Líder da defesa do Atlântico Norte ouviu promessas do primeiro-ministro, mas respondeu-lhe que "não é suficiente"
O secretário-geral da NATO veio a Portugal com alertas sérios, mas o primeiro-ministro quis antecipar-se e decidiu reforçar promessas e lançar também ele os seus avisos, "em particular aos Estados Unidos".
"Podemos dizer aos nossos parceiros, em particular aos Estados Unidos, que os Estados-membros da União Europeia já investem mais de 2% do seu produto na Defesa”, afirmou o chefe do Governo português, salientando que todos os países que fazem parte do bloco e da NATO já cumprem com esse objetivo.
“Eu não estou com isto a eximir uma responsabilidade em nome de Portugal de o fazermos o mais rápido que for possível e de podermos redefinir os nossos objetivos. Mas nós temos de atuar também como um bloco e temos de atuar como um bloco na execução das políticas e dos investimentos para sermos mais eficientes”, defendeu o primeiro-ministro de um dos oito países que não cumprem com os mínimos exigidos de 2%
As declarações surgem dias depois de o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, ter defendido o aumento para 5% do investimento dos países da NATO na Defesa, num gasto do qual ninguém se aproxima - a Polónia é o país que mais gasta, com 4,12%.
“Quero dizer, em nome do Governo português, que estamos disponíveis para antecipar ainda mais o nosso calendário para o investimento nesta área. O Governo está a finalizar o seu trabalho com vista a tornar mais atrativo e exequível o projeto de reforço da nossa capacidade, nomeadamente a nossa capacidade produtiva e industrial. Mas temos consciência que na Europa não estamos sozinhos, nem devemos estar sozinhos e por isso nós teremos de conformar este caminho com as perspetivas da Aliança Atlântica, mas também com as perspetivas da União Europeia”, salientou.
Recuando ao mês de julho do ano passado, data em que aconteceu a cimeira da NATO em Washington DC, o primeiro-ministro português lembrou que se comprometeu, perante todos os aliados, em antecipar de 2030 para 2029 o compromisso de Portugal em atingir os 2% do PIB em despesa dirigida ao setor da Defesa.
“Significa para Portugal um esforço financeiro grande a antecipação num ano. Requer uma aceleração de uma trajetória que, infelizmente, nos últimos anos teve como resultado nem sempre conseguirmos atingir aquele que era o objetivo”, afirmou.
Rutte deixa vários avisos a Portugal
As promessas vindas de Montenegro não foram suficientes para Mark Rutte, que rapidamente destacou que a meta de 2% do PIB, estabelecida há mais de uma década, já não é adequada face aos desafios atuais. Ele que já admitiu defender um gasto na ordem dos 3%, quase o dobro dos 1,55% gastos em 2024 por Portugal, numa meta que só é cumprida por cinco países.
"Acolho o compromisso de Portugal em aumentar o investimento, mas a meta dos 2% não é suficiente para os nossos desafios", afirmou, indicando que o investimento na Defesa deve ser mais robusto, considerando as ameaças geopolíticas que a NATO enfrenta.
Os avisos de Rutte, que se encontrava ao lado do primeiro-ministro português, não se ficaram pelo investimento na Defesa.
O antigo chefe do executivo dos Países Baixos não deixou de alertar para a crescente ameaça russa, especialmente em relação à costa portuguesa, que, segundo o próprio, "está nos olhos da Rússia". "Os navios e os bombardeiros russos importam para a costa portuguesa, que está nos olhos da Rússia", afirmou.
Rutte não deixou ainda de sublinhar a importância de Portugal na manutenção de um esforço contínuo para fortalecer as suas capacidades de Defesa, destacando que os desafios à segurança nacional exigem mais do que um simples cumprimento de metas orçamentais. "Estamos fortes hoje, mas para nos mantermos fortes temos de fazer um esforço aumentando os nossos investimentos na defesa", disse Rutte.
Ainda na capital portuguesa aproveitou para reiterar a importância da NATO manter-se unida e determinada na defesa da Ucrânia, afirmando que é "inevitável" que a Aliança Atlântica continue a apoiar o país em guerra com a Rússia, apelando aos países membros para que redobrem os esforços no combate à agressão russa e reforcem as suas defesas, uma mensagem clara de que os desafios atuais exigem respostas mais fortes e rápidas.
“Todos os aliados têm de se levantar para o momento que estamos a enfrentar. Temos de continuar a contribuir para uma Aliança Transatlântica forte”, defendeu, pouco tempo depois de ter alertado que poderíamos acabar todos a "aprender a falar russo" caso não cumpramos certos parâmetros.
A visita de Mark Rutte a Lisboa foi uma oportunidade para reforçar a importância da unidade da NATO e faz parte dos contactos que o secretário-geral da Aliança Atlântica promove junto dos Estados-membros, nomeadamente para começar a preparação da cimeira da NATO que irá ter lugar em Haia.