Entrada de 50 mil migrantes em Espanha abre guerra diplomática. Europa reage em força e até se fala no fecho de fronteiras

António Guimarães , Atualizada às 12:26
31 jul, 10:26

Novas imagens mostram a dimensão da passagem a nado de marroquinos para Espanha

Filas de milhares e carros a arder: as imagens da noite em Ceuta

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Itália tem em cima da mesa o encerramento do Espaço Schengen, enquanto França já anunciou o reforço do controlo de fronteiras. Suécia, Finlândia e Alemanha também já reagiram. Von der Leyen pede "deportações rápidas"

Começaram às centenas e rapidamente passaram a milhares. Ceuta atravessa a maior crise migratória da sua história e não param de chegar pessoas vindas de Marrocos. São já cerca de 50 mil os migrantes que atravessaram a nado ou a pé para o exclave de Espanha no continente africano, o que está a provocar uma crise diplomática.

As primeiras reações vieram de Itália e França, que mostraram preocupação com a entrada de dezenas de milhares de imigrantes ilegais em território europeu.

O governo liderado por Giorgia Meloni anunciou que está a estudar o possível encerramento do Espaço Schengen com Espanha, o que interromperia a livre circulação de pessoas entre os dois países.

Esta é uma decisão que qualquer país europeu pode tomar de forma unilateral, desde que esteja em causa uma ameaça clara à segurança, como parece ser o entendimento do governo italiano.

A primeira-ministra de Itália afirmou que a “imigração ilegal descontrolada coloca uma ameaça concreta à segurança das fronteiras da Europa”. Giorgia Meloni está em estreita coordenação com o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, tendo garantido que o país “não vai ficar a ver” o que está a acontecer.

“Estamos a convocar os organismos relevantes e, depois destas reuniões, estamos preparados para intervir com medidas extraordinárias para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, incluindo na suspensão do Espaço Schengen com Espanha”, reiterou, garantindo que os repatriamentos vão continuar a ser uma linha definidora do governo italiano.

Uma postura que, de acordo com o El Mundo, não agradou ao governo espanhol, talvez também por causa das palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália, que acusou diretamente as políticas de Pedro Sánchez de permitirem este cenário.

“As imagens que chegam desde Ceuta demonstram como a decisão do governo de Madrid de conceder a cidadania espanhola, e por isso europeia, a mais de 500 mil imigrantes ilegais é profundamente errada e incentiva o tráfico de seres humanos”, escreveu Antonio Tajani na rede social X.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha não gostou do que leu e, também através das redes sociais, classificou estas palavras de “impróprias de um ministro dos Negócios Estrangeiros de um país sócio e amigo do qual esperamos solidariedade europeia e não demagogia partidária”.

José Manuel Albares decidiu mesmo convocar o embaixador de Itália em Espanha, numa decisão diplomática que deve servir para demonstrar o desconforto com a situação.

Apesar da rápida reação do governo espanhol, os problemas diplomáticos também estão a chegar de França, que faz fronteira terrestre com Espanha. O antigo primeiro-ministro francês Michel Barnier pediu que se coloque a legislação europeia sobre as migrações em ação.

“Todas as pessoas que se estejam ilegais e não tenham direito legal a permanecer devem ser devolvidas de forma efetiva”, referiu, avisando que “França não pode suportar as consequências das políticas migratórias dos seus vizinhos”.

Ainda mais oficial, o ministro do Interior de França anunciou que foram dadas instruções para reforçar a fronteira com Espanha “sem demoras”.

“Além disso, ativo a Força de Fronteira de intervenção rápida para controlos de profundidade”, acrescentou Laurent Nuñez.

Outros países europeus também reagem. Von der Leyen considera a situação "inaceitável"

A ministra do Interior da Finlândia apoiou a ideia de excluir Espanha do espaço Schengen durante a crise migratória. De acordo com Mari Rantanen, “Espanha fracassou por completo na proteção da fronteira exterior do espaço Schengen em relação à migração irregular”.

“Isto não pode continuar. Todos os países devem apoiar a proposta de [Giorgia] Meloni”, acrescentou, referindo que os Estados-membros que não cumprem a obrigação de proteger a fronteira não podem pertencer a Schengen.

O primeiro-ministro da Suécia pediu às autoridades espanholas que tomem conta da situação em Ceuta. De acordo com Ulf Kristersson, Espanha deve “recuperar o controlo da situação”. “É importante que Espanha atue com prontidão para recuperar o controlo da situação e cumprir com os seus compromissos da cooperação de Schengen”, escreveu.

O chanceler alemão Friedrich Merz saudou "a intenção de Espanha de não permitir a entrada de imigrantes ilegais no continente europeu" e afirmou que "a proteção das fronteiras externas da União Europeia é crucial para o combate à imigração ilegal". 

"Espero sinceramente que todos os Estados-Membros da UE cumpram esta obrigação", disse o chanceler, citado pela Reuters.

Também a presidente da Comissão Europeia classificou a situação que está a ocorrer em Ceuta como “inaceitável”. Na primeira reação à crise migratória em Espanha, depois da entrada de cerca de 50 mil migrantes a partir de Marrocos, Ursula von der Leyen afirmou que “não podemos permitir a ninguém que venha para a nossa União sem cumprir as nossas regras”.

A responsável máxima da União Europeia defende que estas “travessias perigosas devem parar imediatamente”. “As redes de tráfico têm de ser desmanteladas. As deportações devem ser rápidas, como as nossas regras permitem”, acrescentou, referindo que pediu a dois comissários que acompanhem a situação.

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