O herói desconhecido do discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King

CNN , John Blake
25 jan, 17:00
Martin Luther King "I Have a Dream" (AP Photo/File)

Quando o reverendo Martin Luther King Jr. subiu ao pódio no Lincoln Memorial, num dia sufocante de agosto de 1963, deparou-se com um grupo de personalidades que também sabiam como dominar o palco.

Na Casa Branca, o presidente John F. Kennedy assistiu ao discurso “Eu tenho um sonho” de King ao vivo pela televisão e declarou: “Ele é muito bom!” Sentada no palco à esquerda de King, Mahalia Jackson inspirou o final improvisado do discurso ao gritar: “Conte-lhes sobre o sonho, Martin!” E celebridades como Marlon Brando, Charlton Heston e Lena Horne juntaram-se a 250 mil pessoas na plateia enquanto King chegava ao clímax do seu mais famoso discurso.

A maioria sabe o que aconteceu a seguir. O discurso de King na Marcha em Washington é hoje considerado por muitos como o maior discurso político da história americana. Até mesmo Kennedy, que inicialmente se opôs à marcha, estava radiante quando cumprimentou o líder dos direitos civis numa receção na Casa Branca depois do evento, dizendo a King com um sorriso: “E tiveste um sonho.”

O Presidente John F. Kennedy encontra-se na Casa Branca com King (centro esquerda) e um grupo de outros líderes da Marcha em Washington após o discurso de King a 28 de agosto de 1963. foto AP

Mas King não foi o primeiro a ter esse sonho. Ele não foi o primeiro a cativar os Estados Unidos com uma visão de uma nova ordem social harmoniosa, onde raça, classe ou credo não dividissem as pessoas. E ele não foi o primeiro americano a ter o seu sonho viralizado.

Essa honra pertenceu a um banqueiro branco de Wall Street, de óculos, chamado James Truslow Adams, cujo nome raramente aparece quando o maior discurso de King é citado. Adams é o herói esquecido do maior discurso de King. Ele é o “pai fundador” da metáfora do sonho que se tornou a imagem central do movimento pelos direitos civis.

Três décadas antes do discurso de King, Adams cunhou e popularizou a ideia do sonho americano no seu livro bestseller, “The Epic of America” (A Epopeia da América), escrito para motivar os americanos durante o auge da Grande Depressão.

Uma fotografia de James Truslow Adams datada de 1938. foto Boston Herald-Traveler Photo Morgue/Boston Public Library

“Havia referências dispersas ao sonho americano por volta de 1870, mas foi Adams quem popularizou a expressão”, diz Jim Cullen, autor de “The American Dream: A Short History of an Idea that Shaped a Nation” (O sonho americano: uma breve história de uma ideia que moldou uma nação), à CNN. “Adams usa essa expressão repetidamente. Na década de 1950, ela tornou-se o que hoje chamamos de meme.”

Enquanto os Estados Unidos comemoraram o feriado nacional de King na segunda-feira, pode ser difícil separar o mito dos factos 63 anos após o seu discurso mais popular. O seu discurso icónico foi repetidamente reproduzido, analisado e mal interpretado.

No entanto, o que raramente é mencionado é que o uso da emblemática expressão “sonho” por King no clímax do discurso não foi apenas o resultado de sua genialidade improvisada. Ele teve ajuda ao longo do caminho — um facto que deve aprofundar a apreciação da genialidade de King, dizem os historiadores.

“King foi capaz de incorporar essa ideia [de Adams] à missão do movimento pelos direitos civis”, diz Cullen.

Quem era então Adams? Porque é que foi esquecido? E como é que o seu sonho americano se diferencia do de King?

O significado do sonho antes de King

Adams era, de certa forma, o anti-King.

King era um socialista democrático que desconfiava do capitalismo irrestrito. Ele defendia a saúde e a educação universais, um rendimento anual garantido e a nacionalização de algumas indústrias. Ele acreditava que o governo federal deveria fazer mais pelas pessoas desfavorecidas.

Adams, porém, era um beneficiário dos frutos do capitalismo. Ele acreditava num governo pequeno. Nasceu numa família abastada do Brooklyn, Nova Iorque, e tornou-se um banqueiro de investimentos de sucesso em Wall Street. Ganhou dinheiro suficiente com os seus investimentos para se aposentar e dedicar-se à sua verdadeira paixão: escrever livros de história. Ganhou o Prémio Pulitzer de história em 1922 pelo seu livro “The Founding of New England” (A Fundação da Nova Inglaterra).

Mas quando escreveu “The Epic of America” (A Epopeia da América), a sua fé na América tinha sido abalada. A diferença entre os que tinham e os que não tinham tinha-se expandido para um abismo. Os americanos estavam a perder a fé na democracia. Governos autoritários estavam a surgir na Europa. E, de acordo com a historiadora Sarah Churchwell, “muitos americanos estavam preocupados que energias ‘despóticas’ semelhantes apoiassem o lendário ‘homem a cavalo’ que poderia tornar-se um tirano americano”.

Um ano antes do crash da bolsa de 1929 ter mergulhado o país na Grande Depressão, homens fazem fila para a sopa dos pobres em Bowery Mission, em Nova Iorque, a 31 de março de 1928. foto Historia/Shutterstock

Tal como King, Adams criou a imagem de um sonho para descrever a América que ele ansiava. Adams queria titular o seu livro “O Sonho Americano”. A editora rejeitou a ideia, indica Cullen – disse: “Ninguém pagará três dólares por um livro sobre um sonho.”

Adams sabia, no entanto, que a sua metáfora tinha poder. Ele invocou a frase pelo menos 30 vezes no seu livro. Ele escreveu que a sua visão da América “não era apenas um sonho de carros e salários altos, mas um sonho de uma ordem social na qual cada homem e cada mulher pudessem atingir o máximo do seu potencial inato e ser reconhecidos pelos outros pelo que são, independentemente das circunstâncias fortuitas de nascimento ou posição”.

Isso não ressoa tanto quanto o discurso de King, mas o livro de Adams encontrou um público e tornou-se um bestseller. Cullen, o historiador, diz que os americanos estavam desesperados por uma visão de um futuro melhor, e o livro de Adams deu-lhes um nome e uma definição sucinta para isso.

Cullen diz que o livro de Adams foi lançado no início da década de 1930, durante o “fundo do poço” da Grande Depressão. “Havia o receio de que a sociedade americana se dissolvesse no meio da fome e da pobreza que ameaçavam engolir uma grande parte da população”, destaca.

O sonho de Adams infiltrou-se rapidamente na cultura popular. O seu livro circulou entre os soldados americanos que lutavam contra o fascismo durante a II Guerra Mundial. O poeta Langston Hughes usou a metáfora do sonho em poemas como “I Dream A World” (Eu sonho um mundo), no qual declarava: “Eu sonho um mundo onde negros ou brancos, seja qual for a sua raça, partilharão as riquezas da terra e todos os homens serão livres.”

Nos anos 1950, o "sonho americano" passou a simbolizar um emprego estável e uma casa arrumada nos subúrbios. Aqui uma carrinha de mudanças transporta as posses de várias famílias em dezembro de 1952 para um novo empreendimento de habitações em Lakewood, na Califórnia. foto J R Eyerman/The LIFE Picture Collection/Shutterstock

Quando morreu, em 1948, Adams estava amargurado com o rumo que os Estados Unidos estavam a tomar. O país havia derrotado o fascismo na Europa, o New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt havia salvado a economia e os EUA haviam emergido da II Guerra Mundial como a nação mais forte do mundo. Mas Adams estava desiludido com Roosevelt e o New Deal. Ele achava que o New Deal dava demasiado poder ao governo e traía a tradição americana de autossuficiência.

“Com o tempo, ele ficou cada vez mais irritadiço”, diz Cullen. “Ele acreditava no individualismo radical. Acreditava que a ausência de um Estado forte, e não a presença de um Estado forte, era o que tornava os Estados Unidos grandes. Ele temia que eles [o governo] fossem tirar dinheiro das pessoas produtivas e dá-lo às pessoas que o desperdiçariam.”

MLK pediu emprestada a ideia de sonho a Adams?

Não há registos de que King se tenha encontrado com Adams, embora faça alusão à metáfora de Adams no seu clássico discurso, quando diz que o seu sonho está “profundamente enraizado no sonho americano”.

Outro historiador, Jemar Tisby, diz que há evidências de que a frase “Eu tenho um sonho” de King teve origem em Prathia Hall, uma ativista e teóloga negra. Tisby refere que a tradição oral sugere que Hall invocou repetidamente a frase durante a sua oração pública numa vigília de 1962 na qual King participou.

King reconheceu que havia pregado versões anteriores do discurso do sonho em várias ocasiões antes da marcha. Quando questionado mais tarde sobre o motivo pelo qual se desviou do guião no final do seu discurso, King disse que foi espontâneo.

“A resposta do público foi maravilhosa naquele dia... e, de repente, lembrei-me de algo que já tinha usado muitas vezes antes, aquela frase ‘Eu tenho um sonho’, e senti que queria usá-la ali”, referiu.

As observações de King, porém, levantam uma questão incómoda: ele apropriou-se da metáfora característica de Adams sem lhe dar o devido crédito? Terá roubado a ideia de Adams?

Essa não é uma pergunta gratuita, dado o passado de King. Em 1991, um comité de académicos concluiu que King havia plagiado passagens da sua dissertação de doutorado enquanto estudante na Universidade de Boston. King, segundo eles, apropriou-se das palavras de outros escritores e até mesmo de um colega estudante sem a devida atribuição de fontes.

A investigação do comité ocorreu depois de jornalistas e de Clayborne Carson, historiador escolhido a dedo pela viúva de King, Coretta Scott King, para editar os documentos do marido, terem revelado o plágio.

Aqueles que estudam King, no entanto, dizem que ele não roubou a retórica de Adams — ele deu-lhe mais poder.

Além de fontes literárias, King utilizava frequentemente citações e ilustrações de ministros protestantes brancos e da igreja negra. Mas, como muitos oradores públicos, ele não fazia pausas para citar a fonte no meio de um discurso, ressalta Keith Miller, autor de “Voice of Deliverance: The Language of Martin Luther King, Jr. and Its Sources” (Voz da Libertação: A Linguagem de Martin Luther King Jr. e as suas Fontes).

No seu discurso sobre o sonho, por exemplo, King alude ou cita a Declaração da Independência, a Constituição, a Proclamação da Emancipação e o Discurso de Gettysburg.

O topo do Monumento de Washington e uma parte da bandeira americana refletidos nos óculos de sol de Austin Clinton Brown, de 9 anos, natural de Gainesville, na Geórgia, ao juntar-se a outros para a Marcha em Washington em agosto de 1963. foto AP

Além disso, a metáfora do sonho americano de Adams já havia penetrado na consciência nacional à data do discurso de King, e King presumiu que muitos sabiam o que ele queria dizer ao aludir a um sonho, adianta Miller. A capacidade de King de pegar em ideias dos sermões insossos dos pregadores brancos e convertê-las em discursos emocionantes era parte de seu génio, diz Miller.

“Ele despertou clichés”, refere Miller à CNN.

O facto de a metáfora do sonho de King ter vindo de outra fonte não é incomum para grandes comunicadores, diz Miller, que afirma que as peças de Shakespeare eram todas baseadas em fontes históricas.

“Shakespeare nunca teve um enredo original”, invoca Miller.

O facto de a metáfora do sonho de King ter vindo de outra fonte não é incomum para grandes comunicadores, diz Miller. Ele afirma que as peças de Shakespeare eram todas baseadas em fontes históricas.

“Shakespeare nunca teve um enredo original”, refere Miller.

Tanto o sonho de King quanto o de Adams descreviam uma ordem social harmoniosa nos Estados Unidos que funcionava bem para todos, mas King acrescentou outra dimensão à metáfora do sonho, diz Ted Widmer, historiador, palestrante e autor de um ensaio sobre Adams intitulado “O que o homem por trás do ‘sonho americano’ realmente queria dizer”.

“King injeta nele [no sonho] muito mais emoção do que a leitura de um livro de James Truslow Adams”, sublinha Widmer, ex-redator de discursos da Casa Branca para o presidente Clinton. “Ele repete várias vezes ‘Eu tenho um sonho’, e é justamente essa repetição poética emocionante da frase que leva a multidão ao delírio.”

King acrescentou outra dimensão pessoal ao seu sonho que Adams não conseguiu reproduzir. Apesar da sua visão igualitária, Adams estava limitado pela sua origem, escreve Churchwell, professora da Universidade de Londres, no seu livro “Behold America: The Entangled History of ‘America First’ and ‘the American Dream’” (Contemplem a América: a história entrelaçada do ‘America First’ e do ‘sonho americano’).

“Partilhando os pontos cegos da sua época, Adams via a história americana em termos da migração europeia e das ações dos homens brancos, chamando os povos indígenas de ‘selvagens’, mal percebendo a presença dos ‘negros’ e ignorando todas as mulheres, exceto um punhado de brancas”, escreveu.

Widmer, o historiador, diz que Adams não estava preparado para expressar o anseio emocional que King expressou no seu sonho porque não tinha sofrido como o líder dos direitos civis.

“Ele [King] aborda a questão a partir de um sentimento de injustiça que Adams não tem”, diz Widmer. “King entende o que significa ser excluído do sonho de uma forma que Adams não entende.”

Como os sonhos de King e Adams se comparam hoje

Mais americanos em 2026 também compreendem isso.

Quase metade de todos os americanos acredita hoje que o sonho americano — agora definido como a crença de que qualquer pessoa pode ser bem-sucedida se trabalhar arduamente — é inatingível. Os EUA apresentam atualmente disparidades de riqueza entre ricos e pobres maiores do que quase qualquer outro grande país desenvolvido. De acordo com a London School of Economics (LSE), os americanos mais ricos detêm agora aproximadamente a mesma parcela da riqueza que detinham na década de 1920, durante o período que antecedeu a Grande Depressão.

Mais de metade dos americanos acredita que os melhores dias do país já ficaram para trás. A confiança do público no governo está no nível mais baixo em quase sete décadas. Governos autoritários como a Rússia e a China estão em ascensão na Europa e na Ásia e — segundo alguns — também nos EUA. Os bilionários agora controlam mais da riqueza e do poder político do país.

Adams escreveu uma descrição do seu país em “Epic of America” que poderia ser aplicada aos dias de hoje:

“Ser rico tornou-se uma virtude, a tal ponto que as pessoas podem um dia acreditar que um homem é bom simplesmente porque é rico, em vez de verem a riqueza obscena como apenas isso — obscena. Fortunas vastas foram sempre mais propensas a sinalizar torpeza moral do que retidão.”

Muitos americanos hoje considerariam o otimismo de King ultrapassado.

A Marcha em Washington ocorreu durante o auge do movimento pelos direitos civis. A aprovação de três leis históricas sobre direitos civis em meados da década de 1960 transformaria os Estados Unidos. King descreveu os Estados Unidos como uma nação onde “todos os filhos de Deus, homens negros e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos” poderiam dar as mãos e cantar “livres, finalmente”.

Mas poucos, se é que algum, líderes públicos ainda falam sobre integração racial. A violência política está a aumentar. E as divisões religiosas da nação só se aprofundaram com o aumento do antissemitismo e do nacionalismo cristão branco.

Muitos americanos sentem-se hoje menos esperançosos quanto ao estado fraturado do seu país. Aqui, manifestantes pró e anti-Trump confrontam-se durante um protesto a 11 de janeiro de 2026 em Nova Iorque. foto Heather Khalifa/AP

Espera-se que uma maioria conservadora no Supremo Tribunal desmantele em breve a “última grande disposição” da Lei do Direito ao Voto, a jóia da coroa do movimento pelos direitos civis. E o presidente Donald Trump disse recentemente que as leis dos direitos civis aprovadas em parte como resposta ao discurso do sonho de King transformaram alguns brancos em vítimas de discriminação racial.

No entanto, o poder do discurso do sonho de King perdura, não importa quantas vezes seja reproduzido.

Cullen, o historiador, diz que cada geração acredita que o sonho americano está à beira da extinção.

“Mas continua a ser o parâmetro de referência das nossas vidas”, contrapõe. “É a única coisa que nos mantém unidos. A Constituição já não nos mantém unidos. O patriotismo também não. É a única coisa que apoiamos coletivamente. Continua a ser o tecido da identidade americana.”

O discurso de King também continua a manter-nos unidos. É uma parte do seu génio que é tão fácil ignorar quando ouvimos repetições da sua oratória inspiradora.

Ele pegou numa ideia que se tinha tornado um cliché e transformou-a numa visão pela qual as pessoas estavam literalmente dispostas a morrer. Muitas morreram. E ainda morrem.

Adams pode ter colocado o sonho americano no mapa, mas King fez com que ele ressoasse ao longo da história.

 

John Blake é redator sénior da CNN e autor do premiado livro de memórias “More Than I Imagined: What a Black Man Discovered About the White Mother He Never Knew” (Mais do que eu imaginava: o que um homem negro descobriu sobre a mãe branca que nunca conheceu).

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