Os quatro sucessores de Temido e os quatro cenários para a Saúde

30 ago, 18:12
António Costa (Marta Temido)

Três homens médicos e uma mulher especialista em administração hospitalar são os mais apontados como possíveis sucessores de Marta Temido. Têm perfis diferentes e cada um representa uma estratégia diferente de António Costa para os próximos tempos

O perfil do sucessor de Marta Temido vai revelar, de imediato, a estratégia que António Costa tem reservada para a Saúde. Avançar com reformas, conter a pressão mediática dos próximos tempos, dar continuidade ao legado de Temido ou garantir o equilíbrio das quotas do governo e acalmar o PS. É com base numa destas opções que o primeiro-ministro vai escolher o próximo ministro da Saúde. São quatro os nomes que nos bastidores são dados como previsíveis, desejados, ou até possíveis surpresas. E cada um deles significa um sinal diferente, acreditam políticos, ex-governantes e profissionais de saúde. 

Fernando Araújo  

É talvez o nome mais unânime na Saúde. Poucos minutos depois de a demissão ser conhecida, a possível escolha de Fernando Araújo, 56 anos, médico e presidente do conselho de administração do Hospital de São João, no Porto, para substituir Marta Temido foi automaticamente assumida entre a classe médica, e não só, como a melhor opção. E, em conversas de bastidores, todos sublinhavam a sua competência, independência e capacidade técnica. Mas o facto de nos últimos tempos ter assumido posições duras e críticas quanto ao governo em algumas declarações e artigos de opinião pode impedir, segundo várias fontes, a escolha. “Quem quer ter um ministro que fez duras críticas à ação do governo?”, questiona um antigo governante. Recentemente, Fernando Araújo considerou que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) estava sem norte e avisou que não parava de perder profissionais, médicos e enfermeiros, fruto da falta de medidas.

A seu favor tem o facto de o Hospital de São João, que lidera, estar entre os melhores do país em eficácia e produtividade. Aliás, durante a pandemia, o hospital surpreendeu pela forma como conseguiu reagir ao primeiro embate do aumento brusco dos doentes de cuidados intensivos por causa da covid-19 e chegou a assumir posições críticas quanto à política seguida. “Era uma ótima escolha para ministro e um sinal de que Costa queria um técnico que reformasse”, diz um responsável da área da saúde. No entanto, poucos acreditam que António Costa vá avançar para uma reforma do SNS. “Não é um reformista.”

Fernando Araújo, apelidam os colegas, é “um excelente técnico” que iria querer tentar implementar medidas. Mas, acreditam muitos, talvez precisasse de algumas garantias de Costa. “Duvido que ele as possa dar”, diz outro responsável. Fernando Araújo tem experiência no ministério, tendo sido secretário de Estado Adjunto e da Saúde do anterior ministro socialista, Adalberto Campos Fernandes, e tem crédito junto de comentadores e opinião pública, o que lhe podia dar o benefício de dúvida durante os próximos tempos.

Manuel Pizarro

É o perfil que pode preencher melhor a estratégia de António Costa. Manuel Pizarro, 58 anos, é um político com experiência e pode ajudar o primeiro-ministro a lidar com a pressão mediática e política que envolve o caos que está instalado nos hospitais. “É um político com muita sabedoria e um dos nomes mais prováveis para substituir Marta Temido”, considera um responsável da área da saúde. Apesar de estar agora no Parlamento Europeu, quem conhece bem Manuel Pizarro, acredita que dificilmente diria que não a António Costa.

Seria uma escolha que daria sinais de que o primeiro-ministro quereria um político a comandar a pasta da saúde e que o ajudaria a enfrentar o país, o partido e os intervenientes na saúde. “É médico, socialista e tem uma enorme capacidade política que neste momento é essencial” perante a situação em que está o SNS, nota um socialista. Além disso, partilha com Fernando Medina, o ministro das Finanças que tem de dar luz verde aos gastos de saúde, uma carreira no PS de apoio a Costa. 

Manuel Pizarro já foi secretário de Estado da Saúde por duas vezes e o seu nome já surgiu como ministeriável noutras ocasiões. Agora, o lugar de presidente da delegação do PS no Parlamento Europeu pode dar-lhe o estatuto de que Costa precisa para tentar acalmar a opinião pública e a oposição. “Manuel Pizarro até já foi do PCP”, recorda um antigo governante, acreditando que a habilidade política de Pizarro pode torná-lo na escolha de Costa. “Ao ser esta a opção, seria um sinal de que o primeiro-ministro não quer grandes mudanças, mas apenas conter os estragos e lidar com questão de forma política”, refere um outro responsável médico.

Rosa Matos Zorrinho

Lidera o Centro Hospitalar Lisboa Central e é elogiada pelas suas capacidades “técnicas”. E pode ser a solução para António Costa cumprir a ideia que tem defendido de que é preciso haver mais mulheres “em posição de direção e em funções executivas”.  “Pode ser a solução para garantir as quotas que António Costa sempre defendeu”, comenta um médico. Aliás, ainda esta segunda-feira, quando confrontado com a pergunta dos jornalistas sobre qual poderá ser o perfil do próximo ministro, Costa respondeu de imediato: “Ministro ou ministra”, sublinhando que o género não pode ser limitativo.

Tal como os outros nomes mais falados, Rosa Matos, 60 anos, também já esteve nos gabinetes do Ministério da Saúde, quando foi substituir Manuel Delgado como secretária de Estado da Saúde, na época em que Adalberto Campos Fernandes era ministro. “É tímida e não gosta de exposição”, conta um responsável da saúde que a conhece bem. No entanto, um outro antigo governante garante que “é uma mulher que gosta de desafios”.

Rosa Matos esteve a liderar durante algum tempo a Administração Regional de Saúde e Vale do Tejo, como Presidente do Conselho Diretivo, conhecendo bem os problemas que se vivem nos hospitais, um dos temas com que o próximo titular da pasta terá de lidar. Especialista em administração hospitalar, é a única dos quatro nomes que não é médica. “Mas Costa pode querer manter uma mulher no Governo e ela tem muita capacidade”, diz um político que a conhece bem. Nos últimos tempos, teve alguns atritos com Marta Temido, com quem não se estava a dar bem.  “Será uma ministra que pode trazer tranquilidade”, refere um responsável, explicando que aí Costa assumiria a estratégia política da situação.

António Lacerda SalesSe há uns meses era visto como uma certeza na sucessão de Marta Temido, atualmente já não é tão consensual. Se for a escolha de António  Costa, a mensagem será clara, dizem vários responsáveis: “É para continuar tudo igual”. Lacerda Sales, médico e atual secretário de Estado adjunto e da Saúde, 60 anos, tem os seus pares como aliados. Aliás, ao longo dos últimos tempos, era difícil encontrar algum médico que o criticasse publicamente. “É próximo dos médicos”, dizem. Ao mesmo tempo, muitos sabiam que a ministra estava por um fio e acreditavam que ele seria o seu sucessor natural. É apontado como um homem com “habilidade de contatos e na forma de fazer declarações públicas”. Mas, por outro lado, está associado a uma equipa que muitos responsabilizam pelo caos que se instalou. Há partidos a pedir também a sua demissão. E, apesar de os médicos o terem apoiado, nos últimos tempos a relação pacífica estava a começar a mudar. O Sindicato Independente dos Médicos chegou mesmo a dizer que estava “incrédulo” com a posição de Lacerda Sales a defender que não especialistas fossem colocados nos centros de Saúde para fazer o trabalho dos médicos especialistas que o Governo deixa fugir para o privado por falta de condições.  Lacerda Sales preparava-se para ir esta segunda-feira a Viana do Castelo inaugurar um serviço médico, mas cancelou. A ideia que corre é resumida por um responsável do setor: "Se for ele o novo ministro da Saúde será uma surpresa. Mas Costa gosta de surpreender".

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