ENTREVISTA || Martim Sousa Tavares mostra como a música é feita de tempos. De tempos que rejeitam a pressa. “As pessoas têm de perceber que têm muito mais a ganhar se não desejarem ter tudo numa versão de cinco minutos”. De contrates de tempos. “Os piores públicos na música clássica não são os jovens, são os velhos. São os velhos que tossem, que dormem nos concertos”. De novos tempos. “A música de inteligência artificial não é menos má do que 90% da música pop, que é uma verdadeira lixeira”. E das coisas que só a passagem do tempo permite confirmar. “Daqui a 100 anos saberemos quem eram os génios que, em 2026, andavam no meio de nós”
O Martim dirigiu recentemente “Parabéns, Mozart!”, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos. Foi o concerto de apresentação do Festival Around Classic, que regressa a Lisboa a 29 e 31 de maio, numa edição dedicada, precisamente, ao compositor austríaco. Ainda há urgência e novidade em Mozart, 270 anos depois do seu nascimento?
Celebramos este génio há mais de um quarto de milénio e a verdade é que ele teima em manter-se jovem. Nunca foi velho, morreu com 35 anos. Também por causa disso a música dele também não envelhece.
Ele foi tão prolífico, escreveu tanta música, que não é difícil dar a ouvir obras-primas do catálogo dele que são pouco conhecidas. Foi um bocadinho o caso deste concerto, com peças muito conhecidas como o “Ave verum corpus”, que virou quase uma peça pop de Mozart, mas também com outras músicas igualmente belas, que praticamente ninguém conhece, porque escreveu, de facto, muita música. É um bocadinho como aquela arca do Fernando Pessoa, de onde ainda continuam a aparecer manuscritos e coisas novas.
Disse que Mozart era "jovem". E a música clássica pode ser uma coisa de jovens, em especial no atual contexto, em que deslizamos em segundos de uma coisa para a outra?
A música clássica, em si, não é jovem, nem velha, nem séria. É bela, uma forma de beleza particular, como a literatura ou a poesia. Aquilo que pode não ser para os jovens é mais a forma de estar do público, o tipo de pessoas que a frequentam. Isso tem a ver com a embalagem, não com o conteúdo.
O conteúdo, em si, é profundamente aberto, universal. Não há ali nada que fique por entender ou por explicar. Quando se pensa que a música clássica é uma coisa de velhos, infelizmente, é um erro histórico, uma distorção, o resultado de uma apropriação que aconteceu há mais de 100 anos por uma franja da sociedade, por uma elite cultural, económica, social.
E como é que se liberta a música dessa apropriação, dessa franja?
Basta pensar que o próprio Mozart morreu pobre e miseravelmente. Foi enterrado numa vala dos comuns, nem se sabe bem onde. Não há pompa nenhuma na vida de Mozart. Conheceu a vida real, tal como as pessoas dos nossos dias que não nascem num berço de ouro ou numa cúpula de marfim. Essas lutas, essas dúvidas, essa luz e essa escuridão, esse desejo e essa amargura, estão todas na música de Mozart. Tal como estão, se calhar, na música de um Sam the Kid. A linguagem é diferente, mas a mensagem é a mesma. Os artistas, século após século, trabalham os mesmos temas. Só que cada um tem a sua linguagem.
Mas como é possível mostrar aos jovens que a mensagem da música é para eles, não para aquela elite que se apropriou da música clássica?
Aquilo que faço em todos os meus concertos. Tocamos esta música para qualquer tipo de público, mas, sabendo que pode haver públicos que lá estão pela primeira vez, gosto sempre de poder dizer umas palavras. Explicar porque é que estamos a ouvir determinada música, porque é que vale a pena ouvi-la. É uma porta de entrada, digamos. O que me importa sempre é o conteúdo. Se tivermos jovens, pessoas que vieram pela primeira vez, ou que vinham desconfiadas da música clássica, tenho a certeza absoluta de que vão sair de lá emocionadas com o conteúdo. É a beleza da orquestra, a força do coro. Se aquilo não move uma pessoa, então nada consegue fazê-lo.
Referiu agora essa estratégia de um breve contexto. O contexto é bem-vindo, mas a música não devia, preferencialmente, ser apreciada em “bruto”?
Não, acho que o tempo dos músicos que entram mudos e saem calados já acabou, felizmente. Recentemente fiz concertos com o Tim Bernardes, em que ele conversava com o público, contava que lembranças lhe traziam as canções. São pequenos pedaços de informação. Não está a dar uma aula a ninguém, não é musicologia, é uma conversa. É como alguém que cozinhou para outra pessoa e está a explicar-lhe porque fez aquele prato e o que é que ela vai provar. Enquanto maestro, enquanto intérprete, sinto isso. Eu escolho os meus programas. A música está ali por alguma razão e eu gosto de partilhar isso. Dizer porque é que aquilo, para mim, é importante, bonito. É só isso, falar do coração.
Vivemos num contexto em que tudo passa muito rápido. Vivemos ligados a ecrãs, sempre a deslizar. Parece que nunca temos tempo para nada. Como é que se arranja tempo para apreciar a música clássica? É preciso esse tempo?
Não é a música clássica que, de repente, tem de perceber como é que se vai adaptar a um mundo maluco. O mundo é que tem de perceber como é que se pode adaptar para ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven. Não há maneira de fazer a Nona Sinfonia de Beethoven numa versão expresso, como se fosse um resumo para o exame.
Somos guardiões de uma arte que tem quase mil anos. Não vamos corrompê-la porque as pessoas, agora, estão viciadas no ‘scroll’. Podemos tentar concertos mais breves, concertos conversados e tudo o mais, mas esta música requer um grau de atenção e de respeito que é igual a ler “Os Maias”. Posso ler o resumo, posso ficar com uma ideia do que está lá dentro, mas isso não é ler “Os Maias”.
As pessoas têm de perceber que têm muito mais a ganhar se derem o seu tempo e a sua atenção, em vez de desejarem ter tudo numa versão de cinco minutos.
Sente essa disponibilidade por parte das pessoas mais jovens com quem se vai cruzando no seu percurso?
Curiosamente, os piores públicos na música clássica não são os jovens, são os velhos. São os velhos que tossem, que dormem, que ficam desconfortáveis nas cadeiras. As pessoas a quem toca o telefone são sempre os velhos. Os jovens, pela minha experiência, são públicos extraordinários: têm uma capacidade imensa de ler a sala, de respeitar as pessoas que ali estão. Pode ser mais difícil levá-los ao concerto, mas, uma vez lá dentro, não me preocupa nada que lá estejam. É nestes jovens que temos de apostar, agradecer-lhes por estarem disponíveis para ir a concertos, para ir ao cinema, para continuarem a ler livros. Não vejo nada a minha geração, nem a geração abaixo da minha, como uma geração perdida, que é preciso ir salvar. Acho que estamos todos igualmente perdidos, igualmente à procura da salvação.
Os nossos tempos permitem criar novos Mozarts, novos Beethovens? Ou estamos tão focados nestas referências que não reparamos que há Mozarts e Beethovens vivos, entre nós, com potencial para lá chegar?
Continuam a existir génios entre nós, mas a noção temporal permite uma análise que, no barulho da realidade, nós não conseguimos. Foi o caso do próprio Mozart: na altura, não houve ninguém que parasse para pensar duas vezes sobre ele, acabou enterrado numa vala comum. Ou do próprio Fernando Pessoa: viveu anónimo a vida toda, ninguém dava dois patacos por ele, publicou um livro aqui, outro acolá, e desapareceu pela porta pequena.
É o tempo que os consagra, é a história que os coloca no lugar certo. Daqui a 100 anos saberemos, com toda a certeza, quem era os génios que em 2026 andavam no meio de nós. Porque eles existem.
Que opinião tem sobre o ensino da música nas escolas portuguesas. A memória que a nossa geração, nascida no início dos anos 1990, guarda das aulas de Educação Musical é a de tocar o “Hino à Alegria” ou o “My Heart Will Go On” na flauta de bisel. Não lhe parece uma coisa desligada da realidade dos jovens, ultrapassada?
Confesso que, quando fui aluno, foi essa a experiência que tive. Era tudo com a flauta de bisel, aquilo era tremendo de mau. Não sei qual é o método que se ensina hoje nas escolas. Para mim, o importante na flauta era a tentativa democrática, porque custa menos de 10 euros, de pôr os miúdos todos a tocar um instrumento.
Mas não é só a flauta de plástico que não vale nada, é a premissa que está errada. Não temos de formar três mil músicos numa escola. Nem toda a gente vai ser música. Tal como também não temos de ensinar as crianças a escrever um soneto. Temos é de ensiná-las a ouvir a música, a ler um soneto.
A premissa, para mim, sempre esteve errada. Não devemos promover tanto que os miúdos aprendam a tocar um instrumento. É impossível, numa turma de 30 miúdos, ensinar a tocar um instrumento. O ensino da música faz-se de um para um, noutro contexto. Mas é possível, sim, transmitir o amor pela escuta da música. E a música tem de ter quem a ouça, isso é o fundamental. Quero acreditar que o ensino da música poderá ir em direção a um ensino de ouvir a música, não de dominar a música.
E a música torna-se mais fácil de ouvir quando a levamos, por exemplo, a lojas e cafés? É o que pretende também fazer o Festival Around Classic, que, além do Capitólio, do Teatro Variedades, do Cinema São Jorge e do Teatro Tivoli BBVA, se estende a lojas, cafés e hotéis da Avenida da Liberdade, com pequenos concertos. É sair da bolha e ir aonde estão as pessoas, para deixar a semente?
Sem dúvida, mas também sou realista em relação a isso: há lugares para as coisas. Há uns anos, fez-se uma experiência com um violinista muito bom, o Joshua Bell. Tocou no Carnegie Hall, em Nova Iorque, numa sala esgotada. No dia seguinte, estava numa estação de metro a tocar exatamente a mesma música da véspera. Resultado: havia pessoas que passavam por ele e nem ficavam a ouvir.
Podia concluir-se que as pessoas são ingratas, incultas, que não ligam nenhuma ao Joshua Bell, mas, na verdade, o metro é um lugar onde as pessoas estão em movimento, em deslocação, a ir para o trabalho, para casa. A pessoa não vai para o metro à espera de ouvir um concerto de violino.
O mesmo acontece quando vai a um café. Pode ser errado tirar a conclusão de que as pessoas se estão nas tintas para a arte porque não lhe ligam nenhuma nesses contextos. Contudo, pode ser bom, para quem tenha tempo livre, encontrar-se com a música ali. É ótimo que as pessoas se encontrem com a beleza onde menos esperam. Sou complemente a favor deste tipo de abordagem. Porém, sabendo que, as pessoas podem não estar para aí viradas, que aquele pode não ser o momento certo das suas vidas.
É uma dose homeopática de beleza que fica à disposição daqueles que podem ficar a ouvir. No caso do violinista, houve muitas pessoas que ficaram a ouvir. E muitas outras que, mesmo adorando ter ficado a ouvir, sabiam que não podiam, que tinham de ir às suas vidas.
Essa atenção é ainda mais relevante num mundo onde, por exemplo, temos música a ser criada por inteligência artificial?
É só mais camada de música lixo, música para consumo instantâneo, que sempre existiu. É uma indústria extremamente produtiva, muito rápida na sucessão de artistas e autores. É só uma nova página nessa longa história.
Mas, com a inteligência artificial, deixamos de ter um autor. O autor é o algoritmo.
A música má, a música lixo, também já não tinha uma ideia autoral. Seguia certas formas, certas fórmulas de sucesso e transformava-se. Era ela própria um algoritmo com mão humana. Portanto, a música de inteligência artificial, que é bastante má, não é menos má do que 90% da música pop, que é uma verdadeira lixeira no que diz respeito à sua qualidade nutricional. É tudo ‘fast food’. Há poucas diferenças entre a que tem mão humana e a que não tem. Basta ver, se calhar, quem eram os artistas que estavam nos tops no verão de 1998 para perceber que 90% deles foram esquecidos. Aquilo já era uma coisa que não tinha substância.
Para terminar, deixo-lhe um desafio: se tivesse de reinventar Mozart para o século XXI, como seria essa música?
Adorava imaginar o que é que seria a música de Mozart dos 35 aos 70 anos. Houve metade da vida dele que ficou por viver. Pensar no que seria um Mozart de meia-idade, a aproximar-se do fim da sua vida. E não um Mozart “cortado a meio” como o tivemos. Tentaria este exercício.