«Enzo Fernández é uma referência, tento seguir os passos dele»

26 set, 09:00
Martim Neto

Martim Neto, internacional jovem por Portugal e produto da formação do Benfica, em entrevista ao Maisfutebol à margem de um estágio da Seleção Nacional sub-20

Há famílias que estão talhadas para o desporto e na amostra de ADN da família Neto identifica-se ecletismo. Há gente ligada ao voleibol, com percursos sustentados no mundo do hóquei e, claro, no futebol.

Martim Neto é filho de Rui Neto – ex-hoquista, ex-selecionador nacional e até ao início deste mês treinador do Óquei de Barcelos – e primo de Pedro Neto, jogador do Wolverhampton e internacional A por Portugal.

Esperança do Benfica, onde está há sete anos, fez parte da equipa que se sagrou campeã da UEFA Youth League, pela primeira vez na história do clube encarnado, e da que conquistou a primeira edição da Taça Intercontinental no mês passado.

Aos 19 anos, soma 25 internacionalizações dos sub-15 aos sub-20, já leva quase 50 jogos pela equipa B das águias na II Liga, estreou-se pela equipa principal na última jornada da época passada e esteve no verão às ordens de Roger Schmidt durante a pré-época, sendo visto como os dos bons valores da forja do Seixal.

O Maisfutebol apanhou-o logo a seguir ao Portugal-Itália (sub-20), particular realizado na sexta-feira em Almada e esteve à conversa com ele.

Um olhar para o passado, para presente, para o futuro e para as referências que tenta seguir com atenção. Dos mais velhos, aos (poucos mais) velhos e até aos da idade dele, como António Silva, também ele nascido em 2003 e a consolidar-se na equipa principal. «Se calhar não estávamos à espera que fosse já, de imediato. Mas não me surpreende pela qualidade que ele tem», aponta.

Maisfutebol – Apesar da derrota por 2-1, este jogo contra Itália foi a prova de que Portugal tinha nível para ser uma das equipas presentes no próximo Mundial sub-20 na Indonésia?

Martim Neto – A Itália também tem muita qualidade. Tivemos o azar de não conseguir o empate no último jogo da ronda de elite contra a Inglaterra.

MF – E o azar de terem calhado no grupo da seleção que acabaria por sagrar-se campeã europeia…

MN – Sim, sim. Mas acho que Portugal consegue bater-se com qualquer seleção. Mas só passava uma seleção e acabou por ser Inglaterra a passar.

MF – Mas sente que Portugal tinha qualidade para estar naquele lote de seleções europeias no Mundial?

MN – Sim. As seleções portuguesas têm sempre muita qualidade para competirem com as melhores seleções do Mundo.

MF – E neste jogo com Itália, embora particular, também era importante para vocês transmitirem essa mensagem?

MN – Não. Acima de tudo, o mais importante era sermos iguais a nós próprios e fazermos aquilo que os treinadores nos pedem. Agora temos um treinador novo e estamos a tentar assimilar as ideias, mas é sobretudo isso: fazer o que nos pedem, o que fazemos nos clubes e ter alegria dentro de campo.

MF – E quais foram as sensações passadas nestes primeiros tempos de contacto com a nova equipa técnica liderada pelo Bino?

MN – São ideias positivas. Estamos a trabalhar bem, a maior parte do grupo já se conhece todo e isso também ajuda depois na integração da equipa técnica. Agora estamos a formar uma nova família e queremos ter bons resultados esta época apesar de não termos nenhuma competição oficial.

No particular da Seleção sub-20 com Itália na quinta-feira. Martim Neto foi titular (FOTO: FPF)

MF – Nove dos 22 jogadores convocados para este estágio dos sub-20 de Portugal com jogos com Itália e Polónia pertencem à formação do Benfica. O que é que isto diz sobre esta casta da qual o Martim faz parte?

MN – Toda a gente sabe que o Benfica tem uma boa academia e a vinda de novos jogadores é a prova disso.

MF – E as recentes conquistas quer da UEFA Youth League e da Intercontinental mais recentemente também dizem muito sobre a qualidade desta geração, não?

MN – Sim. Acabámos por ter a sorte, entre aspas, de ter conseguido conquistar esses dois troféus, mas isso também podia ter acontecido a outras equipas portuguesas. Mas fizemos um bom trabalho e isto é só o início das nossas carreiras. Ainda temos muito pela frente.

MF – É natural que os adeptos do Benfica depositem grande expectativa na geração do Martim, porque conquistou o que nenhuma outra conquistou. O que é que lhes pode dizer?

MN – Acima de tudo, têm de ter alguma paciência, porque nem todos os jogadores com 18 ou 19 anos chegam às equipas principais e conseguem afirmar-se logo. Mas nós estamos a trabalhar para darmos uma boa resposta quando o treinador da equipa principal decidir que estamos prontos.

MF – E em que ponto de maturação o Martim sente que está?

MN – Ainda tenho muito para aprender. Já tenho um ano e meio de II Liga e agora estou a fazer mais uma época. Sinto que ainda tenho muito por onde crescer, mas espero dar uma boa resposta quando tiver uma oportunidade.

(FOTO: FPF)

MF – Disse que outras equipas portuguesas também podiam ter o sucesso internacional que o Benfica teve este ano. Nota esse equilíbrio entre Benfica, Sporting, FC Porto e Sp. Braga, sobretudo?

MN – Sim. Muitas equipas portuguesas têm trabalhado bem nas camadas jovens e tem-se vindo a mostrar isso. Temos tido campeonatos bastante competitivos e ainda bem que assim é. Que Portugal tenham esses bons jogadores jovens na formação para conseguir atingir altos níveis.

MF – O Martim vem de uma família de desportistas, com gente ligada ao futebol, ao voleibol e ao hóquei, onde estão o seu pai e o seu irmão. Nunca o tentaram puxar para o hóquei?

MN – Já! Cheguei, salvo erro, a estar hóquei durante um mês.

MF – Que idade tinha?

MN – Tinha uns cinco ou seis anos. Depois ainda experimentei o ténis e só depois é que fui para o futebol.

MF – Porque é que só esteve um mês no hóquei? Não se ajeitava?

MN – Eu gostava de ver, mas não gostei muito da prática com os patins e o stick.

MF – Hóquei, ténis, futebol… Mais alguma coisa?

MN – E natação.

MF – E quando é que começa no futebol?

MN – Com seis ou sete anos, logo a seguir ao hóquei. Comecei numa academia do Sporting em Viana do Castelo.

MF – O Sporting teve-o debaixo de olho?

MN – Ainda cheguei a fazer torneios em Lisboa com o Sporting até aos dez anos. Depois, fui para a escola do Benfica em Braga e no ano a seguir fui para Lisboa, para o centro de estágio.

MF – E como é que foram os primeiros tempos no Benfica, longe da sua família, com 12 anos? Foram duros?

MN – É difícil para qualquer pessoa estar longe da família, mas cada um acaba por gerir à sua maneira. Pessoalmente, nunca tive muitos problemas. Também tive sempre um apoio muito forte da minha família e ia a casa de 15 em 15 dias. Acabou por ser uma adaptação relativamente fácil.

Segundo a contar da direita, sentado no banco de suplentes durante o Paços de Ferreira-Benfica, da última jornada da Liga 2021/22. Martim Neto estreou-se nesse jogo com a camisola principal das águias (Lusa)

MF – No ano passado estreou-se pela equipa principal do Benfica na última jornada da Liga. O que é que lhe passou pela cabeça quando o treinador Nelson Veríssimo lhe disse que ia para Paços de Ferreira com a equipa e, depois, quando o chamou para entrar?

MN – Foi um sonho tornado realidade. Quando vamos jovens para a academia, o nosso sonho é estrearmo-nos na equipa principal e foi sobretudo um sentimento de orgulho e de dever cumprido.

MF – Estava tranquilo? Nervoso? Ansioso?

MN – Estava um bocadinho ansioso, mas acabei por ficar tranquilo quando entrei em campo.

MF – E falou com alguém antes do jogo? Alguém que lhe tenha passado uma mensagem de força, de tranquilidade?

MN – Falo sempre com os meus pais antes dos jogos. Disseram-me o que me dizem sempre: para estar tranquilo e para fazer o que faço sempre, jogar o meu futebol.

MF – Fez uma tatuagem para assinalar a estreia como o Tiago Gouveia?

MN – [risos] Não fiz, não fiz.

MF – Não tem tatuagens?

MN – Tenho uma [n.d.r.: mostra o braço e mostra uma em árabe]. Diz família.

MF – Entretanto, no verão passado fez parte da pré-época com a equipa principal do Benfica, com quem foi para Inglaterra e também para o Algarve. Esperava conquistar um espaço no plantel principal?

MN – Não me foquei muito nisso. Foquei-me sobretudo em fazer o meu trabalho, em fazer o que o treinador pedia e em aprender com os jogadores da equipa principal. Para os mais jovens, as pré-épocas servem sobretudo para isso: para aprender, assimilar ideias e eu fiz o meu trabalho.

MF – Ficou surpreendido com algum jogador do Benfica pela qualidade?

MN – Acabam todos por surpreender, porque quando passamos a ter um contacto diário de treino com eles, vemos que têm muita qualidade. Mas talvez o David Neres.

MF – Porquê?

MN – Tem aquele um para um brasileiro, de ir para cima sem medo. Acima de tudo por isso.

MF – Já disse que ficar imediatamente na equipa principal não foi algo que estivesse muito presente no seu pensamento, mas é normal que se alimente essa esperança quando se está naquele espaço. Como é que se lida depois com o natural sentimento de alguma tristeza quando se recebe a notícia de que o caminho imediato vai passar pela equipa B novamente? Como é feita essa gestão emocional?

MN – Eu não fui lá com muitas expectativas, porque tenho noção da qualidade do plantel e sabia que muito dificilmente ia ter lugar na equipa. Acabou por não ser muito difícil, porque já estava à espera de ir fazer jogos à equipa B. É trabalhar para, se houver oportunidade seja por lesão de alguém ou outro motivo, estar pronto no dia em que o treinador me chamar.

MF – O facto de vir de uma família de desportistas, gente habituada ao sucesso mas também ao insucesso, ajuda-o a ter essas ferramentas que ajudam a gerir bem as expectativas e a superar bem os momentos de adversidade?

MN – Sim. A minha família sempre me deu muito apoio e ouço muito os conselhos do meu pai, da minha mãe e do meu irmão. Dão-me muitos conselhos e tento ouvi-los ao máximo, porque têm outra experiência de vida.

Nos primeiros dias da pré-época com a equipa principal do Benfica

MF – Como é que tem visto o rendimento do Enzo Fernández, um jogador que atua na mesma posição que o Martim e que se tem destacado neste arranque de época?

MN – Olho para ele como uma referência. Se ele está a ter o sucesso que está a ter no Benfica, e se é aí que eu também quero chegar, tento seguir os passos dele. Tento ver o que ele faz e o que não faz para perceber o que tenho de fazer para chegar lá.

MF – Identifica algumas semelhanças entre o seu jogo e o dele?

MN – Sim, algumas. Ele tem muita qualidade de passe, gosta de vir buscar jogo para construir e eu também gosto. Tem boa visão de jogo…

MF – E o que é que ele tem que o Martim gostava de ter ou de aprimorar?

MN – A agressividade, a reação à perda.

MF – Disse em tempos que o Kevin De Bruyne era o seu ídolo. O que é que tenta ir buscar dele?

MN – Tudo [risos]. Ele era uma referência, mas hoje em dia já não é tanto. Sinto que sou um jogador diferente. Ele é mais ofensivo, marca golos e faz mais assistências. Admiro-o muito, mas não digo que hoje em dia seja uma referência.

MF – Acredita que ainda pode vir a ter as suas oportunidades na equipa principal esta época? Uma oportunidade que, por exemplo, o António Silva já teve?

MN – O António trabalhou muito na pré-época e agarrou a oportunidade quando a teve. Temos de lhe dar todo o mérito. E eu vou tentar fazer o mesmo: vou trabalhar e depois cabe ao treinador decidir.

MF – O Martim é da mesma geração do António Silva. Surpreende-o o que ele tem estado a alcançar?

MN – Não! Se calhar não estávamos à espera que fosse já, de imediato. Mas não me surpreende pela qualidade que ele tem. Apesar de não dar muito nas vistas, ele sempre foi um central com muita qualidade e o sucesso que tem é mérito dele.

MF – Quando diz que ele não dava muito nas vistas, refere-se ao quê em concreto? Para o público ou mesmo no seio do próprio grupo?

MN – Cá para fora. Os adeptos, por exemplo, não falavam muito dele. É um central muito completo com e sem bola. É agressivo, tem uma boa construção, é muito seguro a sair a jogar e tem posto isso em prática.

MF – E que mensagem passa para vocês, mais novos, a aposta do Roger Schmidt nele e também o facto de haver nove jogadores da formação do Benfica na equipa principal? Uma mensagem de esperança?

MN – Sim. De alguma forma, sim. As portas estão abertas e acho que se trabalharmos como devemos mais tarde ou mais cedo teremos a nossa oportunidade. Mas temos de trabalhar e de ter paciência.

MF – Mas sente que o Roger Schmidt está muito atento ao vosso trabalho?

MN – Sim. A ideia que tenho é que ele acompanha muito a equipa B e os sub-23. Está sempre atento ao nosso trabalho.

MF – Que sonho gostava de concretizar até ao final desta época?

MN – Gostava de fazer parte do plantel e de fazer alguns jogos pela equipa A. No início da época fui um bocado abaixo, mas agora sinto que estou a voltar a trabalhar bem e que, se continuar assim, estou mais perto.

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