Rixa do Intendente pode ter motivações políticas. "É disputa de poder sem sentido"

13 jan 2025, 18:22

É o líder da comunidade do Bangladesh em Portugal, Rana Taslim Uddin, quem antecipa o motivo, ou motivos, dos confrontos entre dois grupos rivais, domingo, no Largo do Intendente, em Lisboa. PSP continua a investigar, ninguém foi detido

Os confrontos ocorreram no Largo do Intendente e não na Rua do Benformoso, que fica pouco ao lado, e menos ainda no Martim Moniz, alguns metros abaixo. Mas é do Martim Moniz, e de outros locais em Lisboa, um dos grupos que se envolveu num confronto, violento, com recurso a facas e bastões, e do qual resultaram pelo menos sete feridos. O outro grupo rival será oriundo de Vila Nova de Milfontes, no Alentejo. 

A garantia não é da PSP, que por ora continua a investigar o caso e procura identificar os responsáveis pela desordem de domingo — não houve ainda qualquer detenção. A garantia é de Rana Taslim Uddin, líder da comunidade do Bangladesh em Portugal, que aponta também à CNN Portugal os motivos. Recusa o tráfico de droga, recusa também um conflito por território, “nada de negócios nem de comércio”, mas defende que tudo pode ser fruto dos conflitos políticos que se vêm disputando no Bangladesh, um país que em 2024 esteve a ferro e fogo, com protestos violentos que duraram semanas e causaram pelo menos 300 mortos e cerca de 11.000 detidos. 

A primeira-ministra Sheikh Hasina, acossada, acabaria, em agosto, por fugir do país, refugiando-se em Bengala Ocidental, na Índia. O governo, eleito em janeiro, cairia. Hasina é do partido Liga Awami. Os confrontos que aconteceram em Lisboa têm outro protagonista, o partido da oposição, os nacionalistas do BNP. 

Rana Taslim Uddin começa por explicar o que aconteceu no país ultimamente: “O Bangladesh, politicamente, está hoje numa crise. Houve eleições em janeiro, depois, em julho, começa um movimento estudantil na rua, protestos, confrontos, e o governo caiu, um governo com mais de 15 anos, era a sua [Sheikh Hasina] quarta eleição seguida. Os estudantes, e partidos da oposição, não aceitaram os resultados das eleições de janeiro. Toda a gente teve de fugir, primeira-ministra, ministros, dirigentes [da Liga Awami]. Agora está no poder um governo interino, liderado por Muhammad Yunus — um Nobel da Paz, sem nenhum partido, respeitado no Bangladesh, um  intelectual — até haver eleições, em 2026.” 

Diz Rana Taslim Uddin que no Bangladesh há diversos partidos, “partidos de esquerda, de direita, comunistas, fundamentalistas”, mas o BNP é o grande partido da oposição ao Awami, “como se fosse o PSD e o PS”. “O Awami agora está ‘calado’, porque Sheikh Hasina perdeu o respeito da população, e o BNP tem estado mais ativo. E aqui em Portugal quer fazer uma ‘sucursal’. E a sucursal terá um dirigente, um líder à frente. O problema é que há dois interessados, um de Lisboa — do distrito, se quisermos — e outro do Alentejo. Foi a razão do confronto [no Intendente], uma disputa”, assegura. 

A razão de ter sido em Lisboa a disputa, e naquela localização da capital, é porque é “um ponto de encontro”, assegura o líder da comunidade do Bangladesh. “As pessoas ao fim de semana deslocam-se até Lisboa para comprar mercearias, especiarias, peixe. Ambos os grupos costumam vir frequentemente até ao Martim Moniz, Intendente, Benformoso. Mas aquelas pessoas não são comerciantes do Benformoso, não são donos de lojas, nem sequer vivem no Benformoso. Alguns até podem ser do Martim Moniz, mas poucos são”, sublinha Rana Taslim Uddin. 

“E agora?”, é o que muitos lhe perguntam — tornará a haver um confronto? Rana Taslim Uddin, enquanto aguarda “que a PSP investigue”, é taxativo a responder: “Acredito que não voltará a acontecer [um confronto]. Porque a comunidade está assustada, odiou, não quer ter esta fama. Isto tem de acabar, não é aceitável na sociedade em Portugal.” Nem em Portugal, nem no Bangladesh. 

"A comissão de eleições no Bangladesh proíbe, e já há 10 anos, qualquer partido de se organizar fora do Bangladesh. É proibido. Por outro lado, e apesar de haver 60.000 cidadãos do Bangladesh em Portugal, nem sequer vão poder votar na embaixada. Não têm possibilidade. Se quiserem ir votar, têm de ir ao Bangladesh. Portanto, não há vantagem absolutamente nenhuma, nem lucro, nem nada. É disputa de poder sem sentido”, conclui.

Falando em disputa, as eleições legislativas bengalis decorreram há precisamente um ano. Sheikh Hasina venceria novamente, ela que é uma das figuras históricas do Dia da Vitória, que assinala a Independência do país em 1971. No entanto, as eleições de 2024, como outros atos — Hasina foi primeira-ministra de 1996 a 2001 e de 2009 a 2024 —, ficaram manchados por acusações de corrupção, o que levou até a oposição a boicotar as eleições de janeiro, que tiveram uma participação de pouco mais de 27% dos eleitores — isto num país com 173 milhões de habitantes. 

Curiosamente, não foram as suspeitas de fraude, nem tão pouco as acusações de politização da justiça, detenções maciças, execuções de opositores e violações generalizadas dos direitos humanos que fizeram cair a primeira-ministra Sheikh Hasina. Foi, sim, uma decisão, em julho, de restituir a lei que prevê que 30% dos lugares na função pública fiquem reservados aos descendentes dos veteranos da guerra de 1971, normalmente filiados ao partido Liga Awami. 

Os protestos, reprimidos com violência pelas autoridades — e com recolher obrigatório decretado pelo governo —, não pararam de aumentar, envolvendo sobretudo estudantes. Ao fim de quatro semanas, e perante a iminente invasão e pilhagem do palácio governamental, Sheikh Hasina só teve uma hipótese: abdicar, fugindo de helicóptero de Daca. 

O presidente do Bangladesh, Mohammed Shahabuddin, nomearia Muhammad Yunus primeiro-ministro interino. Yunus, de 84 anos, é conhecido como “banqueiro dos pobres” e o prémio Nobel da Paz que recebeu em 2006 foi precisamente por ter fundado o Grameen, um banco que concede empréstimos aos pobres do Bangladesh. Apartidário, Muhammad Yunus marcará eleições para “final de 2025 ou início de 2026”. Antes, diz estar diante de uma desafio “"extremamente difícil”: o de reformar as instituições e o poder no Bangladesh. 

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