Sarah Wynn-Williams foi diplomata neozelandesa e diretora de Políticas Públicas Globais do Facebook. No livro "Gente Pouco Recomendável" denuncia as situações de misoginia, assédio e as decisões controversas que marcaram a plataforma, revelando o impacto global do poder concentrado na empresa de Mark Zuckerberg
"Foi o idealismo que me levou ao Facebook". É desta forma que Sarah Wynn-Williams começa o livro "Gente Pouco Recomendável" que chegou às livrarias portuguesas esta semana.
Na obra, a antiga diplomata neozelandesa explica como é que "à medida que foi subindo na hierarquia, foi descobrindo um ambiente dominado por ambição, misoginia e hipocrisia".
Sarah começa por escrever que, inicialmente, viu o Facebook como uma forma de se “ligar às coisas que eram importantes" e que "em meados de 2009", o seu "fascínio pela rede social evoluiu para uma convicção inabalável de que o Facebook ia mudar o mundo".
No entanto, ao longo do caminho a ideia de que a mudança do mundo ia acontecer de forma pacífica começou a ruir como um castelo de cartas. Ao longo de 48 capítulos, Sarah explica como imperou sempre o modo "quero, posso e mando" de Zuckerbeg, descreve os sinais de alarme sobre estratégias controversas com governos e mercados, como as questões relacionadas com a China, fala sobre a influência que a plataforma teve em eventos políticos e eleições, incluindo segmentação e desinformação, descreve como a plataforma foi negligente em países como Myanmar e mostra como a filosofia interna e os princípios que a empresa proclamava acabam por se revelar vazios ou contraditórios.
O livro de Sarah Wynn-Williams, antiga diretora de Políticas Públicas Globais do Facebook, chegou às livrarias portuguesas na quarta-feira, pela Editorial Presença. "Gente Pouco Recomendável – Uma história real sobre poder, ganância e idealismo perdido" é apresentado como o livro que Mark Zuckerberg tentou silenciar e promete um retrato crítico do interior de uma das empresas mais influentes do século XXI.
"Novo caos" diário
"Cada dia na equipa de política do Facebook é sinónimo de novo caos". No capítulo seis, Sarah conta como tem feito "progressos constantes", juntamente com Marne Levine, que chegou a ser diretora-executiva de negócios da empresa, "no processo de moldar este novo futuro". No entanto, depois de alguma troca de ideias com "os rapazes" que exigiam "saber o que vamos fazer para mudar o mundo", Sarah teve uma nova perspetiva sobre o seu futuro na empresa.
"A minha primeira pista de que isto pode não ser de todo o que eu esperava surge quando a equipa da área política se reúne na recém-criada sede do Facebook em Menlo Park, Califórnia. Ainda somos um grupo suficientemente pequeno, cerca de uma dúzia de pessoas, para cabermos à volta de uma mesa numa sala de conferências normal. Em vez de nos debruçarmos diretamente sobre os muitos problemas cruciais que temos de resolver, fazemos jogos de quebra-gelo e são-nos atribuídos questionários de personalidade", escreve.
A equipa debate como é que pode "encontrar uma causa na qual o Facebook possa ser líder" e depois de várias ideias que vão desde a adoção de cães e gatos abandonados, passam por apoio a militares, e acabam na doação de órgãos. Depois da troca de ideias, Marne Levine refere que "a primeira iniciativa pró-ativa do Facebook para construir relações com os governos de todo o mundo será a doação de órgãos", uma ideia com a qual Sarah não concordava, "mas não houve discussão".
"Como muitas outras coisas no Facebook, não importava o que a equipa de política debatia ou decidia; importava o que a Sheryl pensava". Sheryl Sandberg é uma das uma das figuras mais poderosas e simbólicas da história do Facebook/Meta, tendo sido considerada durante anos a número dois da empresa, logo abaixo de Mark Zuckerberg.
A execução da ideia de Sheryl não foi simples, com dez pessoas na equipa e com Sarah a tentar explicar que "o Facebook não vai encontrar dadores para doentes nem transportar órgãos por todo o mundo".
"Não vamos criar os nossos próprios registos de órgãos ou de doentes, nem recolher informações de saúde detalhadas. Na verdade, vamos tentar limitar a informação que o Facebook recolhe e guarda. A Sheryl parece perplexa com isto e foca-se na razão pela qual não concebemos a iniciativa de forma a permitir que o Facebook desempenhe um papel mais importante na recolha de dados, no mercado de órgãos e muito mais. Começo por explicar a complexidade legal, cultural e religiosa em torno da doação de órgãos a nível mundial e a sensibilidade da informação que os registos de órgãos detêm. Ela olha para mim como se eu fosse um idiota e não tivesse percebido o óbvio, o que suponho que é verdade. Não estava a olhar para isto como uma oportunidade de negócio, uma forma de começar a recolher dados de saúde dos utilizadores. Ao pressentir o perigo, falo do risco de tráfico de órgãos. Explico que os países se preocuparam muito em salvaguardar a informação sobre a doação de órgãos e que evitam o transporte transfronteiriço de órgãos. Ela vira-se para mim, indignada. O seu tom de voz é inconfundível," descreve Sarah.
Marne tenta salvar o momento, lembrando que "normalmente, quando o Facebook lança novas funcionalidades, assim que o código é lançado, não se pensa muito nas consequências no mundo real", mas o tema de doação de órgãos "exige" que se pense "em todas as regras e leis relevantes em cada país".
"Não temos os recursos para fazer esse tipo de trabalha em todos os países", afirma, para desagrado de Sheryl.
Apesar de todas as explicações, a número dois manda que o processo avance, mesmo com a equipa em desacordo e com os engenheiros a não estarem "convencidos da ideia" - sendo que "deram a conhecer as suas preocupações a Mark [Zuckerberg] e dizem que ele concorda com eles".
Marne passa assim a liderar um projeto que envolve Zuckerberg e Sheryl e é incumbida de enviar um email para anunciar que vão avançar com o projeto "explicando o ponto de vista dela como se fosse o meu".
"O Mark responde-me com uma série de ataques mordazes, sustentados pela sua forte convicção de que o Facebook deve ser «uma plataforma neutra» e que nunca devemos usar «a voz do Facebook» para interromper a experiência das pessoas na plataforma. Eu defendo a posição da Sheryl, contra a minha opinião. O Mark é arrasador e não quer ouvir nada do que digo. A Sheryl fica em silêncio. Mais tarde, diz-me que perdeu a conversa, porque não tinha wi-fi. Nunca saberei se é verdade (...). Tudo o que sei é que, nesse dia, recebi o meu primeiro e-mail direto do Mark Zuckerberg, um e-mail enviado apenas para mim. Tinha quatro palavras e dizia simplesmente: «Quem manda sou eu.»"
O mundo real sente o caos
Enquanto a equipa discute causas e iniciativas, os efeitos das decisões do Facebook chegam a milhões de pessoas que nem imaginam que estão envolvidas. Sarah descreve como a plataforma foi negligente em países como Myanmar, onde a falta de moderação de conteúdos em linha com discursos de ódio contribuiu para violência contra a minoria Rohingya.
“Quando finalmente admitimos o problema, já era tarde demais. Isto não foi um erro técnico. Foi uma falha moral”, escreve a autora, refletindo sobre como decisões tomadas em salas de conferência em Menlo Park podem desencadear crises humanas reais.
O livro mostra ainda o impacto da plataforma em eventos políticos, com microsegmentação de eleitores, desinformação e manipulação de conteúdos em eleições, incluindo nos EUA. Sarah ressalta que, apesar de algumas advertências internas, o crescimento e os interesses da empresa prevaleciam sobre a ética ou a responsabilidade social.
O assédio na hierarquia corporativa
No meio desse caos, Sarah encontra Joel Kaplan, um executivo sénior do Facebook que ocupou altos cargos na equipa de política global da empresa e foi seu chefe direto. Segundo a autora, Joel representava a cultura de poder concentrado dentro da empresa: fazia comentários inapropriados e comportamentos que Sarah considerava assédio, mas que raramente tinham consequências dentro da hierarquia corporativa.
A situação agravou-se durante a sua gravidez, quando Sarah relata falta de apoio e uma postura insensível por parte de Joel, que chegava a insistir em reuniões mesmo durante baixa médica. No livro, a autora conta a experiência de quase morte que viveu no parto da filha - "algo entrou na minha corrente sanguínea e impediu o sangue de coagular" - que a obrigou a 35 transfusões de sangue e a estar internada nos cuidados intensivos.
"Morrer no parto enquanto se trabalha em Silicon Valley é como ser atropelado por um cavalo e uma carruagem ou alvejado num duelo. É algo que pertence a um século diferente, a um país diferente. (...) E, no entanto, não é estranho. É, de facto, uma forma americana muito moderna de morrer. Os EUA têm a taxa de mortalidade materna mais elevada do mundo desenvolvido. E a parte chocante é que está a aumentar".
Sarah sai do hospital de cadeira de rodas e continua a perder sangue. "Após menos de uma semana em casa, tenho uma hemorragia enquanto ponho Sasha na cama. O Tom encontra-me na casa de banho com uma pequena poça de sangue e chama uma ambulância. Passado dois dias, tenho alta do hospital, mas continuo a perder sangue todos os dias".
A saúde de Sarah continua a preocupá-la, mas não ao seu chefe direto que todos os dias lhe envia mensagens e emails, assim como a sua assistente.
"Menos de duas semanas depois de ter tido alta do hospital, ele marca uma reunião semanal comigo. Como estou na Califórnia e ele em Washington, são videoconferências, mas começa a fazê-las esparramado na cama e não no seu gabinete", conta Sarah, acrescentando que este lhe pergunta mesmo se a situação a faz "sentir desconfortável".
Numa dessas videochamadas, a situação escala quando Joel lhe pergunta como está a sua saúde e ela responde que ainda está "muito doente", mas que vai precisar de mais cirurgias.
"Mas de onde é que estás a sangrar? - pergunta ele", naquela que seria a primeira tirada "invasiva" sobre a saúde de Sarah.
Quando a autora apresentou queixas internas, estas não foram tratadas com seriedade, e a estrutura da empresa acabou por proteger Joel em vez de acolher as preocupações de Sarah. A autora relata mesmo que uma pessoa da confiança de Joel a chamou para um café para lhe passar o recado de que ele não a despede se ela "calar a boca".
No final de “Gente Pouco Recomendável”, Sarah reflete sobre o legado das decisões tomadas dentro do Facebook/Meta, onde deixa claro que o problema não é apenas a tecnologia, mas as escolhas humanas e o poder concentrado em mãos de uns poucos.
"Estou sempre a pensar no que a empresa significava para mim antes de entrar. Todo o seu potencial, a promessa de conectar toda a gente no mundo. Como eu tinha a certeza de que o Facebook mudaria o mundo para melhor! O Facebook que vi na altura foi corrompido", escreve Sarah.
A autora acrescenta que se sente "consumida pelo lado mais sombrio" daquela rede social e que "não precisava ser assim".
"Se tivesse de resumir o que sete anos a observar as pessoas que gerem esta enorme empresa global me ensinaram, diria que era possível agir de forma diferente. Podiam ter escolhido fazer tudo de forma diferente e corrigir muito do que tem sido destrutivo no Facebook. Em cada momento, houve uma oportunidade de fazer escolhas diferentes: China, Myanmar, eleições, discurso de ódio, adolescentes vulneráveis. Poderiam ter feito tudo certo. Era possível seguir um caminho diferente. E, a longo prazo, teria sido também do seu próprio interesse. O Facebook, o negócio, a marca e a empresa estariam numa situação melhor. Todos nós estaríamos melhor. E os meus chefes pareciam não se preocupar minimamente com tudo isto. É isso que esta empresa é, e eu fiz parte dela. Falhei quando a tentei mudar, e carrego esse peso comigo."