Sou americano, escrevi o "que se f*oda" e achei muito estranho haver tantos casos de ansiedade em Portugal. Mas já estou a encontrar respostas

Andreia Miranda , Imagem: Pedro Batista/Daniel Driga Edição de Imagem:Teresa Almeida
8 jul, 19:00

Mark Manson começou a dar conselhos num blogue em 2007 e nunca mais parou. Agora, quer descobrir porque é que Portugal, que tão belas praias tem, é tão propenso à ansiedade e outros problemas de saúde mental. E sugere que a resposta pode estar na saudade, no fado, na romantização da melancolia - e na tradição

Como é que um "país bonito, descontraído, solarengo" tem uma das "taxas mais elevadas de diagnósticos de perturbações de ansiedade do mundo"? A dúvida é de Mark Manson, autor do livro "A Arte Subtil De Saber Dizer Que Se F*Da", que depois do sucesso do livro que começou num blogue e se tornou num sucesso de vendas, voltou a Portugal para descobrir porque é que a taxa de ansiedade não para de subir em Portugal desde a década de 90

"De acordo com os estudos recentes, Portugal tem a taxa mais elevada de diagnósticos de perturbações de ansiedade do mundo e tem sido consistentemente uma das mais altas, desde a década de 1990. Como americano, isso é muito estranho, porque a minha referência para Portugal são praias, é um país bonito, descontraído, solarengo. Para mim, foi muito surpreendente. Estou cá para fazer um vídeodocumentário sobre como é que a história portuguesa, a cultura portuguesa, pode explicar isto", afirmou o autor em entrevista à CNN Portugal.

Através de conversas com vários especialistas - entre eles Daniel Sampaio, Gustavo Jesus, Sophie Seromenho e Sofia Crispim -, Mark Manson quis descobrir a resposta para a ansiedade portuguesa e confessa que, nelas, "há duas coisas que surgiram que são muito interessantes"

"Uma é esta cultura da saudade, do fado, e esta relação romântica com a melancolia, a perda e as coisas que poderiam ter sido. Isso é muito interessante, porque a maioria das culturas não o faz, veem isso como uma coisa má. E outra coisa que surgiu - e que eu não sabia - é o quão tradicional é Portugal. Tenho aprendido muito sobre Salazar e os três F’s [Fado, Futebol e Fátima], em como há um foco intenso na família e na tradição, e como se tenta manter tudo na mesma durante muitas décadas. Por isso, para mim, parece-me lógico que isso tenha algum valor cultural", responde. 

No entanto, o que parece "particularmente único" ao escritor é "o conceito de saudade, desta melancolia e desta romantização do que se perdeu".

Isso "faz definitivamente parte da história", considera.

De acordo com os últimos dados do Infarmed, o consumo de ansiolíticos em Portugal quase duplicou na última década, sendo que, por dia, são vendidas 33 mil embalagens no nosso país. O nosso consumo de ansiolíticos regista mesmo "valores elevados" superiores aos de Itália e da Noruega, o que pode "significar que os tratamentos são mais prolongados do que o indicado".

[Leia aqui a entrevista completa]

Portugal não será o único país presente nestes documentários. À CNN Portugal, Mark Manson explica que vai viajar para "muitos países diferentes" e que "cada país tem o seu próprio problema de saúde mental".

"Vamos visitar entre seis a oito países e estamos a investigar por que razão Portugal é tão ansioso. Estivemos em Budapeste e a Hungria tem o maior número de alcoólicos do mundo. Por isso, acabámos de fazer um vídeo sobre a Hungria e o alcoolismo. Vamos a todos estes países diferentes e estamos a aprender sobre as culturas, a história e a compreender como isso afeta a saúde mental", revela, acrescentando que os episódios serão divulgados no YouTube dentro de alguns meses.

Mas, afinal, como é que o homem que começou a escrever num blogue em 2007, e desde então não "parou de dar conselhos", explica que - não só Portugal - mas o mundo esteja mais ansioso? A explicação simples, diz, passa pela "gestão de expectativas".

"Uma coisa que vemos na nossa vida - e que não vemos em toda a investigação - é que à medida que os países se tornam mais ricos, tornam-se mais ansiosos. Penso que parte disto, na verdade - falo sobre isto no livro -, é que quando se é pobre é fácil saber o que esperar. Quando se é pobre só se quer comida e dinheiro e um lugar seguro, mas quando se tem riqueza e oportunidades, surge de repente esta questão de saber o que devo fazer, se isto é melhor do que aquilo, se estas pessoas são melhores do que aquelas. Todas estas novas questões são muito confusas e difíceis de responder e, por isso, penso que, de certa forma, a ansiedade é apenas o custo de uma vida mais fácil fisicamente", afirma, acrescentando que "à medida que as pessoas são expostas a mais informação e à medida que a situação da sua vida pessoal melhora, começam a cuidar de si e aumentam as suas expectativas".

Segundo o INE, em 2023, "de acordo com o modelo Generalized Anxiety Disorder 2-item (GAD-2), 34,3% da população com 16 ou mais anos teria sintomas de ansiedade generalizada, incluindo 11,1% com níveis de ansiedade mais graves".

O mesmo relatório dá conta que "as mulheres e os desempregados têm maior probabilidade de apresentar sintomas de ansiedade generalizada, mas que a idade e a escolaridade se relacionam negativamente com aquela probabilidade".

"Situações de insuficiência alimentar, de doença crónica ou prolongada e a existência de limitações por motivos de saúde contribuem para o aumento da probabilidade de ocorrência de sintomas de ansiedade generalizada", acrescenta o INE.

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