomba extratora que terá contacto com o leite ou com a mama e de como acondicionar o leite até ser recolhido.

“Salva vidas”

O leite é recolhido pelas mesmas enfermeiras, que aproveitam para fazer um acompanhamento das dadoras, é acondicionado num congelador especial, a 25 graus negativos, para depois ser recolhido pelo Banco de Leite Humano da MAC. Aqui, alimenta e salva a vida a bebés prematuros internados na neonatologia.

O leite doado é conservado num congelador especial, a 25 graus negativos. (Arquivo Banco de Leite Humano da MAC)

“São muito poucos os bebés que passam pela nossa unidade que não precisam de leite de dadora. As mães de prematuros, muitas vezes, têm leite em pouca quantidade e, quando os bebés estão ventilados, estas mães não têm qualquer estímulo de sucção dos bebés. Estas mães têm umas gotinhas e pouco mais. Usarmos leite de dadoras diminui 26 vezes o risco de enterocolite necrotizante. Uma situação que resulta muitas vezes no encurtamento do intestino dos bebés ou até na morte. Além disso, o facto de se dar leite materno, complementado ou não com leite de dadora, vai estimular a produção de bactérias no intestino e ajuda a formar a flora intestinal”, enumera Israel Macedo, neonatalogista e responsável pelo Banco de Leite Humano da MAC.

“Salva vidas. Este leite salva vidas”, resume o médico. “Tínhamos uma incidência de 10% de enterocolites e conseguimos reduzir para cerca de 2% com este projeto. Quanto mais imaturos são os recém-nascidos, mais benefícios recolhem.”

1800 bebés ajudados desde 2009

O leite das dadoras é administrado a bebés com menos de 32 semanas e até perfazerem aquelas que seriam as 34 semanas de gestação. “Depois disso, ou a mãe tem leite e intercalamos com fórmula ou a mãe não tem leite e damos só fórmula, porque não temos leite suficiente para continuar a alimentar todos os bebés e os grandes benefícios iniciais do leite materno já foram adquiridos”, explica Israel Macedo.

O banco de leite da MAC nasceu em 2009. A contabilização exata é difícil, mas já contou com doações de 370 mulheres e terá ajudado 1800 bebés. Ninguém trabalha a full time neste projeto, mas há duas técnicas de patologia clínica, quatro enfermeiras e três médicos que lhe dedicam muitas horas. E há também os voluntários do Banco do Bebé, que ajudam na recolha do leite. Isto além dos profissionais do Centro de Saúde de Oeiras.

E não são apenas os bebés da MAC que beneficiam com o leite do Banco. “Vamos fornecendo também ao Hospital de Cascais e ao Fernando da Fonseca. Um bebé por mês, mais ou menos”, diz Israel Macedo.

Por enquanto, o Banco da MAC ainda é o único do país. No Hospital de São João, no Porto, prepara-se a abertura, em setembro, do Banco de Leite Humano do Norte, que deve servir as regiões Norte e Centro.

Orgulho

O neonatalogista Israel Macedo sublinha ainda que o projeto tem poupado “milhões de euros” ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) e ao Estado. “Uma criança com enterocolite que tem de ser operada custa uma brutalidade ao SNS. E uma que fica com intestino curto e tem de usar sonda durante anos, então, custa imenso.”

Isabela Cunha era enfermeira antes de ser médica. Sendo profissional de saúde, conhece bem os benefícios de cada gota de leite que consegue doar. “Saber que estou a contribuir para que bebés prematuros tenham uma vida muito mais fácil, ajudar a evitar infeções e cirurgias. Fico muito contente, muito orgulhosa.”

E garante que não o faz com qualquer grau de sacrifício ou pressão. “Basta ter uma bomba, ter espaço no congelador e poder guardar os frascos etiquetados. Não tem custos é só uma questão de disponibilidade. Organizo-me de manhã e depois consigo, durante o dia, tirar leite para o banco. Às vezes até consigo tirar leite para o banco enquanto estou a dar leite ao meu bebé na outra maminha. E sem qualquer pressão: dou apenas o que conseguir dar.”

A ausência de pressão é confirmada pela enfermeira Ana Lúcia Torgal: “As mulheres não têm uma obrigação de dar uma determinada quantidade de leite. Há mulheres onde vamos todas as semanas recolher leite e há mulheres onde vamos de 15 em 15 dias.”

Gratidão - e um recorde

No caso das dadoras acompanhadas pelo Centro de Saúde de Oeiras, as dádivas começam antes dos quatro meses e podem prolongar-se até o bebé fazer um ano. A partir daí, “considera-se que o leite delas já não tem as características nutricionais para alimentar prematuros com menos de 32 semanas”.

O Centro de Saúde de Oeiras já recrutou 79 dadoras. Mulheres cujo acompanhamento médico é também mais apurado, já que fazem análises a cada três meses e estão “sempre em contacto” com os médicos e enfermeiras da unidade de saúde.

O recorde de dádivas pertence a uma mãe que doou no total 36 litros de leite. “Ficamos sempre muito gratas a estas mulheres. Uma pessoa que foi dadora, se precisar de alguma coisa, no futuro, eu, pessoalmente, só não ajudo se não puder”, garante a enfermeira Ana Lúcia Torgal.

 

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