Navio conseguiu escapar à captura no Mar das Caraíbas no mês passado. Foi perseguido durante duas semanas, durante as quais mudou de nome e passou a ostentar uma bandeira russa - fazia "parte de um eixo russo-iraniano de evasão de sanções que alimenta o terrorismo, os conflitos e o sofrimento do Médio Oriente à Ucrânia"
Foi vigiado durante dias, mudou de nome e passou a ostentar bandeira russa antes de ser finalmente apreendido pelas forças norte-americanas esta quarta-feira. A jornada do Marinera - ou Bella 1, o seu nome original - nas últimas semanas parece digna de um filme de ação, com coprodução dos EUA e do Reino Unido.
A imprensa internacional descreve-o como um petroleiro “enorme e enferrujado”, com 300 metros de comprimento, mas essencial na frota-fantasma utilizada pela Rússia, pelo Irão e pela Venezuela para contornar as sanções ocidentais ao petróleo.
Originalmente denominado "Bella 1", o navio foi sancionado pelos EUA no verão de 2024, sob acusação de transportar carga ilícita para o Hezbollah, um grupo militante libanês apoiado pelo Irão.
No mês passado, Donald Trump impôs um “bloqueio total e completo” de todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela, numa ação entendida na altura como uma escalada das tensões com o então presidente venezuelano, Nicolás Maduro. De acordo com o Guardian, o Bella 1 conseguiu fugir à captura no Mar das Caraíbas nessa altura, quando a Guarda Costeira dos EUA tentou abordá-lo, sem sucesso, quando seguia em direção à Venezuela.
Os EUA continuaram a perseguir o navio enquanto este se dirigia para nordeste. A dada altura, segundo a imprensa internacional, a tripulação do petroleiro “pintou à pressa” uma bandeira russa no casco da embarcação, alegando proteção russa, e desligou os seus transponders enquanto navegava.
Mais tarde, o navio apareceu no registo oficial de navios da Rússia com um novo nome - Marinera - e a Rússia apresentou um pedido diplomático formal a exigir aos EUA para pôr fim à perseguição em alto-mar.
"Apreender um navio com bandeira russa em alto-mar é desconsiderar as reivindicações da Rússia de jurisdição exclusiva sobre a embarcação", explica ao Guardian Craig Kennedy, investigador associado do Centro Davis para Estudos Russos e Eurasiáticos da Universidade de Harvard, que acredita que esta terá sido a estratégia da tripulação para afastar os norte-americanos.
Mas a perseguição continuou, agora com o apoio do Reino Unido, que, segundo o Ministério da Defesa britânico, prestou "apoio operacional pré-planeado, incluindo o fornecimento de bases, aos ativos militares dos EUA" para vigiar o Marinera, enquanto este se dirigia para norte e passava pela costa britânica. Nas últimas semanas foram destacados aviões de vigilância P-8 dos EUA na base da Força Aérea Real (RFA) britânica de Mildenhall, em Suffolk, Inglaterra, e foi mobilizado um navio da RFA Tideforce.
O petroleiro acabou por ser apreendido esta quarta-feira de manhã, quando se dirigia para a Rússia. Em comunicado citado pela Sky News, o secretário britânico da defesa, John Healey, sublinhou que o Marinera fazia "parte de um eixo russo-iraniano de evasão de sanções que alimenta o terrorismo, os conflitos e o sofrimento do Médio Oriente à Ucrânia".
"Tratava-se de um navio da frota paralela venezuelana que transportava petróleo sujeito a sanções”, indicou mais tarde a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, acrescentando que “havia uma ordem judicial de apreensão contra a tripulação”.
De acordo com o New York Times, a Rússia chegou a enviar um navio de guerra para escoltar o petroleiro, mas, quando a Guarda Costeira abordou o navio esta quarta-feira de manhã, não encontrou quaisquer embarcações russas na zona, evitando a possibilidade de um confronto armado entre os dois países, segundo dois funcionários norte-americanos não identificados pelo jornal. O Marinera não transportava petróleo no momento em que foi abordado.
The @TheJusticeDept & @DHSgov, in coordination with the @DeptofWar today announced the seizure of
— U.S. European Command (@US_EUCOM) January 7, 2026
the M/V Bella 1 for violations of U.S. sanctions. The vessel was seized in the North Atlantic pursuant to a warrant issued by a U.S. federal court after being tracked by USCGC Munro. pic.twitter.com/bm5KcCK30X
Na perspetiva de Craig Kennedy, os russos terão caído na sua própria estratégia, tendo sido surpreendidos pelo ataque dos EUA à Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro. Depois de aclamar o “sucesso” desta operação, Trump prometeu manter o bloqueio para pressionar ainda mais o governo interino da Venezuela. “A Rússia tentou obter vantagem intervindo no bloqueio americano”, assume o investigador. “E isso acabou por se virar contra os russos.”
Também esta quarta-feira de manhã, a Guarda Costeira dos EUA interceptou um segundo petroleiro ligado à Venezuela, o M/T Sophia, de bandeira do Panamá, em águas latino-americanas. O Comando Sul das Forças Armadas descreveu-o como um "petroleiro apátrida, sancionado e pertencente à frota clandestina".
Segundo a Reuters, o navio tinha partido da Venezuela no início deste mês e faz parte de uma frota fantasma que transporta petróleo venezuelano para a China em "modo clandestino", ou seja, com o transponder desligado.