Ex-governador do Banco de Portugal e antigo ministro das Finanças é o novo comentador da CNN Portugal
Mário Centeno alertou esta segunda-feira o Governo e pediu “alguma contenção” na despesa pública.
Em entrevista à CNN Portugal, onde passará a ter um espaço de comentário todas as segundas-feiras, no Prime Time, o antigo ministro das Finanças afirmou que esta é a altura para “todos os agentes económicos” constituírem “almofadas” para tempos piores.
“Tivemos, felizmente para as contas públicas, um fantástico comportamento da receita e esse é o sinal mais importante. Do ponto de vista das contas públicas, insisto que a dinâmica da despesa, como eu já desde 2022 tenho vindo a referir, está a precisar de alguma contenção. Tem crescido sistematicamente acima do PIB potencial e observado”, disse Centeno a João Póvoa Marinheiro no CNN Prime Time. “O rácio da despesa pública no PIB está a crescer quando estamos num bom momento económico, porque não estamos em crise, mas é nesses momentos em que a atividade económica cresce acima do seu potencial que todos os agentes económicos – o Estado, as empresas, as famílias – devem constituir almofadas para fazerem face a momentos em que as coisas não corram tão bem, e eu temo que isso não esteja a ser feito”, acrescentou.
O ex-governador do Banco de Portugal recusou ainda regressar à vida política no atual ciclo político.
“Temos um ciclo político que está a decorrer, com as vicissitudes que todos os ciclos políticos neste momento no mundo têm, e acho que temos de respeitar aquilo que está a acontecer em Portugal”, disse o economista, quando questionado sobre se a liderança do PS estava bem entregue a José Luís Carneiro.
“O que acontecer no futuro estará para além deste ciclo político. Neste momento, o meu foco é aqui, nas conversas consigo”, sublinhou.
Mário Centeno recusou ainda o rótulo de taticista que Pedro Nuno Santos atribui a figuras que não nomeou e que dizem estar à espera do momento certo para liderar os socialistas. “Não sei o que essas palavras significam. Fiz ao longo de toda a minha vida um enorme investimento no conhecimento, foi o fio condutor da minha vida. Nada de tático tem esse investimento e é esse investimento que eu gostava de partilhar.”
O antigo ministro das Finanças abordou também o seu processo de reforma do Banco de Portugal e negou que tenha havido qualquer favorecimento ou ilegalidade durante o processo. “A iniciativa partiu do Banco de Portugal, na pessoa do governador [Álvaro Santos Pereira]. Mas eu compreendi perfeitamente a situação. Era evidente que tinha um contrato de trabalho, não estava disposto nem capaz de abdicar daquilo que foram quase 35 anos de carreira e, de acordo com as regras do fundo de pensões do Banco de Portugal, estava praticamente no momento em que me poderia aposentar. Entendi que era a melhor solução, atendendo à proposta que me estava a ser feita. (…) Foram seguidas todas as regras”, frisou, explicando que as mesmas regras foram aplicadas a “milhares de trabalhadores no Banco de Portugal, no setor bancário e em todas as áreas onde existem fundos de pensões similares”.
“Ainda antes do fim do mandato, iniciei a preparação de um processo de candidatura à vice-presidência do BCE. Esse era o meu propósito. Estou sempre disponível para abraçar funções que possam ter a ver como o serviço público, essa era uma delas. Não se concretizou, era necessário encontrar uma saída e foi essa que o Banco de Portugal me propôs. (…) Foi a solução encontrada para o Banco de Portugal prescindir dos meus serviços”, explicou.
