Martinho da Vila: "Bolsonaro é mal educado, fala palavrão, incita as pessoas à violência, mas isso já vai passar"

21 mai, 12:15
Martinho da Vila. 23 janeiro 2014. Foto: Medale Claude/Corbis via Getty Images

Um dos grandes nomes da música brasileira falou com a CNN Portugal a dias do seu regresso aos palcos portugueses. Descreveu o encontro com Lula na prisão, o ambiente de comunhão nas favelas e o seu desejo para as eleições de outubro: que Bolsonaro saia derrotado

“Ô maninha

Vamos fazer um roçado

Cortar o quê?

Ervas daninhas

Tais como as quais

Que estão lá no cerrado

Ceifar os cantos 

Lá nos meios e nos lados”

A primeira estrofe da música que abre o novo álbum de Martinho da Vila, “Mistura Homogénea”, vai direta ao assunto. Há ervas daninhas no Palácio do Planalto e é preciso cortá-las. Em entrevista à CNN Portugal, o senhor samba não esquece as eleições de outubro para a presidência brasileira e retrata Bolsonaro como “mal educado” e como um veículo de “homofobia”. “O presidente de uma nação é como um pai de família, ele tem de dar bons exemplos”, observa.

O génio por trás de ‘Canta Canta Minha Gente’, ‘Mulheres’ e ‘Devagar, Devagarinho’ fez 84 anos em fevereiro, 54 dos quais a desenhar novos sambas. Tem oito filhos e já travou várias lutas políticas, incluindo o movimento “Diretas Já”, em 1983. Dois anos depois, lançou o seu primeiro livro, para crianças, onde garante que “não há nada mais político do que o samba” e, em 2022, foi o grande homenageado do carnaval do Rio de Janeiro ao ser escolhido como enredo pela sua escola de samba, a Unidos de Vila Isabel.

Amigo de longa data de Lula da Silva, que o trata por ‘Seu Ferreira’, o artista recorda o dia em que foi visitar o antigo chefe de Estado à prisão, juntamente com Chico Buarque, e revela que se sentiu mais animado quando saiu do que quando entrou. "Foi muito bom, ele descontraiu a gente".

Numa conversa dias antes de regressar aos palcos nacionais - Martinho da Vila vai atuar em Faro (20/5), Porto (26/5), Lisboa (28/5), Braga (29/5) e Coimbra (31/5) -, confessa uma admiração pela música pimba e pelas marchas populares, ao mesmo tempo que descreve o seu Brasil como “um país de contrastes”, salientando que é preciso um mundo mais unido e misturado, como canta na primeira música do novo álbum, em que “todo o mundo reza junto”.

Tem tido um ano intenso. Foi homenageado pela sua escola de samba do coração, a Unidos de Vila Isabel, no carnaval do Rio de Janeiro deste ano. Lançou agora este álbum, "Mistura Homogénea" e regressa a Portugal com uma nova digressão. Têm sido momentos especiais para si?

Lancei o álbum no Rio de Janeiro e vim para cá, é muito recente. O álbum Mistura Homogénea é um álbum que mistura as coisas todas. Mistura homogénea é uma coisa que não se separa, né? Brasil, Portugal não se separa, é uma mistura homogénea. 

É fã de culinária portuguesa, do fado, mas uma coisa que achei interessante foi o seu gosto por música pimba. O que é que o atrai neste género musical?

Gosto sim, gosto da música portuguesa em geral, mas em especial da música folclórica portuguesa. É muito bom. Eu gosto da música que vocês dizem aqui que é música pimba, aquilo é uma música boa, eu gosto mesmo.

Tem alguma preferência?

Eu não oiço muito, né, mas quando oiço, eu gosto. Vou cantar uma lá que eles dizem que é pimba que é “Chora Carolina”. “Chora, Chora, Chora Carolina”. É a união à tradição, tem também uma música folclórica chamada "Milho Verde" também que eu acho muito bonita. Outra coisa de que gosto também são as marchas que fazem em junho. Tem uma até que eu gravei, a marcha de São Vicente… 'As marchas de São Vicente, la.. dara… la… tan tan. É, é muito bom'.

Este novo álbum é um encontro entre vários estilos musicais, mistura o rap com o samba de partido-alto, por exemplo, mas também remete para a química. O Martinho estudou esta disciplina, chegou a trabalhar na área. Foi para si um regresso ao passado?

Pois, esse álbum tem um pouco dessa coisa. Eu nunca pensei que no futuro ia ser cantor, não, isso foi acontecendo. A minha profissão mesmo lá no Brasil tem um nome, chama-se Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Eu estudei, fiz o curso de auxiliar de químico industrial. Tem até um diploma lá em casa que diz assim ‘Martinho José Ferreira, laboratorista. Preparador de óleos, ceras, perfumes, graxas e sabões'. É, não sei fazer nada disso. Por isso me lembrei um pouco disso, inspirei-me um pouco nisso para fazer esse disco.

Este tipo de encontro sem fronteiras passa também uma mensagem de crença na paz entre etnias, povos e religiões.

É, nesse trabalho até aproveitei esse tema, porque tem uma faixa que é oração alegre, que tem temas de várias religiões, para que as pessoas aprendam a respeitar o outro. Tem evangélico cantando junto com candomblecista. Tem até um rabino, Nilton Blonder, e um líder muçulmano, César Kaab. E a intenção é mesmo essa, fazer a mistura… porque o Deus é um só e tem um nome em cada cidade. O ecumenismo é todo o mundo rezar junto. Por exemplo, eu tenho uma família grande e uma vez no final do ano a gente se encontra, próximo do Natal, e na família tem gente que é católica, tem gente que é do candomblé, tem gente que é evangélico. Tem de tudo, e a gente canta tudo, reza, todos juntos e é muito interessante. Dá para fazermos tudo junto.

Tem assumido uma posição bastante crítica de Jair Bolsonaro, acha que o Brasil é hoje um país menos tolerante?

O artista, ele tem de fazer música. Naturalmente, ele é influenciado por o que está acontecendo à sua volta e isso acaba fazendo parte do seu trabalho. A gente de maneira indireta fala das ervas daninhas que estão lá no Palácio [do Planalto]. Agora, estamos num período meio confuso de eleições, outubro é já agora, e acho que nos vamos livrar do Bolsonaro. Porque o Bolsonaro, quando ele assumiu, ninguém era Bolsonaro, votaram no Bolsonaro para não votar no Lula. Votaram contra o Lula. E quando ele fez a primeira fala dele, eu falei que acho que ele vai ser um bom presidente, com boas intenções. Mas o que ele falou, acabou fazendo o contrário. Eu só não gosto muito dele porque ele dá maus exemplos. 

O que quer dizer com isso?

O presidente de uma nação é como um pai de família, ele tem de dar bons exemplos. Então, ele é mal educado, ele fala palavrão, incita as pessoas à violência. Isso tudo transmite muita homofobia. Isso é o que me incomoda mais nele, mas isso já vai passar.

Lula é para si um amigo, já o confessou várias vezes. Gostava de saber como foi para si vê-lo preso durante mais de um ano e, depois, sair e voltar a candidatar-se à presidência?

O Lula é um amigo, né? Eu conheci o Lula no período em que estávamos lutando pelas eleições diretas no Brasil. Participámos num grande movimento que era o “Diretas Já!”. Foi aí que encontrei o Lula. Depois, fui lançar um livro em São Paulo e ele foi lá ao lançamento também e aí a nossa amizade se fortaleceu e tal e ficámos camaradas. Os amigos, a gente tem que estar junto nas alegrias e nas adversidades. Quando esteve preso, também fui lá visitá-lo e há pouco tempo esteve lá em casa. É um amigo. Camarada, é isso.

E como foi vê-lo naquelas circunstâncias? 

Eu não sou muito de visitar uma pessoa quando ela está numa situação difícil. É ruim, né? Visitar um cara que está preso… o que é que a gente vai fazer? Mas com ele foi diferente. Porque mal eu cheguei com o Chico Buarque à prisão pensei que o ia encontrar cabisbaixo, mas ele disse logo ‘e aí, seu Ferreira até que enfim que você apareceu aqui’, ele me chama de seu Ferreira e eu trato-o por ‘seu Inácio’. Perguntou-me ‘quando vamos tomar uma’? ‘Aqui não dá, seu Inácio’. ‘Pois aqui não dá’, disse ele. Foi muito bom, ele descontraiu a gente.

Acredita que os dirigentes políticos passam uma impressão errada do que se passa nas favelas?

O Brasil é um país de contrastes. É um país rico, não devia ter pobre. Nós somos a sexta economia do mundo e há países que são a 20.ª e não têm pobres abaixo da linha da miséria. O Rio de Janeiro, por exemplo, é dividido em duas partes. Tem a cidade alta que são as favelas e tem a cidade baixa que é quem mora nas ruas e ainda tem a favela baixa que são as periferias. Tem gente que pensa que na favela só tem gente ruim, gente bandida, guerra todo o dia e crime, mas não é assim. Tem mais crime na cidade baixa do que na cidade alta. É incrível, e as pessoas lá são muito solidárias umas com as outras. Por vezes, uma família que não se dá muito com a outra, se percebe que uma está a precisar de alguma coisa, manda o filho lá buscar. Há uma troca, há uma solidariedade, eu sou oriundo da favela então conheço muito bem isto.

E ainda podemos falar do samba como uma arma de resistência política?

O samba é resistência porque o samba sempre falou dos seus problemas. Os sambas mais antigos, os sambas mais tradicionais, aqueles primeiros sambas do morro, principalmente, eles falavam da falta de trabalho, da casa. Isso não era fazer política, era simplesmente narrar as suas coisas, cantar as suas coisas. Mesmo nos sambas românticos essas coisas estão lá dentro, então o samba é resistência sempre.

E o samba resiste a quê?

É, sempre que surge um ritmo que toma conta mais dos media, dizem sempre que o samba acabou, ou vai acabar. Tem até um verso do meu compadre Paulinho da Viola em que ele diz 'há muito tempo que oiço esse papo furado de que o samba acabou. Só se foi quando o dia clareou'. Muito bom.

Um dos primeiros livros que editou foi 'Vamos brincar de política' (Global, 1986). Era um livro para crianças com temas para adultos. Foi importante para si assumir uma vertente educacional?

Foi um livro infantil mas que não ficou muito infantil. Eu fiquei falando de coisas que a criança não está no tempo de pensar sobre elas. Explicando o que era o Socialismo, a República, a Democracia. Pretendo fazer um novo livro, vamos brincar de política, infantil mesmo. Eu fiz alguns, mas é difícil fazer um livro infantil, porque o livro infantil, você tem que falar para a criança, então tem de se comportar como um colega de criança que está conversando com ela para escrever. Tanto é que o mais importante, às vezes, é a ilustração do livro.

Ou a brincadeira de palavras.

Escrevi um livro infantil que foi a Rosa Vermelha e o Cravo Branco. Esse foi interessante, porque pensei numa brincadeira de roda que diz ‘O cravo brincou com a rosa/ debaixo de uma sacada/ o Cravo ficou ferido/ e a rosa despetalada’. Eu achei isso uma guerra. Uma coisa absurda. Aí eu fiz ‘O cravo transou com a rosa/ debaixo de uma sacada/ o cravo ficou caído/ e a rosa mais perfumada’.

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