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Uma demissão no fuso horário de Marcelo

30 ago, 13:43

À hora a que o primeiro-ministro decidiu anunciar ao país a demissão da ministra da Saúde, Marta Temido, grande parte dos portugueses já estaria a dormir, mas o mais provável era que Marcelo Rebelo de Sousa ainda estivesse acordado a ver as notícias que iam chegando pela CNN Portugal de mais uma morte no Serviço Nacional de Saúde.

O noctívago Presidente da República, que andou nos últimos meses a segurar a ministra com uma mão e a dar-lhe pauladas políticas com outra, recusou sempre – como fez com Constança Urbano de Sousa – pedir a “cabeça” de Marta Temido numa bandeja, mas os sinais de fumo que foi enviando à ministra e ao próprio António Costa só podiam fazer adivinhar este desfecho.

O Estatuto do Serviço Nacional de Saúde – sobre o qual Marcelo Rebelo de Sousa fez saber que tinha as maiores dúvidas –­ é só o episódio mais recente de um isolamento profilático a que o Presidente da República foi dotando Marta Temido, antecipando que, mais dia, menos dia, ela sairia pela porta pequena.

Basta recuar uns meses, às malogradas semanas dos feriados, com urgências e várias especialidades a encerrar, sobretudo a sul do país, e recordar quão só andou a ministra da Saúde, em conferências de imprensa mal enjorcadas, a tentar pôr pensos rápidos num Serviço Nacional de Saúde cheio de hemorragias.

Com António Costa lá por fora, a atirar as perguntas dos jornalistas para a sua ministra cada vez mais fragilizada, ia Marcelo chegar-se à frente e ocupar – como o faz tantas vezes – o espaço vazio deixado pelo primeiro-ministro? Não. Marcelo sabia – se é que não tinha mesmo a certeza – que a pasta da Saúde precisava de outro protagonista político.

A morte de um bebé em junho e a de uma grávida esta semana não terão ajudado à causa de Marta Temido, mas seguramente não terá sido essa a principal causa da sua demissão. Porque mortes há, infelizmente, todos os dias, no público e no privado. Erros humanos também os há, todos os dias. No público e no privado. Mas às doze badaladas, o Presidente ainda estava acordado. E o que não podia continuar era esta ideia cada vez mais instalada de que a saúde em Portugal está ingovernável e que a responsável por esta pasta era uma ministra que tinha perdido o respeito dos profissionais do setor, da oposição, do partido que suporta o governo, do primeiro-ministro e do Presidente da República.

Marcelo já tinha decidido acertar o relógio ao Governo. A notícia que Belém “plantou” no Expresso, este fim de semana, foi, claramente, uma dica do Presidente ao primeiro-ministro, lembrando-lhe que, se calhar, estava na altura de trocar Marta Temido. Mas do épico passeio de automóvel que Marcelo Rebelo de Sousa proporcionou à CNN Portugal este verão saíra um recado bem mais sério. Desta vez, ao eleitorado.

Referindo-se, metaforicamente, às capacidades ilimitadas de sucção do primeiro-ministro, o Presidente descreveu-o como alguém que gosta de ter mão em tudo e que, se pudesse, seria ele próprio ministro de todas as pastas.

O tom engraçadinho com que Marcelo diz esta e outras coisas faz, muitas vezes, com que não nos detenhamos no conteúdo da mensagem. Mas, neste, como em muitos outros casos, há uma mensagem subliminar nas palavras do Presidente a que devemos dar particular atenção: se António Costa quer sugar todo o poder político dos seus ministros, deve ser ele, também, a sofrer a responsabilidade política por aquilo que acontece.

Dirão alguns que isso já está subjacente ao cargo do primeiro-ministro. É ele o principal responsável por tudo o que acontece no seu governo. E têm razão. Mas o passado recente mostra-nos que, no caso da saúde, como no caso dos incêndios, do aeroporto e de tantos outros dossiês – nunca esquecer Eduardo Cabrita –­, António Costa deixa os seus ministros a arder em lume brando até eles fritarem, e, no final, sai sem uma única queimadela.

Veremos como sai o primeiro-ministro desta vez. Uma coisa parece-me óbvia: o que se tem passado nestes primeiros meses de maioria absoluta do Partido Socialista não é apenas mau demais para ser verdade. É muito grave. E o que temos visto de Marcelo, na sua gestão muito própria do tempo político, foi ora uma colagem ao Governo, ora um distanciamento, sem que se perceba muito bem, por vezes, o que pensa realmente o Presidente da República sobre o estado a que chegaram os serviços públicos em Portugal. E era importante que o fizesse. Porque reconhecendo, como julgo que todos reconhecemos, que há problemas que são estruturais e que se arrastam há décadas, é preciso assumir com frontalidade que António Costa é primeiro-ministro há seis anos. Não chegou ao poder há quatro meses. Que na saúde, como em muitas outras áreas da administração pública, os problemas têm vindo a agravar-se e que nem tudo se resolve atirando dinheiro para cima deles. Era importante que o Presidente da República lembrasse o primeiro-ministro que esta maioria absoluta não pode servir apenas para gerir calendário político. Tem de servir para melhorar o país.

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