Todos os anos, uma pequena espécie na Austrália faz uma extenuante migração noturna de 620 milhas (cerca de 1000 quilómetros) e consegue essa proeza de uma forma que só os seres humanos e as aves migratórias são conhecidos por serem capazes de fazer, de acordo com um novo estudo.
As mariposas Bogong, que procuram escapar do calor, viajam na primavera de todo o sudeste da Austrália para cavernas frescas nos Alpes australianos, onde se amontoam em estado de hibernação. Os insetos voam então de regresso, no outono, para acasalar e morrer. Os investigadores replicaram as condições dessa viagem surpreendente em laboratório e descobriram uma ferramenta fundamental que as mariposas usavam para encontrar o caminho: o céu estrelado.
“É um ato de verdadeira navegação”, resume Eric Warrant, chefe da Divisão de Biologia Sensorial da Universidade de Lund, na Suécia, e coautor do estudo publicado em meados de junho na revista Nature. “Elas são capazes de usar as estrelas como uma bússola para encontrar uma direção geográfica específica para navegar. E isso é uma novidade para os invertebrados”.
As estrelas não são a única pista de navegação que os insetos usam para chegar ao seu destino. Também são capazes de detetar o campo magnético da Terra, de acordo com evidências encontradas em investigações anteriores conduzidas por Eric Warrant e alguns dos seus colegas do novo estudo. Ao usar duas pistas, as mariposas têm um backup caso um dos sistemas falhe — por exemplo, se houver uma anomalia magnética ou se o céu noturno estiver nublado.
“Com um cérebro muito pequeno e um sistema nervoso muito pequeno, (as traças) são capazes de aproveitar duas pistas relativamente complexas. Não apenas detetá-las, mas também usá-las para descobrir para onde ir”, acrescenta Eric Warrant.
“E acho que isso apenas reforça o consenso crescente de que os insetos têm habilidades notáveis e são criaturas verdadeiramente incríveis”, defende.
Testar a navegação baseada nas estrelas em mariposas
Nativa da Austrália, a mariposa Bogong, ou Agrotis infusa, é totalmente noturna e tem uma envergadura adulta de cerca de cinco centímetros.
“São pequenas mariposas castanhas muito comuns, que as pessoas não distinguiriam necessariamente de qualquer outra pequena mariposa castanha”, resume Eric Warrant.
Embora as mariposas normalmente migrem aos milhares de milhões, o seu número caiu drasticamente nos últimos anos e a espécie está agora em perigo de extinção e consta da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Depois de descobrir, há cerca de cinco anos, que os insetos podiam sentir o campo magnético da Terra, Eric Warrant disse que suspeitava que eles também pudessem estar a usar pistas visuais para ajudar na sua navegação.
Para testar a teoria, o investigador — que é australiano — montou um laboratório com os seus colegas na sua própria casa, cerca de 150 quilómetros a norte do destino final das mariposas nos Alpes australianos.
“Capturamos as mariposas usando uma armadilha de luz, levamo-las para o laboratório e colamos uma haste muito fina nas suas costas, feita de tungsténio, que é um material não magnético. Depois disso, é possível segurar essa pequena haste entre os dedos, e a mariposa voará vigorosamente na ponta dessa corda”, explica.
Os investigadores juntaram então essa haste a outra, também feita de tungsténio, mas muito mais longa, permitindo que cada mariposa voasse em qualquer direção, enquanto um sensor ótico detetava exatamente para onde o inseto estava a ir, em relação ao norte, a cada cinco segundos.
A experiência foi montada numa “arena de mariposas” cilíndrica e fechada, com uma imagem do céu noturno do sul projetada no teto, replicando exatamente o que estava fora do laboratório no dia e hora da experiência.
“O que descobrimos é que mariposa após mariposa voava na direção migratória herdada”, diz Eric Warrant. “Por outras palavras, a direção em que deveriam voar para chegar às cavernas na primavera, que é uma direção para o sul para as mariposas que capturamos, ou para o norte, longe das cavernas no outono, o que é muito interessante”.
Crucialmente, o efeito do campo magnético da Terra foi removido da arena, através de um dispositivo chamado bobina de Helmholtz, que criou um “vácuo magnético” para que as mariposas pudessem usar apenas pistas visuais.
“As traças não podiam contar com o campo magnético da Terra para realizar essa tarefa”, diz Eric Warrant. “Elas tiveram de confiar nas estrelas. E foi o que fizeram”.
Uma viagem surpreendente
Cerca de 400 mariposas foram capturadas para esta experiência comportamental e libertadas em segurança depois. Os investigadores recolheram uma amostra menor, de cerca de 50 mariposas, para tentar compreender o mecanismo neural que elas usavam para navegar, o que envolveu a inserção de elétrodos nos cérebros dos insetos e resultou na morte deles.
“Uma pequena mariposa não consegue ver muitas estrelas, porque o seu olho tem uma pupila que é apenas cerca de 1/10 da largura da nossa pupila à noite”, explica Eric Warrant. “Mas acontece que, por causa da ótica do olho, elas são capazes de ver aquele mundo noturno e escuro cerca de 15 vezes mais brilhante do que nós, o que é fantástico, porque elas seriam capazes de ver a Via Láctea de forma muito mais vívida”.
O especialista diz acreditar que os insetos estão a usar esse brilho intensificado como uma bússola visual para manterem a direção correta.
Além dos pássaros e dos seres humanos, apenas dois outros animais navegam de maneira semelhante, mas com diferenças cruciais em relação às mariposas, de acordo com Eric Warrant. A borboleta monarca norte-americana também migra por longas distâncias usando uma única estrela como bússola, mas essa estrela é o Sol, já que o inseto só voa durante o dia. E alguns besouros do estrume usam a Via Láctea para encontrar o caminho à noite, mas para a tarefa muito mais simples de seguir em linha reta por uma curta distância, o que não se compara à longa jornada das mariposas para um destino altamente específico.
O que torna a habilidade da mariposa Bogong ainda mais extraordinária é que o inseto só faz essa viagem uma vez na vida. Assim sendo, a sua capacidade de navegar deve ser inata.
“Os pais delas morreram há três meses, então ninguém lhes mostrou para onde ir”, constata Eric Warrant. “Elas simplesmente emergem do solo na primavera em alguma área remota do sudeste da Austrália e simplesmente sabem para onde ir. É absolutamente incrível”.
“Muitas questões permanecem”
Warrant e os seus colegas não só descobriram um mecanismo de bússola totalmente novo num inseto migratório, como também abriram uma emocionante via de investigação, uma vez que ainda há muitas questões por responder sobre como as mariposas detetam e utilizam as informações da sua bússola estelar, de acordo com Jason Chapman, professor associado do Centro de Ecologia e Conservação da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que não participou na nova investigação.
“Muitas questões permanecem”, acrescenta, numa entrevista realizada por email. “Por exemplo, como as mariposas Bogong detetam as informações, como as utilizam para determinar a direção apropriada para voar durante a noite e entre as estações, como integram as suas bússolas estelares e magnéticas e quão difundidos esses mecanismos podem (ou não) estar entre outras mariposas migratórias e outros insetos noturnos”.
As descobertas são realmente empolgantes e aumentam o conhecimento dos cientistas sobre as formas como os insetos percorrem grandes distâncias através dos continentes, diz Jane Hill, professora de ecologia da Universidade de York, no Reino Unido, que também não participou do estudo.
“Elas são capazes de navegar na direção correta, mesmo que as estrelas se movam todas as noites pelo céu”, sublinha. “Esta façanha da migração dos insetos é ainda mais surpreendente, dado que diferentes gerações fazem a viagem todos os anos e não há mariposas das gerações anteriores para mostrar o caminho”.
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