Declarações do antigo governador do Banco de Portugal e antigo ministro das Finanças no seu habitual espaço de comentário O Trigo do Joio, todas as segundas-feiras na CNN Portugal
E se, num ápice, todas as projeções do Banco Central Europeu (BCE) passassem a pecar por excesso devido a um acontecimento geopolítico que por si só faça cair o preço do petróleo, acalme os mercados e leve a inflação para índices mais baixos do que o melhor dos cenários do regulador europeu? Manter-se-ia o ciclo de subidas das taxas de juro?
Mário Centeno acredita que um acordo entre EUA e Irão "pode juntar mais informação ao processo decisório do BCE e aquilo que parecia um novo ciclo de taxas de juro", sendo que o antigo governador do Banco de Portugal lembra que "subir as taxas de juro numa única reunião é algo que do ponto de vista monetária não faz muito sentido". Por isso mesmo, o também antigo ministro das Finanças acredita que o ciclo de subidas prenunciado pelo BCE "pode ser revertido e invertido caso as boas notícias se confirmem e de facto a pressão sobre os preços seja muito inferior àquela que era projetada".
"Desde esse dia a guerra praticamente parou"
Esta segunda-feira, no seu habitual espaço de comentário na CNN Portugal - O Trigo do Joio -, Mário Centeno classificou como "muito positivo" o ímpeto que parece estar a tornar plausível um entendimento entre Teerão e Washington, mas alerta que "se tivermos de resumir numa palavra o que há a retirar de tudo isto é cautela".
"Há um histórico de volatilidade muito grande em Trump", destaca Centeno, acrescentando ainda que o mundo já percebeu que "as políticas económicas de Trump não são sustentáveis". "Uma das consequências mais óbvias deste conflito é a inflação e, ainda há poucos dias, Trump dizia que gosta de inflação", lembra.
Para o antigo governador o Irão pouco ou nada teve a haver com a assinatura do memorando de entendimento entre Washington e Teerão, Mário Centeno explica que o fecho do Estreito de Ormuz foi "um choque de realidade", mas defende que o verdadeiro abanão foi dado a Donald Trump veio de dentro dos próprios EUA: "O Pentágono lhe pediu 200 mil milhões de dólares para continuar a guerra e, desde esse dia, a guerra praticamente parou".
Portugal tem "o mais dinâmico dos mercados de trabalho na Europa"
Por falar em Economia norte-americana, Centeno alerta que algumas práticas que têm ocorrido nos EUA, como a modalidade de comprar ou arrendar casas com a condição de só pagar as respetivas prestações ou rendas com um hiato de alguns anos, são perigosas porque estão a "cavar um buraco entre a realidade e o futuro" que mais cedo ou mais tarde tem o potencial de implodir.
No sentido inverso, é no mercado de trabalho nacional que o antigo governador encontra alento económico. Mário Centeno defende que os legisladores devem "respeitar aquilo que o mercado de trabalho em Portugal nos está a dar sendo que, neste momento, nos está a dar é muito".
"É o mais dinâmico dos mercados de trabalho na Europa apenas comparável ao espanhol, muito acima daquilo que são comportamentos a nível de emprego e de salários de mercados como a França ou Alemanha", resume, lembrando que este é um "mercado que continuará nesta tendência se não for perturbado por nenhuma alteração institucional que desajuste a oferta e a procura".
Com as atuais idiossincrasias do mercado laboral nacional, Centeno aponta que os dados mostram que "quando um português muda de emprego tem um ganho salarial que, nesse ano, é o dobro daquele que teve uma pessoa que não mudou de emprego". "Esta é a forma de progressão no mercado" e todos os portugueses devem ter isso em conta sempre que procuram um novo emprego ou renovar as suas competências, aconselha o antigo ministro das Finanças.
